Crítica | Zorba, o Grego

estrelas 4

Michael Cacoyannis — esta é a transcrição ocidentalizada do nome grego do diretor, uma grafia que ele utilizou nos créditos deste Zorba, o Grego — já era admirado e reconhecido na Europa e na América por ocasião do lançamento de Zorba, em 1964. Responsável por longas bem recebidos e premiados como Stella (1955), A Mulher de Negro (1956), Uma Questão de Dignidade (1958) e Electra, a Vingadora (1962), o cineasta tinha grande apreço por roteiros que mesclavam elementos sociais, históricos e paixões humanas, uma característica que podemos observar em toda a sua filmografia.

Dando grande destaque para o papel da mulher nos ambientes sociais que retratou, Cacoyannis conseguiu mostrar ao mesmo tempo o lado monstruoso e sensível do homem, contrastando a sua cadência para a morte com o grande valor e significado que pode dar à vida. Este, sem dúvidas, é um dos motivos centrais de Zorba, o Grego, um filme sobre a amizade e o amor em um cenário cru, quase bárbaro, cheio beleza natural, omissão, vampirismo social, impunidade, inveja e crueldade.

A história aborda a improvável amizade entre Zorba (Anthony Quinn, em excelente interpretação) e Basil (Alan Bates), homens que se conhecem por acaso em um porto e estabelecem de imediato uma ligação de confiança que marcará para sempre suas vidas, com os dois lados aprendendo e amadurecendo, ao passo que o tempo avança e ambos lidam com dificuldades que vão da morte de pessoas queridas a um gigantesco fracasso financeiro.

O roteiro, baseado na obra de Nikos Kazantzakis, consegue tocar, enfurecer e fazer rir o espectador, mostrando basicamente o estabelecimento de Basil em sua propriedade e o cotidiano dele e Zorba até que o trabalho na mina finalmente consiga ser iniciado. A rigor, a trama é uma história de perdas e fracassos, mas não há coitadismo algum no texto de Cacoyannis referente a esta abordagem. O diretor e roteirista se coloca à distância — até demais, em alguns casos — e mostra tanto os momentos felizes quanto os tristes e trágicos como fugazes suspiros recorrentes na vida de de qualquer homem e mulher. Uma década depois de finalizado o movimento neorrealista italiano, era possível ver a herança sólida que o movimento legara a diretores como Cacoyannis, preocupados em centrar suas histórias nos mais diversos percalços sociais.

Esse exercício funciona bem na maior parte de Zorba, falhando apenas na constância dos personagens em cena ou na abordagem coesa para alguns eles. Nós sabemos que a trama se desenrola por um período considerável de tempo e, por isso mesmo, o enredo possui uma linha narrativa próxima à crônica, com eventos acontecimento de forma quase isolada mas dentro de um mesmo contexto. Alguns desses eventos até se encontram em certo ponto da fita, mas a maior parte deles servem apenas de “visão geral do ambiente”, um criador de atmosferas. Neste tipo de abordagem, o elo mais fraco está no tratamento dado à personagem da bela Irene Papas e de Lila Kedrova (que recebeu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por sua atuação aqui).

É curioso porque as cenas em que elas aparecem (especialmente Papas) possuem enorme significado para o filme. No entanto, é tênue a colocação dessas personagens no longa, insípida mesmo, à exceção dos momentos extremos, o que se torna uma contradição esquisita: por um lado, elas representam bons e potentes momentos do filme e por outro, são mal contextualizadas, desaparecem sem aviso e reaparecem apenas para um efeito de virada dramática nos eventos.

Algumas pessoas implicam com a música de Mikis Theodorakis para o filme, classificando-a como “incoerente” para um grande parte das cenas em que aparecem, afirmação que refuto veementemente. A trilha sonora foi pensada como contraponto dramático e por isso mesmo funciona com grande força e múltiplos significados. O tema central, com algumas variações ao longo do filme, volta de uma forma definitiva na sequência final, com a “dança de despedida” de Zorba e Basil, uma das sequências antológicas do cinema, muitíssimo bem dirigida e fotografada com simplicidade e beleza por Walter Lassally, cujos maiores méritos no filme estão nas estonteantes cenas de paisagens da ilha de Creta e nos takes de interiores, especialmente com pouca luz.

Zorba, o Grego é um filme marcante, um clássico sobre as relações humanas, sobre a miséria e a glória do homem, sobre o fracasso e a amizade, sobre os obstáculos para ser feliz e a necessidade de “procurar problemas” para poder viver de verdade. Depois daquela cena final, a minha maior vontade foi aprender a dançar o sirtaki de Zorba, explorar uma mina em Creta, casar-me com uma bela e jovem viúva da ilha e tomar sol, beber rum e vinho e rir dos monges e da vida pelo resto dos anos. Coisas que o cinema e um filme poderoso como este nos faz sentir…

Zorba, o Grego (Alexis Zorbas) – EUA, Grécia, 1964
Direção: Mihalis Kakogiannis (Michael Cacoyannis)
Roteiro: Mihalis Kakogiannis (Michael Cacoyannis), baseado na obra de Nikos Kazantzakis
Elenco: Anthony Quinn, Alan Bates, Irene Papas, Lila Kedrova, Sotiris Moustakas, Anna Kyriakou, Eleni Anousaki, Yorgo Voyagis, Takis Emmanuel, Giorgos Foundas
Duração: 142 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.