Crítica | Zoolander

estrelas 3

Alfinetando a indústria da moda, Ben Stiller nos faz mergulhar no universo dos modelos através de um besteirol marcado pela sátira e o exagero. Lançado em 2001, Zoolander constrói críticas que facilmente podem ser confundidas com descaso ou até mesmo piadas de mal gosto. Stiller, porém, está longe de ser o estúpido que interpreta no filme e através da risada procura causar um incômodo no espectador, especialmente no aficionado pela moda e que ignora as explorações e barbáries que tal industria realizou nas últimas décadas. Temos aqui um filme bastante plural, mas isso não quer dizer necessariamente que ele tenha passado pelo teste dos anos de maneira tão satisfatória.

No longa acompanhamos a trajetória de Derek Zoolander (Ben Stiller), três vezes vencedor do prêmio de melhor modelo do mundo e que, na quarta premiação, acaba perdendo seu posto para o novato Hansel (Owen Wilson), fato que desestabiliza o protagonista e o coloca em uma jornada de auto-conhecimento. Ao mesmo tempo, o famoso estilista Mugatu (Will Ferrel) emprega um plano diabólico a fim de assassinar o primeiro ministro da Malásia, que busca erradicar o trabalho infantil em seu país, tão essencial para o barateamento do mercado controlado por Mugatu.

O verdadeiro humor de Zoolander está nas ironias construídas, a fim de criar suas sátiras, Stiller utiliza enquadramentos e filtros que emulam filmagens típicas do VH1 ou do canal E!. Essas construções criam risadas certeiras em qualquer um que já tenha passado por programas similares. A moda como ponto central do universo desses personagens chega a ser perturbadora e quando ela passa a englobar outros aspectos (notadamente o assassinato de figuras políticas) a história ganha sua maior profundidade, claro que, sem perder a dose de humor constante. Ao retratar o modelo como uma figura estúpida, o roteiro de Drake Sather, Ben Stiller e John Hamburg soa bastante simplório nos primeiros minutos, mas o que logo enxergamos é que essa sátira reflete apenas uma pequena parcela da indústria e, no caso, é plenamente justificável o porquê da burrice do protagonista.

Dito isso, o filme assume o papel de representar como toda uma parcela da população é controlada por grandes corporações que visam única e exclusivamente o lucro, Mugatu é a perfeita representação disso e Will Ferrel acerta em cheio com uma personificação que beira a bipolaridade, trazendo à tona também o status de deuses que muitos dos famosos acreditam possuir. A repetição de algumas frases “he’s so hot right now” atua como uma forma de mostrar o quanto o personagem é apaixonado pela sua própria voz. Curiosamente ele está sendo controlado por um grupo misterioso, mas isso somente é abordado uma vez na obra, nos passando a impressão de que o roteiro se esqueceu da sua cena inicial.

De todos os que aparecem no filme, porém, os que efetivamente chamam mais atenção são o próprio Zoolander e Hansel. Stiller e Wilson contam com uma química indiscutível, tanto quanto adversários, como amigos. A repentina mudança, graças a isso, não soa forçadas e perfeitamente se encaixa dentro da trama, ainda acimentando a ideia de que, por baixo de todos aqueles tecidos de grife, os modelos são pessoas simples. Infelizmente as personagens femininas não contam com um enfoque tão satisfatório e mesmo Matilda (Christina Jeffries), a repórter que acompanha Derek em sua jornada, aparenta ser muito rasa e suas conquistas ficam em segundo plano, muitas vezes sendo descartadas a fim de se construir o estereótipo da mulher trabalhadora infeliz.

Antes de finalizar eu não poderia deixar de comentar, também, sobre a quantidade gigantesca de famosos que dão as caras ao longo da obra. A presença dessas figuras do mundo pop ajudam a construir esse universo fechado da moda. O destaque aqui vai para David Bowie, uma grata surpresa dentro do filme em uma de suas melhores cenas, que expande a sátira da moda para o ringue em forma de desfile. Graças a esse fator, por mais caricato que seja, o longa soa verossímil em diversos aspectos (em outros o oposto disso, é claro).

Com isso em mente chega a ser fácil concluir que Zoolander, sim, resiste ao teste do tempo. Está longe de ser uma comédia perfeita e tampouco a melhor dirigida por Ben Stiller – Trovão Tropical ocupa essa posição – mas ainda assim é uma divertida obra e que vale ser assistida, certamente trará algumas boas risadas, por mais que não chegue a agradar a todos. Este que aqui escreve, contudo, sempre lembrará das muitas poses de Derek Zoolander e pensará no filme quando ouvir certo hit dos anos 1980.

Zoolander (idem – EUA, 2001)
Direção:
Ben Stiller
Roteiro: Drake Sather, Ben Stiller, John Hamburg
Elenco: Ben Stiller, Owen Wilson, Christine Taylor, Will Ferrell, Milla Jovovich, Jerry Stiller, David Duchovny, Jon Voight, Alexander Skarsgård, David Bowie
Duração: 90 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.