Crítica | Yojimbo – O Guarda-Costas

Yojimbo

estrelas 5,0

Sem dúvida é a coçadinha na cabeça que faz a diferença. Nos segundos iniciais de Yojimbo, vemos Toshiro Mifune, pelas costas, vestindo seu quimono, dando uma parada, mexendo os ombros e, por dentro de sua roupa, levantando o braço e colocando o dedo estrategicamente para dar aquela coçadinha esperta.

São segundos iniciais preciosos, que falam mais sobre o detalhismo da técnica de Akira Kurosawa e da atuação de Mifune que muitos filmes anteriores. O tom do filme é estabelecido pelos movimentos corporais do personagem Sanjuro Kuwabatake, um ronin que perambula pelo Japão à procura de algum contrato. Nós o vemos apenas pelas costas durante toda a abertura e a música que segue a tal coçadinha rima perfeitamente com ela: tem um tom sério, mas ao mesmo tempo cômico, relaxado, de paz com a vida.

O que vemos na tela, a partir desse ponto, poderia ser mais bem descrito como uma aula de cinema, desde o roteiro até os efeitos sonoros. São tantos detalhes que é difícil, em uma pequena crítica, tratar de todos eles. Mas isso não quer dizer que não posso tentar.

Refilmado pelo menos três vezes (como western spaghetti em Por Um Punhado de Dólares de Sergio Leone, como ficção científica em O Guerreiro e a Espada, estrelando David Carradine e como filme de gângster em O Último Matador, de Walter Hill), o roteiro do próprio Kurosawa mais uma vez com a inestimável colaboração de Ryûzô Kikushima, é uma joia de narrativa. Silencioso e econômico, o roteiro nos apresenta a aspectos básicos apenas: Sanjuro chega a uma cidade dominada por gangues rivais e ele resolve se intrometer. O desenrolar disso é tão orgânico e natural que, apesar do forte tom de humor negro, somos imediatamente arremessados para aquele universo, aceitando cada aspecto da criação da dupla.

Aceitamos Sanjuro como um ronin maduro, calejado de batalhas e extremamente inteligência em termos estratégicos, além de invencível com a espada. Aceitamos o pavor de Gonji (Eijirô Tôno), o dono da taverna que muito relutantemente acolhe Sanjuro no meio da tensão imposta pelas brigas no vilarejo. Aceitamos – até com um sorriso no rosto – o feliz e incessante trabalho do marceneiro local (Atsushi Watanabe), que fabrica caixões, o único ativo realmente importante e valioso por ali. Aceitamos também as improváveis e de certa forma cômicas gangues rivais, cada uma de um lado da cidade, em delicado equilíbrio de forças.

Com poucos diálogos expositivos, Kurosawa fico livre para criar visuais que tendem à perfeição. Um de seus requisitos para filmar foi a determinação de que a obra inteira deveria ficar em foco. Como o roteiro exigia tomadas em plano geral, o trabalho do diretor de fotografia Kazuo Miyagama com o designer de produção Yoshirô Muraki teve que ser absolutamente preciso. Uma prova disso é o forte contraste que permeia toda as cenas do filme, facilitando a identificação dos personagens mesmo a consideráveis distâncias. Aliás, não foi por coincidência que escolhi a foto que ilustra a presente crítica. Vejam só a inconfundível silhueta – em foco – de Sanjuro, com os braços para dentro do quimono, enquadrados por membros de uma das gangues com roupas mais claras que ele. E isso tudo com os técnicos tendo que compensar as rajadas de vento que assolavam o set durante toda a filmagem e que foram incorporados por Kurosawa na linguagem da película.

