Crítica | “Young, Gifted and Black” – Aretha Franklin

estrelas 5,0

Este é um dos melhores álbuns já gravados por Aretha Franklin e talvez você nunca tenha desconfiado de sua existência. Tudo bem. Não se trata de um álbum de grandes hits, o que já diz muita coisa sobre o fato de ele não ser tão reconhecido como deveria. Além do mais, com o passar do tempo (o tempo! Sempre ele! Cruel…) a inegável força de suas canções foi ofuscada por outras obras mais conhecidas que abrilhantam o prolífico catálogo da Rainha do Soul. As tais obras são, na verdade, dois álbuns clássicos, que hoje servem de referência para músicos e, principalmente cantores que ambicionam enveredar pelos caminhos da Soul Music. Desses você provavelmente já ouviu falar, ou talvez já tenha lido sobre eles logo em sua primeira pesquisa por Aretha Franklin no Google. Pois então: acontece que I Never Loved a Man the Way I Love You, de 1967 e Lady Soul, de 1968, frequentemente citados como os melhores exemplares da inconstante, mas vitoriosa carreira da cantora norte americana encontram em Young, Gifted and Black um rival à altura, de grandeza semelhante. Por quê? A resposta é simples, e está na diferença vital do trabalho de 1972 para seus predecessores famosos: enquanto os álbuns do final da década de 60 traziam os hits (Respect, Dr. Feelgood, Chain of Fools, Natural Woman, Since You’ve Been Gone…) e escancaravam para o mundo as excepcionais habilidades vocais de Aretha, neste trabalho de 1972, complexo e desafiador, temos uma amostra fiel e balanceada (e por isso mesmo, concisa) do talento abrangente da cantora, que não compreende apenas o poder de suas indomáveis cordas vocais, mas ousa servir de suporte para a potência e a extensão de sua voz (April Fools, Didn’t I Blow Your Mind this Time); se estende à força de sua interpretação (The Long and Winding Road, Young, Gifted and Black, Oh Me Oh My), passando pelos seus recursos como compositora (Day Dreaming, Rock Steady, All the King’s Horses), sua musicalidade bluesy como pianista (I’ve Been Loving You Too Long) e, para fechar com chave de ouro, ainda presta-se a reservar um espaço para belos arranjos e uma produção impecável. Créditos para Tom Dowd, Arif Mardin, Jerry Wexler e, claro, Ahmet Ertegun, co-fundador da Atlantic Records, que, em seus estúdios, deu vida à música de grandes monstros sagrados como Ray Charles e Led Zeppelin.

Uma das coisas que mais me fascinam em Young, Gifted and Black (além do caráter épico) é o fato de o disco realmente tratar-se de uma obra distinta, sem paralelos no catálogo de Franklin – pelo menos em relação aos seus primeiros lançamentos pela Atlantic. Day Dreaming, que chega a causar o efeito de vertigem através do canto psicodélico das backing vocals do The Sweet Inspirations e A Brand New Me, um jazz pouco convencional (arranjo interessantíssimo, vale frisar), em que Aretha brinca de Ella Fitzgerald ao arriscar um improviso cheio de malemolência, são canções atípicas para a artista. E, o mais notável em relação ao diferencial deste álbum são as músicas que abrem o disco, especialmente as duas primeiras. Enquanto nos discos anteriores Aretha tratava de “tacar fogo na casa” logo de cara, aqui ela é mais contida, abrindo espaço para a possibilidade de se arquitetar o clímax do álbum aos poucos. Em I Never Loved a Man the Way I Loved You, a faixa de abertura é Respect, a melhor daquele LP e uma das mais expressivas de sua carreira. Assim que colocamos Aretha Arrives pra tocar, uma versão explosiva e soulful (como não poderia deixar de ser) de I Can’t Get No (Satisfaction) – sim, o clássico dos Stones – já põe a voz da cantora à prova, sem qualquer pudor. Em Lady Soul é a raivosa Chain of Fools que inicia os trabalhos. Já Aretha Now abre direto com Think, que dispensa comentários. A primeira canção de Soul 69 é Ramblin, um jazz, ok, mas incorporado à habitual interpretação ardente e cheia de energia de Aretha, sem qualquer vestígio de sutileza. E em This Girls is in Love With You e Spirit in the Dark, as músicas iniciais – Son of a Preacher Man e Don’t Play That Song, respectivamente – por mais que tenham seus momentos de calmaria (principalmente a primeira), são entregues a seus destinatários com fúria pela voz rasgada de Aretha.

Em Young, Gifted and Black, é diferente. Primeira faixa? A singela Oh Me Oh My (I’m a Fool for You Baby), uma canção de amor. E sem remorsos! Segunda? A incomum Day Dreaming. É a partir da terceira, a dançante Rock Steady, que o disco começa a tomar fôlego e caminha consciente, rumo a alcançar sua missão de nos arrebatar pelos próximos minutos. Há uma construção de clímax sutil e muito bem trabalhada, que passa pela versão brilhante da faixa-título (de Nina Simone) e chega até a melhor canção do disco, The Long and Winding Road, um Beatles oxigenado com toques magistrais de Gospel, arrepiante principalmente em seus momentos derradeiros nos quais parece que Aretha se esqueceu de vez que se encontrava dentro de um estúdio de gravação e pensou que estava na igreja. Como se não bastasse toda essa pompa, a Rainha do Soul finaliza o disco com uma espirituosa Border Song (Holy Moses), na qual ela deixa no ar a pergunta “can we live in peace?” e parte para casa feliz da vida por ter abençoado o mundo com mais um trabalho inspirador. Não sei se é possível viver em paz, mas só o fato de termos a música de Aretha Franklin entre nós pra sempre já me serve de consolo, pelo menos por agora.

Ainda que First Snow in Kokomo e Didn’t I Blow Your Mind This Time não acompanhem a genialidade das demais canções – e como poderiam? – ainda assim cumprem bem seu papel, compondo o disco com qualidade e elegância. Desta forma, as doze faixas, todas elas, podem ser apreciadas sem receios. E a simples conclusão que posso tirar disso tudo é que nesta obra-prima de 1972 não há sequer uma música ruim. Nem os tempos, nem a gravadora, e muito menos a cantora, permitiriam que isso acontecesse. Ah! Que saudade! Saudade? Mas… espera um pouco… Eu nasci em 1992! Pois é. É isso mesmo: saudade do que não se viveu. Tá aí a verdadeira prova de que Young, Gifted and Black é muito mais que um disco. É História.

Young, Gifted and Black
Artista: Aretha Franklin
País: EUA
Lançamento: 24 de janeiro de 1972
Gravadora: Atlantic Records
Estilo: R&B, Soul

KARAM . . . Desde 1992, o ano em que foi apresentado ao mundo por duas admiráveis criaturas que logo se identificaram como "pais", Karam vem se aventurando pelos caminhos da Arte, da maneira que pode. Na música, Aretha Franklin é a sua pastora. Na Literatura, andou se entendendo muito bem com Clarice Lispector e Oscar Wilde. Embora faça faculdade de Cinema, não esconde que seu filme preferido – ao contrário do que muitos poderiam presumir – não é nenhum cult de Bergman ou Fellini, mas sim O Rei Leão; é!, aquele lá mesmo, da Disney. Um dia leu, em Leminski, que "isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além" e, assim, resolveu investir na ideia proposta pelo poeta para, quem sabe um dia, chegar ao além sem precisar passar pelo infinito – que é a pra não ter a infelicidade de esbarrar com o Buzz Lightyear no meio do caminho (fora, concorrência!).