Crítica | “You Can’t Use My Name” – Curtis Knight and The Squires

estrelas 3,5

How Would You Feel… ao ouvir um material “novo” do Deus da Guitarra Jimi Hendrix em pleno 2015, quarenta e cinco anos depois de sua trágica morte? Pois é. Tá aí o tipo de coisa que nos desarma facilmente e, mesmo que estejamos envoltos por nossa aura de críticos rigorosos e implacáveis, não há rigorosidade no mundo que a mágica da guitarra de Hendrix não possa torcer, quebrar, despedaçar… e fazer dançar!

Dito isto, por mais que este lançamento não apresente novidades que acrescentem de fato ao catálogo extraordinário do músico norte-americano, continua sendo Hendrix tocando a sua guitarra, e por isso eventuais “falhas” não só podem como devem ser perdoadas. Independente de qualquer coisa, a Música sempre precisa de Jimi Hendrix. Sua “volta” e “revolta” serão bem-vindas em qualquer ocasião que conte com pessoas minimamente sãs – e de ouvidos saudáveis.

O que temos aqui é um material gravado antes do mestre se mudar pra Inglaterra – antes de fazer aquelas experimentações alucinadas que resultariam em seus discos Axis: Bold as Love e Electric Ladyland. No mundo de You Can’t Use My Name, Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band e Pet Sounds não existem… e Bob Dylan se prepara para ser o elemento transformador que viria a abalar o mundo da música pra sempre. Isto é, aquele ambiente de competição saudável (às vezes nem tanto…) que rolava entre artistas e bandas ousados, todos com o mesmo objetivo: ir além do que se poderia ir, ainda não havia eclodido por completo. Estamos no tempo compreendido de 1965 a 1967. É o groove, o feeling e o swing que importam. You Can’t Use My Name possui um repertório direto e seco; faixas com tempo de duração curto, diferente do que estamos acostumados em se tratando de Hendrix – embora existam sim algumas semelhanças entre este o primeiro álbum do músico, Are You Experienced?, mais focado na composição do que em experimentações. Mas o grande barato de ouvir You Can’t Use My Name está em perceber/entender o Jimi Hendrix em formação que, obviamente, toca muito… e se prepara para ganhar o mundo.

As gravações são um reflexo do seu tempo: música de raiz negra, blues com pitadas de soul e muitos solos de guitarra. É um som cheio de energia, mas ao mesmo tempo pragmático, pois ainda estava para encontrar o futuro e fazer amizade e fumar um baseado com a revolução alguns anos depois – e como sabemos, o próprio Hendrix seria um dos elementos-chave dessa revolução.

Compostas em sua maioria por Curtis Knight, não há nada de muito excepcional nas canções que fazem parte deste álbum, ainda mais para quem espera algo remotamente do nível de Are You Experienced?. Porém, as performances aqui são repletas de energia e pegada. Percebe-se claramente que este é um som que grita para ser ouvido, um som de uma época em que a Música importava de fato. E isso é lindo.

As canções que abrem o álbum, How Would You Feel (já citada no primeiro parágrafo deste texto) e Gotta Have a New Dress são dançantes e explosivas – são, para ser sincero, o que de melhor Curtis Knight and The Squires apresentam aqui. Se o disco fosse apenas composto por canções assim, juro, eu já estaria mais que satisfeito. É o tipo de canção que alimenta a alma ao mesmo tempo em que faz com que você mexa os pés involuntariamente e não se incomode com isso.

Detalhe: é interessante perceber como How Would You Feel possui uma métrica semelhante a da seminal Like a Rolling Stone, de Bob Dylan. Se formos escutar com atenção, logo identificaremos isso. Mais interessante ainda é saber que esta música, muito provavelmente, foi gravada antes de Like a Rolling Stone vir à tona. Coincidência? Coisas da vida…

Don’t Accuse Me é um blues especial; o riff de No Such Animal é “animal”. Destaques também para Fool For You Baby e Station Break, um instrumental precioso. Welcome Home é sem dúvida uma das melhores do álbum, juntamente das já citadas How Would You Feel e Gotta Have a New Dress. Por outro lado, não poderiam ter escolhido canção mais insossa que Gloomy Monday para fechar o disco: não fosse pela guitarra, correria o risco de isto aqui ser confundido com alguma obra de uma boy band animadinha sem inspiração; nem bons produtores; nem paciência para fazer algo minimamente interessante. Imperdoável.

Por fim, fica para a posteridade uma lembrança de Hendrix em seus anos de formação – o Hendrix que ainda não havia se tornado Hendrix. Repleto de boas canções e de uma energia típica da época em que foi gravado, You Can’t Use My Name pode não estar à altura do talento do Deus da Guitarra, mas ao menos serve como instrumento de curiosidade para aqueles que desejam conhecer a carreira do músico mais a fundo. Vida longa, Jimi!

You Can’t Use My Name
Artista: Curtis Knight and The Squires
País: EUA
Lançamento: 24 de março de 2015
Gravadora: Sony Music
Estilo: Pop/Rock, R&B, Soul

KARAM . . . Desde 1992, o ano em que foi apresentado ao mundo por duas admiráveis criaturas que logo se identificaram como "pais", Karam vem se aventurando pelos caminhos da Arte, da maneira que pode. Na música, Aretha Franklin é a sua pastora. Na Literatura, andou se entendendo muito bem com Clarice Lispector e Oscar Wilde. Embora faça faculdade de Cinema, não esconde que seu filme preferido – ao contrário do que muitos poderiam presumir – não é nenhum cult de Bergman ou Fellini, mas sim O Rei Leão; é!, aquele lá mesmo, da Disney. Um dia leu, em Leminski, que "isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além" e, assim, resolveu investir na ideia proposta pelo poeta para, quem sabe um dia, chegar ao além sem precisar passar pelo infinito – que é a pra não ter a infelicidade de esbarrar com o Buzz Lightyear no meio do caminho (fora, concorrência!).