Crítica | Zatoichi e a Arca de Ouro

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Confira as críticas para os outros filmes da série aqui.

O diretor Kazuo Ikehiro ainda estava em seus primeiros anos na indústria cinematográfica quando foi escalado para dirigir Zatoichi e a Arca de Ouro (1964), o sexto filme da série do espadachim e massagista cego em suas andanças pelo Japão na terceira década do século XIX. Após o primeiro cansaço da fórmula em Zatoichi, o Samurai (1963) era preciso algo que mudasse a visão do espectador sobre esse Universo e tirasse um pouco da obviedade de ações que após cinco filmes já era possível prever e até almejar que acontecessem, mesmo que dentro de um contexto e motivações diferentes.

O grande risco das franquias é justamente a fixação de sinais, modelos dramatúrgicos e tomadas de decisão que funcionaram em alguns filmes e que normalmente são tidos como imutáveis para as obras vindouras, muitas vezes tolhendo liberdades criativas ou forçando situações que simplesmente não cabem em uma nova história. Em maior ou menor grau isso vem acontecendo em todos os filmes de Zatoichi desde a sua primeira sequência, mas há momentos que mesmo os clichês ou a repetição de uma cartilha consegue encontrar algo bom pelo caminho, como é o caso do presente filme, nas mãos de um diretor pouco experiente mas muito cioso de como usar o espaço e de como tornar visualmente interessante coisas que no texto o público já conhecia.

Comecemos pela abertura. Em um plano geral com foco de luz no centro e ambiente isolado ao redor do ator Shintaro Katsu, vemos diversas lutas rápidas acontecerem enquanto os créditos passam. As cenas são curtas, não há nenhuma palavra além das onomatopeias relacionadas às lutas, mas há uma perfeita organicidade desses enfrentamentos escolhidos para nos introduzir o filme. Aos poucos, esses momento visuais marcantes se proliferam pela fita.

Salvo o exagero no uso de raccords para indicar desespero ou até sugerir algumas elipses temporais/espaciais (com os personagens demorando um pouco para chegar a um determinado lugar, mas sem fazer com que a ação saia do requerido clima de alta tensão), o diretor e o fotógrafo Kazuo Miyagawa (responsável pela direção de fotografia de Rashomon e Yojimbo) conseguem um soberbo resultado visual, o melhor de toda a série até o momento. A movimentação constante e ousada da câmera, a disposição dos ângulos, o nível de rigor das tomadas e até o uso da montagem de atrações para criar uma expectativa diferente quanto à ocorrência de batalhas funcionam muito bem, quebrando alguns vícios da série e entregando um bom espetáculo visual para o espectador, principalmente nas cenas noturnas e na floresta.

Pela primeira vez vemos sangue e real brutalidade acontecendo na história. E tudo por causa do imposto que os aldeões conseguiram a muito custo arrecadar para o Magistrado local, mas cuja arca foi roubada em uma emboscada. Alguns diálogos, encontros e atitudes de Zatoichi parecem incoerentes à primeira vista, mas é com o decorrer do filme que entendemos suas reais motivações. Além do diretor e do fotógrafo, os roteiristas aqui também são novos na franquia e essa renovação de equipe criativa foi bastante importante para o filme, que mesmo dentro de um cenário menor e caminhadas um tanto questionáveis — ver Zatoichi subir e descer a montanha em momentos diferentes do filme é estranho, mesmo que as duas sequências se completem e sirvam ao propósito de integração do personagem com o espaço, tendo maior impacto dramático na segunda vez, tanto pelo ataque quanto pelo fato de o espadachim estar com uma criança nos braços — consegue nos divertir e mostrar lutas violentas, tendo como motivo das contendas o poder político corrupto, algo bem mais próximo do espectador e bem melhor alinhado se comparado às tramas exclusivamente ligadas à Yakuza.

O charme e a desfaçatez de Zatoichi aqui se misturam com batalhas rápidas e de perfeita finalização. Tivemos, inclusive, um vilão do tipo “maldade pura e simples”, alguém não necessariamente páreo para Zatoichi (além da péssima maquiagem que traz), mas que por meios escusos consegue marcar o espadachim, fazendo-o sofrer e sangrar, ameaça que faz o público arregalar os olhos porque isso não estivera presente antes.

Uma simples arca cheia de moedas, uma população desesperada e, nas entrelinhas, o questionamento do comportamento do próprio Zatoichi em tempos anteriores (seu lamento sobre o fato de sempre puxar a espada quando alguém chega perto é sincero e doloroso) fazem deste filme um rápido e bem arquitetado plano de salvação de pessoas comuns por alguém extraordinário que está à procura de ficar em paz consigo mesmo, se não em definitivo, ao menos no pequeno momento musical que indica a festividade dos pobres trabalhadores que tiveram o seu dinheiro recuperado. A felicidade de ter suprida uma necessidade que define se eles continuarão vivos ou não.

Zatoichi e a Arca de Ouro / Zatoichi #6 (Zatôichi senryô-kubi) — Japão, 1964
Direção: Kazuo Ikehiro
Roteiro: Shôzaburô Asai, Akikazu Ota (baseado na obra de Kan Shimozawa)
Elenco: Shintarô Katsu, Shôgo Shimada, Mikiko Tsubouchi, Machiko Hasegawa, Tomisaburô Wakayama, Tatsuya Ishiguro, Shinjirô Asano, Saburô Date, Hikosaburo Kataoka, Matasaburô Niwa, Toranosuke Tennoji, Kôichi Mizuhara, Hiroshi Hayashi, Yûsaku Terashima, Ichirô Takakura
Duração: 83 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.