Crítica | Zumbi Branco (1932)

Zumbi Branco

Muito antes dos zumbis comedores de carne humana, o cinema já apostava na temática através de narrativas envolvendo feitiçaria oriunda de religiões de matrizes africanas, haitianas e de outras culturas. Em A Noite dos Mortos-Vivos, George Romero, em 1968, estabeleceu uma matriz que iria se estabelecer até os dias atuais: mortos voltando à vida em cidades devastadas pelo apocalipse, abrindo espaço amplo na cultura pop e seus produtos: quadrinhos, videoclipes, romances, contos e seriados inspirados neste universo.

A narrativa é simples: Neil (John Harron) e a sua noiva Madeleine (Madge Bellamy) chegam ao Haiti e conhecem um tipo de cultura bem diferente do que estão acostumados. Eles foram convidados por Beaumont (Robert Frazer) para visitar e conhecer o futuro espaço para o casamento. O que não estava nos planos é a paixão do dono da fazenda pela noiva de Neil. Para conquistar a moça, o “amigo da onça” vai pedir ajuda ao feiticeiro Murder Legendre (Bela Lugosi), um homem que utiliza rituais de origem haitiana para ressuscitar os mortos.

Pronto. Este é o mote. A mulher será sequestrada, protagonista e antagonista vão duelar e muita intriga e suspense conduz o espectador até o ápice da narrativa, no “bom e velho penhasco”, espaço narrativo ideal para conclusões narrativas deste quilate.  O que mais chamaria a atenção neste filme? Além dos sustos e atmosfera de “medo”, Zumbi Branco trazia Bela Lugosi como o feiticeiro da narrativa. O ator oriundo do teatro húngaro, recém-chegado nos Estados Unidos e com domínio precário da língua inglesa conseguiu convencer em seus papeis caricatos e marcantes. Nutrido pelo sucesso de Drácula, da Universal, lançado no ano anterior, Lugosi se esforça para interpretar o mestre da feitiçaria local.

Trafegando numa via que vai além do puro entretenimento, há aspectos político-sociais que podem ser extraídos do filme. Beaumont, por exemplo, é dono de uma fazenda que cultiva cana de açúcar e os trabalhadores locais são zumbis transformados através das técnicas do calamitoso Murder. É nesse aspecto que a narrativa flerta com questões sociais, num filme bastante polêmico para a sua época. Primeiro, os trabalhadores surgem como uma possível metáfora para as pessoas que estavam desempregadas e moribundas por conta da ressonância da Grande Depressão de 1929. Segundo, há problemas culturais sobre a relação entre o Haiti e os Estados Unidos, afinal, os estadunidenses ocupavam o local numa perspectiva imperialista na época, sem atores locais trabalhando na produção e o apego ao chamado “blackface”, com artistas brancos tendo os rostos pintados de preto para atuar. Dentre os outros problemas, podemos destacar a forma que os habitantes locais foram tratados, como pessoas meramente supersticiosas e ignorantes.

Baseado numa peça que estreou em fevereiro de 1932, nos Estados Unidos, Zumbi Branco possui uma trilha sonora bastante presente, uma espécie de “personagem” do filme, tamanha a sua intromissão na narrativa. Os figurinos de Jack Pierce e Carl Axcelle, também responsáveis pela maquiagem (inclusive do clássico Frankenstein, lançado no mesmo ano), são eficientes para a proposta do filme, que ainda conta com o ritmo razoável da montagem de Harold McLerman, mesmo que em alguns momentos haja sequências extremamente longas, causadora de certa impaciência por parte do público contemporâneo, acostumado com uma linguagem mais frenética.

Devido ao orçamento precário, a produção de Zumbi Branco utilizou alguns cenários e adereços de outras produções da época, o que não prejudica o resultado final, tendo apenas a condução de algumas performances como o seu problema maior: a maioria dos atores carrega excessivamente a atuação e tornam o que deveria ser assustador em risível, mas vamos combinar, estamos em outros tempos e o filme, sem sombra de dúvida, deve ser visto numa ótica diacrônica, como um belo documento histórico sobre um subgênero do terror: os filmes de zumbis.

Com seus 69 minutos de duração, a produção ganhou uma espécie de refilmagem pelos estúdios Hammer, intitulada de Epidemia de Zumbis. Depois da cisão com a mitologia de George Romero, houve outra produção que abordava a temática dos “zumbis não comedores de carne humana”: A Maldição dos Mortos-Vivos, de Wes Craven, lançado nos anos 1980.  Apesar de ter sido recepcionado negativamente na época, foi compreendido através de outros olhares na posteridade e hoje ilustra o topo das listas sobre filmes na temática.

Zumbi Branco (White Zombie) – Estados Unidos, 1932.
Direção: Victor Halperin.
Roteiro: Garnett Weston, baseado no livro “The Magic Island”, de William B. Seabrook.
Elenco:  Bela Lugosi, Madge Bellamy, John Harron, Robert Frazer, Joseph  Cawthorn, Frederick Peters, Anette Stone, John Printz, Claude Morgan.
Duração: 69 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.