Mas o melhor exemplo do foco profundo não está nos planos gerais ou mesmo nos planos conjuntos. Em determinado momento, há uma pausa nas provocações de um lado a outro, pois uma autoridade fiscalizadora vem visitar o vilarejo. Todo o local, a mando dos bandidos, tem que parecer normal aos olhos do oficial que, claro, é extremamente corrupto. Assim, somos levados para dentro da taverna e vemos, sob o ponto de vista de Sanjuro e de Gonji, por detrás das frestas da parede da taverna, o oficial sendo paparicado pelas duas gangues. A câmera está quase encostada na parede, mas nós vemos cada detalhe da madeira enegrecida em perfeito foco, assim como os acontecimentos do outro lado da rua. Não perdemos absolutamente nada graças ao trabalho da fotografia e dos fortíssimos contrastes da cena.

Mas nada transmite mais credibilidade do que um ator tão inserido em seu papel que esquecemos que ele está atuando. Assim é Toshiro Mifune criando seu samurai honrado e pobre, cujos únicos bens são sua mente afiada e sua boca esfomeada e mais afiada ainda. Ele é Sanjuro – ou será que Sanjuro é ele? – e parece estar tão à vontade no papel que fica difícil imaginá-lo em outro, mesmo depois de Rashomon e Os Sete Samurais.

Só que Mifune não está sozinho, apesar de ser o absoluto foco do filme e sua peça principal. Seus coadjuvantes foram perfeitamente escalados, a começar por Eijirô Tôno como Gonji, que nos transmite pavor e sabedoria com um único olhar. Outro que merece destaque é Tatsuya Nakadai, o pistoleiro Unosuke, que olha com tanta lascívia para sua pistola que parece um objeto fálico. Nakadai já era um ator estabelecido no Japão, vindo de obras como Arakure, dirigida por Mikio Naruse e Guerra e Humanidade, de Masaki Kobayashi. Em Yojimbo, o ator faz um contraponto a Mifune, com seu porte nobre contrastando com sua natureza cruel. Ele não vive um personagem totalmente crível, pois esse não foi o objetivo de Kurosawa. Ele tem aquele mesmo tom de invencibilidade do Yojimbo de Mifune, mas como se ele fosse a versão nobre de seu inimigo. O embate entre os dois, que na verdade pouco contracenam, é absolutamente fantástico.

E os embates físicos que existem funcionam muito bem, pois Kurosawa foge do sangue e enfoca na coreografia. O primeiro grande momento é quando Yojimbo enfrenta uma gangue para mostrar à outra que é bom no que faz. Nada de lutas atléticas ou heroicas. O que vemos é velocidade e precisão (algo que chegaria ao seu ápice em Sanjuro, o filme seguinte, mas essa é outra história…) e uma beleza plástica estonteante. Em seguida, vemos o grande embate entre as duas gangues rivais que literalmente dançam um balé ou, fazendo uma comparação mais colorida, passos de uma dança de acasalamento de pássaros exóticos.

No entanto, o que chama a atenção de verdade é o som. Ichirô Minawa a pedido de Kurosawa, não só recriou os sons de espadas batendo umas nas outras como determinou o padrão da indústria para o som desses instrumentos cortando a carne humana. De carne de porcos e de boi, passando por galinhas e panos molhados, Minawa criou uma biblioteca sonora tão rica que nem mais damos valor hoje em dia de tão lugar-comum que ela se tornou. Mas tudo começou – ou recomeçou – em Yojimbo, graças a um diretor perfeccionista cercado de uma competentíssima equipe técnica.

E eu poderia continuar eternamente a escrever sobre Yojimbo, mas não quero levar meus leitores às lágrimas de chateação. Fica apenas uma mensagem: Yojimbo é uma obra tão multifacetada e detalhada – na verdade, isso não é uma novidade se você vem acompanhando as críticas do Especial Akira Kurosawa de meu colega Luiz Santiago – que ela exige que seja vista repetidas vezes. Na verdade, é o espectador que ficará tão intrigado com aquela coçadinha na cabeça que marca o começo de tudo que se sentirá compelido a voltar para ver Sanjuro entrando no vilarejo mais uma vez. E, se isso acontecer, desafio alguém a desligar a TV antes que o ronin dê as costas novamente e vá embora.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.