Crítica | Yves Saint Laurent

estrelas 5

O filme começa com ares de nostalgia com uma cor empalidecida e romântica. Entramos no quarto do estilista e vemos os croquís pregados por toda a parte. Yves é um rapaz gentil de fala mansa, que se mostra ágil e determinado quando se trata de idealizar uma roupa. A sexualidade dele é bastante abordada e consequentemente os relacionamentos amorosos dele vão, de certa forma, afetar o decorrer das fases artísticas dele.

Eu já acompanho a carreira de Pierre Niney desde Românticos Anônimos e sem dúvida essa é a melhor atuação dele até hoje. Ele tem formação em comédia e se você sabe fazer comédia sabe fazer drama como ninguém. No elenco, Guillaume Gallienne também possui formação na escola francesa de comédia. Ambos estão caracterizados física e gestualmente de maneira impecável, até mesmo a modulação da voz guarda semelhança crível. Não reconhecemos os atores, vemos os personagens. Isso é muito difícil quando se trata de incorporar trejeitos de figuras públicas.

Um filme não tem a pretensão de condensar uma vida inteira em 106 minutos, mas essa biografia contada a partir dos olhos do amante e sócio de Laurent consegue pontuar bem os altos e baixos dessa personalidde da moda francesa, assim como retratar a contextualização dos bastidores para as criações YSL.

Ainda sob a tutela de Dior ele segue a vertente romântica e clássica associadas à demarcação de silhuetas ditando o tom de forma de ampulheta feminina. Logo adiante quando assume a marca mantém esse adequamento ao estilo da grife Dior, já alguma neutralidade de cores, mas nada que simulasse o próximo passo quando inaugura o próprio atelier. Nesse momento ele ainda vive um dilema com a sexualidade.

Com uma narrativa bem poética, os diálogos são substanciais e presentes quando necessário. Mas algumas das cenas mais impactantes são aquelas em que o silêncio assume a forma de comunicação mais sutil. Pela troca de olhares percebemos o vínculo que se formou entre Yves e Pierre Bergé, nenhum contato físico foi preciso para apontar a aproximação deles na cena da piscina, a cumplicidade estava no olhar e o mergulho simboliza a oficialidade da relação, a entrega.

O diagnóstico de maníco-depressão é um turning point do filme. Ele parte para uma segunda fase artística, a primeira verdadeiramente autoral, que ressignificou o senso de sofisticação e elegância. Ele se afasta do mentor e cria a própria marca, com Pierre à frente da parte administrativa. Nesse contexto, Yves é tomado por incertezas e as fragilidades são acentuadas.

A próxima criação destacada no filme é a coleção Mondrian, um novo ponto de ruptura, a década do amor livre, das drogas. Uma busca desenfreada por compensar o tempo de dedicação à moda desengata em um Yves descompensado,e essa é a fase mais intensa da interpretação de Pierre Niney. É quando identificamos visivelmente um paralelo entre onde ele partiu e aonde chegou no desenvolvimento do personagem. E o choque entre os dois causa a ebulição de cenas com ritmo mais acelerado e ações mais espontâneas. Cores mais escuras e brilhantes tomam a tela.

 Advém disso o início da moda como atitude social política, Yves antes tímido começa a se posicionar ativamente e isso transborda para o trabalho de YSL. O tempo todo no filme são feitas referências culturais e artísticas, uma simbiose que toma conta do que é produzir arte e impossibilita separar em moda, pintura, música. Da mesma forma, existe uma conexão ininterrupta entre a vivência pessoal do artista design e a obra dele.

Yves Saint Lourent (França, 2014)
Diretor: Jalil Lespert
Roteiro:  Jalil Lespert, Marie-Pierre Huster, Jérémie Guez, Jacques Fieschi, Laurence Benaim
Elenco: Pierre Niney, Guillaume Gallienne, Charlotte Le Bon, Laura Smet, Nikolai Kinski
Duração: 106 min.

GABRIELA MIRANDA . . . Cinéfila inveterada, sigo a estrada de ladrilhos amarelos ao som de Jazz dos anos 20 enquanto escrevo meu caminho entre as estrelas. Com os diálogos de Woody Allen correndo soltos na minha cabeça, me pego debatendo entre gostar mais do estilo trapalhão ou de um tipo canalha de personagem. Acima de tudo, acredito que tenho direito de permanecer com minha opinião. Mas acredite, nada do que eu disser poderá ser usado contra os filmes.