Crítica | Z Nation – 1ª Temporada

estrelas 4

Z Nation é uma produção feita para o canal Syfy em sua lenta tentativa de reconstrução de sua grade de ofertas ao público, tentando sair do abismo a que caminhou com filmes puramente trash feitos para TV como Sharknado, Sharktopus e Mansquito. Afinal, estamos falando do canal que, quando era chamado Sci-Fi Channel, recriou Battlestar Galactica como uma das melhores ficções científicas já feitas e, antes disso ainda, legou para o mundo um gigantesco guilty pleasure chamado Stargate SG-1 e todas as suas derivações.

A nova série faz parte do esforço do canal de ser levado à sério novamente, formando uma quadra com Defiance, Helix e 12 Monkeys. Mas reparem bem: ser levado à sério não quer dizer fazer séries sombrias, pesadas e filosóficas necessariamente. Há espaço para de tudo um pouco e Z Nation, abordando o apocalipse zumbi, assunto tornado novamente quente graças ao sucesso quase inacreditável de The Walking Dead, não tem absolutamente nada de sério.

Mas que fique claro: a série não é uma comédia. Poderia ser, no máximo, uma comédia de humor negro, mas a melhor forma de definí-la é mesmo como uma inteligente e bem produzida sátira que oscila perfeitamente bem entre filmes distópicos e filmes trash B de horror. Há muitas risadas para serem dadas ao longo desses deliciosos 13 episódios da 1ª temporada, mas também há muita nojeira, sangue para todo o lado e situações extremas de violência e sadismo que deixariam o Leatherface de O Massacre da Serra Elétrica com muita inveja.

“Como é então que você gostou disso?” – talvez vocês perguntem. Bem, como disse, há lugar para tudo. Assim como profundidade filosófica e crítica social não faz mal à ninguém, um pouco de violência gratuita em uma série que se propõe à isso sem arroubos de seriedade também não faz mal à ninguem, a não ser que você se escandalize muito facilmente, algo que, nos dias atuais de políticos corruptos, ISIS e coisas do gênero, escandalizar-se com zumbis é, diria, uma impossibilidade neurológica.

Z Nation é, em poucas palavras, um road movie com mortos-vivos em que um grupo de humanos sobreviventes de um holocausto zumbi tem que levar a última esperança de uma cura – Murphy, um homem imune às dentadas dos monstros – de Nova York até a Califórnia. A estrutura narrativa é, forçosamente, a de “problema da semana”, pois em uma série dessa natureza, cada avanço do grupo já automaticamente significa uma progressão natural no arco principal da história. Portanto, aqui e somente aqui, a natureza escancaradamente episódica da série funciona bem.

E os showrunners Karl Schaefer e Craig Engler, fazem o melhor que podem dentro do objetivo de seu trabalho. A cada capítulo, somos apresentados a situações tão hilárias quanto tensas, com absurdos inimagináveis que vão desde um adorável bebê zumbi até um gigantesco urso zumbi, passando por um sensacional “zumbinado” (só vendo para crer), horrendos atos de canibalismo, paraísos de Amazonas e uma infindável lição de como matar – zumbis e humanos – das maneiras mais criativas possíveis. Portanto, se seu estômago é fraco, fuja da série. Se, por outro lado, você conseguir se divertir descerebradamente com uma baboseira dessas, Z Nation é um prato cheio.

Quando disse que a série era inteligente e bem feita, não estava brincando. Mas claro que essa adjetivação tem que ser vista sempre de forma relativa, ou seja, dentro da proposta dos showrunners, que é brincar com o material fonte, de certa forma até pervertendo o objetivo “romeriano” de crítica social ao iniciar a febre de zumbis na década de 60. Em Z Nation, há um cuidado claro em se passar a atmosfera de filme B com zumbis que dão medo, mas que são cuidadosamente “mal feitos”. Ninguém encontrará os detalhes que vemos nos mortos-vivos de The Walking Dead. Além disso, o filtro claro utilizado na fotografia é uma forma de invocar diretamente os filmes de apocalipse logo após a detonação das bombas nucleares: tudo é cru, árido, quente, até mesmo as sombras e os interiores. Não há descanso para a visão e a violência gráfica só acrescenta à sensação desesperante dos personagens.

Falando neles, se por um lado ninguém deve esperar grandes atuações, por outro fica evidente o esforço de Schaefer e de Engler em nos trazer personagens que ao mesmo tempo que se encaixam em parâmetros pré-estabelecidos – o soldado, o durão, a durona, o médico drogado, a ruiva bonita, o rapaz solitário, o homem apaixonado – nos oferecem algo mais, um quê de humanidade blasé, de conformidade com o status quo que é raro de se encontrar em histórias dessa natureza. Não há profundidade dramática alguma, mas há o suficiente para simpatizarmos com eles, mesmo os mais distantes, como o estranho Mack (Michael Welch), parceiro da fogosa Addy (Anastasia Baranova). Em outros casos, como o de Doc (Russell Hodgkinson), a proximidade com o espectador se dá pela pura simpatia caipira do ator e por ótimos diálogos ou, falando de 10K (Nat Zang), pelo seu ar misterioso de “Justiceiro” mirim.

Mas os destaques mesmo são Murphy e Citizen Z. O primeiro, vivido por Keith Allan, é o grosseiro ex-condenado que se torna o vetor da cura zumbi e é literalmente a carga preciosa que tem que ser levada até o outro lado do que eram os EUA. Sua postura arrogante, que fala tudo e qualquer coisa que vem à cabeça o torna ao mesmo tempo insuportável, fascinante e engraçadíssimo (se você não se importar com incorreções políticas, claro). Allan encarna bem seu personagem e, sem dúvida alguma, em termos de atuação, carrega a série nas costas. Na outra ponta, temos Citizen Z (ou Simon), vivido pelo estranho, mas perfeito no papel DJ Qualls, como o solitário último sobrevivente de uma base da NSA no Ártico que funciona como um Big Brother para a equipe nos EUA, interferindo quando um deus ex machina é necessário aqui e ali. Se por vezes algumas ações focadas na base do Ártico (chamada Northern Lights) não funcionam bem, com o episódio em que ele encontra um cachorro da raça Husky Siberiano, outras, como a do cosmonauta russo, são extremamente divertidas, ricas e bem articuladas.

Por toda a temporada, os roteiros se esmeram em lidar com a cultura pop em geral, com redes sociais e menções mil à filmes e, claro, diversas estocadas na série “rival” The Walking Dead.  São momentos do tipo “se piscar perdeu”, mas que enriquecem a experiência nem se seja para acrescentar à atmosfera filme B que permeia toda a série.

Z Nation vem para mostrar que nem tudo na TV dramática precisa ser sombrio ou profundo. Basta a narrativa se adaptar ao tipo de material e objetivo que tem, sem tentar ser mais do que é. Diversão garantida para quem gosta de tripas e cérebros espalhados na telinha.

Z Nation – 1ª Temporada (Idem – EUA, 2014)
Showrunner: Karl Schaefer, Craig Engler
Direção: vários
Roteiro: vários
Elenco: Kellita Smith, DJ Qualls, Michael Welch, Keith Allan, Anastasia Baranova, Russell Hodgkinson, Pisay Pao, Nat Zang, Tom Everett Scott, Harold Perrineau
Duração: 44 min. por episódio (13 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.