Crítica | Your Name.

Nunca verdadeiramente gostei da estética de animes, mas isso não me afasta completamente de animações japonesas. Your Name., em razão de seu sucesso estrondoso em seu país de origem, sendo a quarta maior bilheteria da história por lá, efetivamente acabou atiçando minha curiosidade.

Não conhecer nada da obra – da animação em si ou do romance do diretor e roteirista, publicado um mês antes da estreia – ajuda na apreciação de seu conjunto, pois a aura de mistério que rodeia a narrativa funciona na apreciação de seu conjunto. Em linhas bem gerais, para manter a crítica sem spoilers, trata-se de um drama em que somos apresentados a Mitsuha Miyamizu (Mone Kamishiraishi) e a Taki Tachibana (Ryunosuke Kamiki), a primeira uma jovem moradora de um vilarejo às margens de um lago em uma cratera, no interior do Japão e, o segundo, um jovem de Tóquio, que têm uma conexão mística que lhes permite “trocar de corpos” sem, porém, que mantenham a memória de suas experiências (daí o nome enigmático da obra, “Seu Nome”).

A situação, em seus minutos  iniciais, é confusa e desnorteadora, resultado que, creio, foi proposital por parte do diretor e roteirista (e escritor do romance) Makoto Shinkai, conhecido por O Lugar Prometido em Nossa JuventudeViagem Para Agartha, dentre outros. Com isso, o interesse do espectador é logo despertado, como um pequeno quebra-cabeças que precisa ser montado. Mas a estrutura básica da narrativa não demora para ser estabelecida e o que segue é uma história que parece ser bem mais longa do que deveria ser, com momentos repetidos tanto pelo lado de Mitsuha, o foco da primeira metade, quanto pelo lado de Taki, que recebe um tratamento mais dedicado a partir da segunda metade.

A grande verdade é que Your Name., para ser apreciado de verdade, exige um bom grau de tranquilidade e contemplação. E há muito para contemplar no anime.

Como abri a presente crítica, a estética da animação japonesa nunca foi minha preferida, mas, aqui, os exageros comuns aos animes abrem espaço para traços mais sóbrios, com expressões faciais mais controladas e nada caricatas. Sim, ainda é um claro e evidente anime e não há como afastar isso em momento algum. No entanto, Shinkai trabalha a arte como um drama clássico e não como uma animação, o que empresta uma dramaticidade contida rara de se ver em histórias do gênero. Além disso, o detalhamento é deslumbrante, realmente de cair o queixo e de dar vontade de pausar, imprimir a tela da TV e enquadrar as células de animação.

Desenhado tradicionalmente, a plasticidade de Your Name. impressiona até os mais céticos espectadores. O vilarejo de Mitsuha respira autenticidade ancestral, da mesma forma que a Tóquio de Taki deixa evidente a modernidade da capital japonesa. Pequenos detalhes de segundo, terceiro e quarto planos não são esquecidos em momento algum, enriquecendo a experiência incrivelmente e, até certo ponto, compensando o roteiro lento que parece, por várias vezes, correr atrás do próprio rabo.

Assim, a arte funciona para opor o tradicional ao moderno, o masculino ao feminino, o lento ao rápido. Os opostos, aqui, se complementam lindamente em uma história de amor que sorve inspiração de diversas fontes, desde as dezenas de livros e filmes que lidam com trocas de corpos ou experiências extra-corpóreas das mais variadas naturezas, até pitadas de AmnésiaO Feitiço de Áquila e até mesmo de Impacto Profundo.

Não há que se esperar, porém, ação no sentido tradicional da palavra. É, como escrevi, um anime que se vale da tranquilidade e da calma para funcionar, exigindo o mesmo do espectador. Há sim reviravoltas interessantes, mas nada que seja inesperado ou particularmente original. O importante é que a narrativa de Shinkai, por mais desnecessariamente alongada que seja, mantém uma lógica interna clara e resolve sua narrativa de forma satisfatória, ainda que com altas doses de água com açúcar.

Mas não é só de imagens que Your Name. vive. A trilha sonora composta por Yojiro Noda, vocalista da band japonesa Radwimps, é outro ponto alto do anime, com uma sincronização que ajuda na compreensão da narrativa e amplifica evitando qualquer traço de didatismo.

Your Name. é um anime falho, mas visualmente deslumbrante. Aparentemente, o público japonês curvou-se à forma sobre a substância, mas, sinceramente não dá para condená-lo por isso, já que a arte, aqui, é realmente inesquecível.

Your Name. (Kimi no na wa., Japão – 2016)
Direção: Makoto Shinkai
Roteiro: Makoto Shinkai (baseado em seu romance)
Elenco: Ryunosuke Kamiki, Mone Kamishiraishi, Masami Nagasawa, Etsuko Ichihara, Ryo Narita, Aoi Yūki, Nobunaga Shimazaki, Kaito Ishikawa, Kanon Tani
Duração: 106 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.