Crítica | Zatoichi, o Fugitivo

zatoichi o fugitivo plano critico samurai

estrelas 3,5

 spoilers! Confira as críticas para os outros filmes da série aqui.

À medida que avançamos nos filmes da série (este é o quarto longa da franquia Zatoichi), notamos que alguns acertos, erros e padrões vão se solidificando e nos deixando em estado de alerta para o futuro da saga. O medo da previsibilidade não é sem razão, porque o princípio e o fim de Zatoichi, o Fugitivo carrega exatamente os mesmos elementos de introdução e conclusão vistos nos longas anteriores, só que vestindo outras roupas e em outros pequenos contextos. No todo, o padrão ainda funciona, mas apresenta algum cansaço, principalmente porque o miolo da fita, que deveria trazer toda a diferença possível, é muito confuso, este sim, o principal problema da obra.

Ao que tudo indica, estamos três anos à frente dos eventos de O Conto de Zatoichi e a princípio, tudo parece ser novo. Ichi está sofrendo com o calor, em uma estrada, e chega a um lugar onde uma disputa de sumô acontece. Ele se oferece para lutar, ganha a partida e enquanto relaxa e come em um trecho do caminho, é atacado por um Yakuza que afirma ter ido para cima de Ichi para poder ganhar a recompensa de 3 ryo que colocaram pela cabeça do espadachim cego. Neste ponto, aparece o meu maior problema com o filme inteiro (quase empatado com a confusão das disputas por poder, mas esse aspecto ainda consegue ser melhor abstraído do que essa justificativa inicial): por quê a cabeça de Ichi foi colocada a prêmio, antes de tudo?

Não há um ponto em que a gente consiga encaixar bem essa justificativa para a primeira ameaça que Ichi recebe. Não há mais pontas soltas vindas dos filmes anteriores, pois o último enfrentamento por vingança aconteceu em Novo Conto de Zatoichi; não se justifica uma “vingança de chefes menores da Yakuza” porque o roteiro não fornece sustentação para isso; e não dá para se basear em uma “briga entre Zatoichi e o chefe que coloca sua cabeça a prêmio” porque nada sobre isso é desenvolvido ao longo do filme. Fica claro que os dois não se gostam, mas isso vem, obviamente, após Zatoichi descobrir a verdade, mesmo que nada justifique o prêmio de muitos ryos, que começa em 3 e termina em 300! Depois de um certo momento entendemos o por quê Zatoichi está brigando e por quê o estão provocando, mas o primeiro enfrentamento fica como um furo sério de roteiro. Uma cabeça a prêmio sem uma real e sólida justificativa para existir.

Antes de prosseguir, é importante levar em conta um possível contra-argumento, comparando o que acontece com Zatoichi e os faroestes, em especial os spaghetti. É verdade que existem muitas semelhanças. E também é verdade que Zatoichi encarna, de um jeito ou de outro, o padrão do Homem Sem Nome, do Homem Solitário ou de qualquer outro arquétipo do cowboy semi-nômade encontrados em clássicos de bang bang. Nesses filmes — e daí que é possível vir o contra-argumento — a cabeça desses indivíduos são colocadas a prêmio sem que haja um respaldo narrativo imediato para justificá-la. Mas a tal cabeça a prêmio não permanece um mistério durante todo o filme. Se esse é o caso, o plot é desenvolvido, quando não, é o principal tema da obra. Aqui isso não acontece. Nas brigas entre chefes querendo dominar o clã, vemos Ichi ser cada vez mais odiado por Yakuzas específicos e o preço de sua cabeça aumentado, mas esta justificativa é a do desenvolvimento. A primeira, que deveria ser a motivadora da fita, permanece sem ter um por quê de existir.

