Crítica | Zero Point

zero point im des

estrelas 1,5

Em uma vistosa edição única encadernada e em formato de revista, com papel nobre e capas com orelhas, a HQM lançou  trabalho de estreia, nos quadrinhos, do nipo-argentino Agustin Graham Nakamura. Mas a grande verdade é que toda essa pompa e circunstância esconde um trabalho simplista, pouquíssimo original e, em última análise, vazio.

O foco é em Bird, assassino profissional que, durante um contrato, depara-se com uma mulher que mata seu alvo com uma katana (porque, claro, uma katana faz tudo parecer mais bacana, não é mesmo?). Perseguindo esse mistério, Bird, mais do que obviamente, envolve-se com a moça e uma sangrenta trama cheia das típicas reviravoltas do gênero se desenrola. Além disso, Bird tem, ainda, um misterioso mentor chamado Crow (fico pensando se esses nomes em inglês eram mesmo necessários…) com quem ele encontra em um prédio em construção e que tem tendências bem mais violentas e vilanescas que ele.

zero point cover

Uma bela e chamativa capa que esconde os sérios defeitos da história.

A narrativa é didática e não exige quase nada do leitor, sendo muitas vezes silenciosa, com um trabalho mais cinematográfico da arte que tratarei mais para a frente. O problema é que Nakamura ainda exige que aceitemos diversos saltos de lógica, como o fato de a moça que entra violentamente na vida de Bird ser uma magnífica e exímia assassina – talvez até melhor do que ele, considerando o que ela faz com uma mera pistola em sua primeira aparição – sem maiores explicações ou mesmo pistas sobre de onde vieram suas habilidades especiais. O mesmo vale para o próprio Bird. Apesar de ser fácil acreditarmos que ele é quem é, seu lado psicológico é mal desenvolvido e dificilmente o leitor se envolverá com seu drama e com as pessoas de seu trato diário, como Crow e o dono do bar que frequenta.

Parece-me que o foco de Nakamura foi mesmo na arte em preto e branco. O roteiro é uma mera e vazia desculpa para ele trabalhar sua obra quase como storyboards para um filme. Isso, em si mesmo, não é algo ruim. Há um evidente tom cinematográfico em toda a progressão narrativa, com ângulos radicais, composições de tirar o fôlego e ações espetaculares. Nesse quesito, o leitor não ficará muito desapontado. E enfatizo, aqui, o “muito”. Afinal, por mais que o autor tenha tentado imprimir esse tom a Zero Point, no final das contas, assim como o roteiro, o resultado é próximo do lugar-comum. Todo mundo tem habilidades especiais. Todos têm corpos esculturais. Todos sobrevivem às mais improváveis situações. Isso de forma alguma enfeia sua arte, pois ela é muito bonita, mas ela parece oca, desanimada, padrão demais. Mas a HQM sabia do potencial desse tipo de arte ao ponto de ter providenciado a publicação em um formato que justamente salientasse esse ponto e, como um passatempo completamente esquecível, Zero Point até funciona, ainda que um projeto ambicioso desses precisasse de mais, muito mais para justificar sua existência.

Provavelmente em razão de suas raízes nipônicas, Nakamura também empresta traços de mangá ao seu trabalho, com o mesmo tipo de design de personagens que nos acostumamos a ver em quadrinhos orientais. Não fosse a leitura da esquerda para a direita e o tamanho da publicação, Zero Point poderia ser um mangá, com direito até a namorada-clichê-fetiche de Bird, que usa trancinhas e roupas provocantes, além de ser servilmente apaixonada por ele. Além disso, o autor não se esqueceu das reações faciais exageradas típicas do gênero. Mas isso não faz de seu trabalho uma obra melhor. Ele apenas escolheu um estilo e o seguiu, mas não apresentou nada que realmente tirasse Zero Point de um incômodo lugar-comum.

Até mesmo a grande reviravolta no final – não vou contar, fiquem tranquilos! – ou será adivinhada ainda nas primeiras páginas por leitores experientes ou, em caso negativo, quando revelada, não será realmente uma grande e definidora surpresa. Funciona dentro da trama? Sim, até funciona, pois não é algo que Nakamura tira da cartola, mas a necessidade de explicá-la mais algumas vezes em diálogos posteriores derruba seu frescor e sua eficiência.

Zero Point é uma revista que sem dúvida fica bonita na estante. Pena que seu recheio seja tão insosso.

Zero Point (Idem, Argentina – 2014)
Roteiro: Agustin Graham Nakamura (Diego Agrimbau – consultor)
Tradução: Artur Pescumo Tavares
Arte: Agustin Graham Nakamura
Tons de cinza: Ramón Ignacio Bunge
Editora: HQM (outubro de 2014)
Páginas: 200

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.