Crítica | Zelig (1983)

estrelas 5,0

Ser bem aceito e sentir-se amado é um dos constantes desejos do homem, queira ele admitir ou não.

Se faz desnecessário folhear os manuais de sociologia e filosofia (Leviatã, Segundo Tratado Sobre o Governo Civil ou Contrato Social, por exemplo) para entender que a vida em sociedade e a base das instituições ou do próprio Estado movem-se a partir desse parâmetro de bom relacionamento entre os indivíduos, que se estende para a confiança mútua, o respeito das liberdades individuais e a ausência do conflito, se tudo correr bem. Parece simplista, mas tudo começa — e talvez termine — nos relacionamentos. Todos eles.

Com base nessa premissa, Woody Allen, cuja base cinematográfica sempre foi um olhar curioso e cínico para os relacionamentos (predominantemente amorosos, mas não unicamente), fez no mockumentary Zelig (1983) uma extensão muitíssimo mais aprimorada e de qualidade bastante superior ao de seu primeiro filme “de verdade”, Um Assaltante Bem Trapalhão (1969) que além de seguir a mesma base do falso documentário, expunha um indivíduo tentando ser aceito pelo que supostamente sabia fazer de melhor. Naquela ocasião, o diretor trabalhou o problema de forma mais rudimentar e com um roteiro inteiramente cômico e ingênuo. Em Zelig, ele já tinha passado pela porta que o permitiu fazer qualquer filme que bem entendesse (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa) e abrira a janela do drama (Interiores), ponto a partir do qual seus filmes não seriam os mesmos, inclusive as comédias.

Conceitual e tecnicamente mais maduro, Woody Allen revisitou o espaço do falso documentário, mas não com a crueza e tendência plena ao humor como fizera no longa de 1969. Zelig é uma fábula memorável sobre as relações humanas, sobre a necessidade que temos em encaixar-nos em determinados grupos e termos a aprovação ou consentimento de nossos feitos, opiniões e desejos, o que evidentemente é uma utopia ingênua, já que a vida em sociedade é justamente a síntese do conflito e do consenso (baseado em diversos critérios dependendo do tempo e lugar) entre desejos, opiniões e feitos de cada um, mesmo daqueles que aparentemente estão “do mesmo lado”.

Zelig (personagem de constituição perfeita para o tipo de ator limitado que Woody Allen é, o que evidentemente trouxe grande acerto em sua escalação para o papel) é, por assim dizer, o homem que não aceitava o conflito, não lidava com a possibilidade de não ser bem aceito ou amado, daí a sua transformação física na pessoa ou grupo que era a maioria ou que estava mais próximo de si. Zelig não suportava destacar-se, ser, pensar ou agir diferente. Ser igual era estar seguro e ele desenvolveu um distúrbio em que deixava a personalidade e características que o definia como pessoa para igualar-se aos outros e continuar sendo bem aceito. Em outras palavras, Zelig havia desenvolvido o estágio final e físico da alienação.

Com muito bom humor e jogando de forma criativa com o gênero documentário, Allen narra essa história incomum alternando comédia, romance, ironia, sensacionalismo da imprensa, psicologia de massas, mesmerismo e sombras do conceito de “celebridade fetiche” de Adorno, inclusive brincando com a fútil e maleável opinião da sociedade que cria e derruba ídolos ao gosto da moda, basta o famoso em questão desagradar a algumas pessoas e então insatisfações particulares ganham tal impacto que se tornam a insatisfação de todos, mesmo daqueles que não se incomodaram pelo caso em si, mas pela recepção, repercussão e discussões geradas. Vejam que o diretor saiu de um absurdo nonsense (a loucura particular do homem-camaleão) e chegou ao campo máximo da sociedade. E esta constatação é ainda mais forte porque o filme é um falso documentário, então estamos falando do drama apresentado, da recepção dos indivíduos “reais” respondendo e analisando o caso e, quebrando a quarta parede, o espectador julgando a opinião dos entrevistados, o drama apresentado e o produto cinematográfico, o filme Zelig que deu origem a toda essa confusão.

O diretor de fotografia Gordon Willis, agora em sua quinta parceria com Woody Allen, afirmou que nunca havia trabalhado tanto, fazendo tantas coisas difíceis para algo parecer tão simples como em Zelig, e vejam que estamos falando do mesmo fotógrafo que havia assinado O Poderoso Chefão, O Poderoso Chefão II e Todos os Homens do Presidente! A técnica de Allen e Willis para a autenticidade das filmagens de época foi pegar material real dos anos 1920 (cinejornais, principalmente) e inserir nele os atores de Zelig através de chroma key. O trabalho com esses negativos, no entanto, não foi tão simples quanto parece. O diretor fez uso de câmeras, lentes, técnicas e processos de iluminação da época para conseguir “entradas” corretas para os negativos, assim como para filmagens especiais feitas em separado e mescladas ou alternadas com material original. Nota-se também que o trabalho de pós-produção, ao acrescentar ruídos nas fotografias e vídeos ou sinais de envelhecimento, também passou por maus bocados, já que esses efeitos se diferenciam ao longo do filme e obedecem padrões de iluminação e textura diferentes, especialmente as fotografias e/ou as cartelas dos cinejornais ou material (falso) de imprensa.

Ao falar sobre psicologia, simbolismos, desejos, sociabilização e impasses morais e éticos através de uma história tão incomum, tão impossível e ao mesmo tempo tão real e tão atual, Woody Allen praticamente previu o comportamento de uma parcela dos indivíduos nas redes sociais algumas décadas depois. A busca constante por ser visto, ouvido, amado e integrado ocorre, para seu personagem, através da negação de sua persona e compra da identidade, pensamento e comportamento alheios, sem pensar ou medir consequências, ato cada vez mais presente em nossa sociedade, um “deserto do real” povoado por milhões homens-camaleão. Zelig, hoje, está em todo lugar.

Personagens históricos que aparecem em Zelig através de filmagens de época

  • Max Amann
  • Josephine Baker
  • Clara Bow
  • Fanny Brice
  • Wilhelm Brückner
  • James Cagney
  • Al Capone
  • Charlie Chaplin
  • Calvin Coolidge
  • Marion Davies
  • Sepp Dietrich
  • Joe DiMaggio
  • Marie Dressler
  • F. Scott Fitzgerald
  • Lou Gehrig
  • Joseph Goebbels
  • Hermann Göring
  • Harold ‘Red’ Grange
  • William Randolph Hearst
  • Rudolf Hess
  • Adolf Hitler
  • Bobby Jones
  • Robert Ley
  • Charles Lindbergh
  • Carole Lombard
  • Adolphe Menjou
  • Tom Mix
  • Papa Pio XI
  • Dolores del Río
  • Billy Rose
  • Babe Ruth
  • Julius Schaub
  • Gregor Strasser
  • Julius Streicher
  • Franz von Epp
  • Franz Pfeffer von Salomon
  • Jimmy Walker
  • Claire Windsor

Zelig (EUA, 1983)
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Patrick Horgan, John Buckwalter, Marvin Chatinover, Stanley Swerdlow, Paul Nevens, Howard Erskine, George Hamlin
Duração: 79 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.