Crítica | “You Want It Darker” – Leonard Cohen

estrelas 4

“I’m leaving the table 
I’m out of the game” 

Leonard Cohen

 

A morte sempre foi um tema muito propício a ser explorado pelas mais diversas artes devido a seu inevitável e insolucionável mistério. E justamente o fatídico ano de 2016, responsável por levar uma gama de músicos lendários, foi responsável por nos presentear com obras magníficas e profundas sobre o tema da morte, como David Bowie e seu Blackstar, Nick Cave & The Bad Seeds com seu Skeleton Tree e recentemente o excelente You Want It Darker, trabalho que marca a despedida de Leonard Cohen. Sequência de Popular Problems (2014), Cohen constrói um álbum que arrepia ao ser ouvido após sua morte já que, assim como Bowie em Blackstar, conversa com suas memórias e com a morte como se sentisse que sua hora (menos de um mês depois do lançamento do disco) estivesse próxima de chegar.

You Want It Darker segue a estrutura de seus últimos discos, Old Ideas e Popular Problems, mas se destaca entre os três pelo aspecto mais centrado na melancolia, que embora onipresente no disco, nunca cai no pessimismo. É extremamente focado nos poemas de Cohen, interpretados por ele como um sábio narrador com o auxílio de uma produção (dividida entre o filho, Adam, e o parceiro de vários discos, Patrick Leonard) que dá profundidade a sua poderosa voz, impactante e marcada pela idade. Logo de início, a linha de baixo introdutória da faixa de abertura junto ao coro soturno de vozes deixa bem clara essa atmosfera mais sombria e introspectiva que o normal.

A morte e o envelhecimento são abordados com uma sutileza impressionante. Travelling Light, por exemplo, é uma faixa contemplativa sobre a vida, fazendo uso de inteligentes metáforas para referenciar a fluidez do tempo, despedidas, encontros e desencontros e a velhice como obstáculo (Minha uma vez tão brilhante, minha estrela caída/ Estou atrasado, eles fecharão o bar). Judeu, Cohen referencia a religião como tema indireto em metáforas belíssimas (destaque aos versos de Treaty) e desenvolvimento lírico que surpreende pela métrica perfeita, se assemelhando a praticamente uma grande oração, uma descontraída conversa com Deus. Se trata de música feita no seu conceito mais poético e artístico possível.

As duas últimas faixas marcam o ápice do instrumental, que durante o resto do disco se mostra mais tímido e pontual, embora não menos competente. Steer Away, narrada e ambientada como uma aventuresca viagem através de seu arranjo sinfônico tipicamente celta, progride de maneira emocionante com o avançar das cordas chorantes do violino e a passagem de tempo narrada por Cohen (“Ano por ano, mês por mês, dia por dia, pensamento por pensamento”). Tudo se encerra na tocante sinfonia de String Reprise/ Treaty onde apenas quatro versos sintetizam o testamento deixado pelo autor. “Eu queria que tivesse um acordo que pudéssemos assinar”, ele emenda no poema, “Está terminado agora, a água e o vinho”.

“Estou pronto, meu senhor” – o cantor proclama em certo momento de You Want It Darker em tom confortável e consciente de que havia feito bem seu trabalho na Terra. Leonard Cohen se despediu de nós através de um álbum coeso, emocionante e arrebatador, fechando seu acervo de obras em grande estilo. Obrigado mais uma vez, Cohen. Poucos fizeram música de um jeito tão sensível como você. Isso é música que vem do céu.

Aumenta!: Steer Your Way
Diminui!:

You Want It Darker
Artista: Leonard Cohen
País: Canadá
Gravadora: Columbia
Lançamento: 21 de outubro de 2016
Estilo: Folk

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.