Crítica | Zabriskie Point

Em 1966, Michelangelo Antonioni cravou seu nome na história do cinema ao produzir a obra-prima Blow-Up – Depois Daquele Beijo, trazendo um filme extremamente sexy e provocativo. Além disso, o longa foi um início excepcional da parceria com o produtor Carlo Ponti para a produção de três filmes em inglês. Portanto, Zabriskie Point foi o segundo trabalho com Ponti na produção e primeiro após o sucesso de Blow-Up. Porém, o resultando está longe do conquistado anteriormente, decepcionando por aquilo que esperamos de Antonioni.

O longa cruza a história de Daria (Daria Halprin) e Mark (Mark Frechette), dois jovens que se conhecem no deserto. Ela é uma estudante de antropologia; ele abandonou a sala de aula e é procurado pela polícia suspeito de ter assassinado um policial em um protesto estudantil.

Por mais que o roteiro de Zabriskie Point seja eficiente em provocar o público, trazendo críticas pertinentes á sociedade americana e até mesmo aos que se dizem revolucionários, com um boa sequência inicial para isso, o texto, escrito por Antonioni, Franco Rossetti, Sam Shepard, Torino Guerra e Clare Peploe (geralmente, não é um bom sinal um roteiro escrito por tantos roteiristas), falha drasticamente na apresentação e desenvolvimento de seus protagonistas.

Aliás, grande parte das reflexões acerca do modelo de vida americano ocorrem mais pela direção de Antonioni e nem tanto devido ao texto. O diretor recorre a cenários exagerados para destacar a ganância, artificialidade e futilidade americana, como no curioso escritório do chefe de Daria, trazendo uma imensa bandeira dos Estados Unidos e um prédio estranho ao fundo, dando um ar de prepotência e exagero. Além disso, justiça seja feita com o roteiro, a maneira como a elite é retratada no filme reforça com eficiência a falta de empatia, humanismo e altruísmo da classe, algo destacado na cena em que Daria conhece a casa de seu patrão e vê a maneira com que as empregadas são tratadas.

Ainda sobre a direção, Antonioni utiliza planos gerais e planos médios para criar composições que ressaltam a beleza das paisagens, principalmente do deserto, e ajuda a despertar a aura existencialista da conversa entre os dois protagonistas. Além disso, a trilha sonora, com canções de Pink Floyd, Jerry Garcia e outros artistas, insere um tom jovial na obra.

No entanto, quando a análise recai sobre os protagonistas, restam poucos elogios. A apresentação de ambos é problemática, sem profundidade e simplista; até porque os dois personagens têm poucas falas no primeiro ato. Outro fator que prejudica a construção dos dois é a montagem, falhando ao intercalar as ações dos protagonistas, uma vez que o tempo dado a cada um nunca é o mesmo e a história de cada um não parece estar ligada antes de se conhecerem.

Porém, se a trama de Mark é falha, sendo incoerente ao trazer o personagem criticando o movimento revolucionário e, logo após, militando por ele, a de Daria consegue ser pior. No início, vemos a protagonista interagindo com seu chefe pela primeira vez e, um pouco depois, viajando para Phoenix para encontrá-lo, envolvida com o patrão, sem a menor construção dentro do enredo.

Com a falta de profundidade dos personagens principais, tudo o que o filme propõe a dizer torna-se pouco atrativo. Não há como identificar-se ou criar empatia pelos donos da história devido a sua artificialidade, ou seja, quando o emissário de uma mensagem não convence, a mensagem não é transmitida com a mesma potência.

No momento que os dois personagens finalmente se encontram, com direito a uma cena demasiadamente longa envolvendo um avião, defeito que Antonioni comete algumas vezes em Zabriskie Point, a expectativa é que o longa finalmente entre nos eixos e entregue algo satisfatório. Porém, mesmo que o segundo ato traga boas falas, como no momento que Daria diz “há mil lados, não há apenas heróis e vilões”, dando ares existencialistas à fala, o filme não consegue criar química entre o casal e a relação que eles desenvolvem no deserto parece artificial, algo auxiliado pelas fraquíssimas interpretações de Mark Franchette e Daria Halprin.

Felizmente, em meio a tantos fatores superficiais, o longa possui uma ótima sequência de sexo no deserto, possuindo mais simbolismo e profundidade do que vários diálogos presentes na película. Quando a orgia começa em Zabriskie Point e a poeira cobre os corpos, camuflando-os com o local, a sensação ao assistir é de unidade, liberdade e integração com a natureza, mostrando como aderir a cartilhas de comportamento resulta na perda da essência, fazendo um interessante paralelo com o tema da contracultura.

O acúmulo de problemas do roteiro faz Zabriskie Point parecer nada mais que um mero trabalho de militância com péssimos emissários. Porém, por mais que seja fácil se identificar com as críticas feitas aos norte-americanos, não nos apegamos por aqueles que propagam a mensagem dentro do filme, deixando uma sensação de indiferença ao término.

Zabriskie Point (Idem) – EUA, 1970
Direção: Michelangelo Antonioni
Roteiro: Michelangelo Antonioni, Franco Rossetti, Sam Shepard, Torino Guerra e Clare Peploe
Elenco: Mark Frechette, Daria Halprin, Paul Fix, BIll Garaway, Kathleen Cleaver, Rod Taylor, G. D. Taylor
Duração: 110 min.

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.