Crítica | Year Walk

estrelas 5,0

Tecnologias novas são sempre ansiosamente esperadas pela enorme game de possibilidades que podem trazer. Há 10 anos, ter na palma das mãos uma experiência como Year Walk seria impensável. Felizmente hoje, já com tablets e touchscreens popularizados, é possível experimentar um dos melhores jogos para dispositivos móveis já feitos.

Lançado em 2013 exclusivamente para iOS – e posteriormente garantido para Mac e Windows –  Year Walk é um jogo desenvolvido pela empresa sueca Simogo e pode ser definido como uma experiência interativa misturada com survival horror, puzzle e aventura. O improvável mix ocorre na medida certa e faz o jogador quebrar a cabeça enquanto ouve uma tensa sonoridade e explora o cenário sombrio.

Baseando-se no folclore suéco, o jogo se passa em uma floresta cheia de neve e conta com criaturas sobrenaturais bizarras que dão um tom sombrio e misterioso à história, focada no ritual pagão do século XIX que tem o nome do próprio game. Existe apenas a possibilidade de ir para frente ou para trás e para esquerda ou direita, mudando-se o plano onde se explora o jogo para se descobrir pistas de onde se deve chegar.  Pequenas casas abandonadas, grutas, cemitérios e igrejas são locais visitados em meio às poças de sangue e bonecas de madeira assustadoras, todas vistas pela visão em primeira pessoa do game.

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O incrível é que o jogo usa todo esse pacote de survival horror pintando-o com sutileza nas poucas horas que possui. Nada é jogado na sua cara. Até as partes um pouco mais tensas é o próprio jogador que é levado a buscar, seja pelo som, pelo toque com dois dedos, pela iluminação de lugares escuros, pelo arrastamento de tela ou, ainda, pela virada de iPhone de cabeça para baixo para o puzzle ser resolvido – passei bons minutos para descobrir isso.

Nessa jogabilidade que reside o grande mérito de Year Walk. Trata-se de uma experiência audiovisual feita com muitíssimo esmero, que utiliza o touchscreen com primazia, explorando as mais diferentes possibilidades de resolução de um quebra-cabeça nos dispositivos em que foi feito para ser jogado. Misturando-o com um visual seco e frio e um áudio digno de nota, já que não só dá um clima de suspense como é essencial, em certos quebra-cabeças, prestar atenção nas notas que se ouve, a Simogo conseguiu dar uma atmosfera escura e aterrorizante em um simples jogo para celulares. O clima solitário lembra um pouco o de Limbo, mas a revelação das estranhas criaturas dá um caráter mais de horror do que de suspense.

Se você não é um fã de jogos survival-horror, não se preocupe. Eu mesmo nunca fui um entusiasta do gênero, o que me fez ficar ainda mais maravilhado com a sensação que Year Walk me deu: é um mini survival-horror que pode ser jogado casualmente por qualquer um. A interatividade e o enredo permitem essa entrada de jogadores eventuais que querem apenas descobrir do que se trata essa experiência nova.

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A dificuldade do jogo é até grande em certas partes, porém. Não há a possibilidade de morte, mas a resolução de alguns puzzles, até por serem propostas incomuns dentro do mundo dos games, exige do jogador atenção e paciência. A recompensa no final de tais quebra-cabeças é válida e traz, geralmente, um sorriso na boca do jogador –  que lembro ter sentido quando Psycho Mantis leu meu memory card em Metal Gear Solid, ou quando tive que soprar meu Nintendo DS em Zelda: Phantom Hourglass.

Além do jogo, é possível baixar um aplicativo grátis chamado Year Walk: Companion, que dá informações e ajuda o jogador a entender alguns dos diversos símbolos existentes no game. Simples e bonito, é uma adição bem-vinda para quem zerou o jogo e quer saber mais da história, entende-la melhor e descobrir alguns mistérios que ficaram sem resolução.

Pelo modo como interage com o jogador, pela incrível trilha de Daniel Olsen, pelo visual único que dá ao enredo o tom preciso e até pelos pequenos sustos, Year Walk é um jogo que merece ser jogado. Algumas experiências interativas trazem novidades e contam mitos pouco sabidos pela maioria das pessoas. Combinar novas formas de conta-los e propor desafios novos na mesma medida é um trabalho difícil para qualquer desenvolvedor, mas a Simogo conseguiu dominar tais quesitos e criou uma obra de arte neste pocketgame.

Year Walk
Desenvolvedor: Simogo
Lançamento: 21 de fevereiro de 2013 para iOS e 6 de março de 2014 para PC
Gênero: Aventura
Disponível para: iOS, PC

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.