Outro ponto complicado do roteiro, como apontei antes, é a confusão das contendas entre chefes da Yakuza querendo o poder de domínio do clã. Não é impossível chegar a um consenso sobre quem é quem, mas o roteiro de Seiji Hoshikawa (em seu primeiro trabalho na série) dá atenção demais a esses pequenos plots, ao invés de escolher os de maior intensidade e ligá-los a Ichi. O lado bom dessa dinâmica é que a história não se mostra viciada no protagonista, mostrando mais coadjuvantes e a vila onde ele está, partindo daí para colocar, então, Ichi em destaque. É um pouco paradoxal olhar para esse tipo de roteiro, mas uma coisa é certa: apesar de toda a confusão e falta de explicação inicial, o filme consegue ser muito bom, e a direção de Tokuzo Tanaka tem tudo a ver com isso.

Sendo este o segundo filme da série dirigido por Tanaka, o espectador já imagina o que esperar do diretor na condução das lutas e das cenas, mas é positivamente surpreendido por uma imensa soltura na forma como ele guia a câmera. O filme flui de maneira bela, com o diretor alternando os quadros estáticos — muito mais exigentes em equilíbrio — com as movimentações circulares, zoom ou travellings para mostrar Ichi em batalha ou em disputa verbal contra alguém. O maior destaque é a sequência de batalha final, às margens da lagoa, mas é bom que se diga que todos os embates de Ichi ao longo da fita são filmados com grande cuidado, ressaltando a elogiável atuação de Shintaro Katsu e nos entregando pequenos momentos de espetáculo fotográfico, dentre os quais, a belíssima sequência noturna na floresta.

Alguns espectadores podem achar mais difícil se conectar ao vilão da história, porque Zatoichi também não está ligado a ele, e este é um ponto inovador para saga. No desenvolvimento da história, isso não se coloca como algo negativo, pois existem coisas bem mais importantes envolvendo o protagonista. Mesmo em um emaranhado de acontecimentos, Zatoichi, o Fugitivo se mostra mais uma boa continuação, deixando-nos com um dançante, mas profundamente amargurado Zatoichi se afastando de mais uma vila onde esteve diante de algo trágico. A dúvida sobre Otane ter sido ou não uma traidora (o roteiro não expõe definitivamente se ela armou para Ichi) pesa muito sobre o personagem. Pela primeira vez um texto da saga foca em elementos sociais mais profundos, mesclados aos já comuns sentimentos e complexas relações pessoais. Este é o tipo de filme que mesmo errando em alguns aspectos, acerta, se o analisarmos com cuidado em todas as suas camadas.

A Maldição do Ronin Continua

Se vocês tinham alguma dúvida sobre como eu sou assediado moralmente nesse site, vejam as frequentes as ameaças INJUSTAS de Ritter Fan nas minhas críticas de Zatoichi. Vejam quando a inveja domina completamente a alma da pessoa o que é que dá.

“Que essa palavra nos aparte, ave ou inimiga!” eu gritei, levantando – “Volta para a tua tempestade e para a orla das trevas infernais! Não deixa pena alguma como lembrança dessa mentira que tua alma aqui falou! Deixa minha solidão inteira! – sai já desse busto sobre minha porta! Tira teu bico do meu coração, e tira tua sombra da minha porta!”

E o Corvo disse: “Nunca mais.”
– Poe, Edgar Allan

Ó doçura da vida: Agonizar a toda a hora sob a pena da morte, em vez de morrer de um só golpe.
– Shakespeare, William

Esta vida é uma estranha hospedaria,
De onde se parte quase sempre às tontas,
Pois nunca as nossas malas estão prontas,
E a nossa conta nunca está em dia.
– Quintana, Mario

Zatoichi, o Fugitivo / Zatoichi #4 (Zatôichi kyôjô-tabi) — Japão, 1963
Direção: Tokuzô Tanaka
Roteiro: Seiji Hoshikawa (baseado na obra de Kan Shimozawa)
Elenco: Shintarô Katsu, Miwa Takada, Masayo Banri, Jun’ichirô Narita, Katsuhiko Kobayashi, Tôru Abe, San’emon Arashi, Yûji Hamada, Sumao Ishihara, Jun Katsumura, Jutarô Kitashiro, Kôichi Mizuhara, Yasuhiro Mizukami, Sachiko Murase, Hiroshi Nawa
Duração: 86 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.