Crítica | Zuzu Angel

Zuzu Angel é um filme que expõe ao público um tema clássico na história narrativa da humanidade: uma mãe que perde o filho. Neste caso, a história é inspirada em acontecimentos ocorridos durante um trecho da tenebrosa história dos anos de ditadura militar no Brasil, um período vergonhoso que diante de alguns fatos que marcaram o país nos últimos meses, ensaiou retorno. Ao longo dos 103 minutos, a narrativa agonizante de Zuzu Angel, uma mulher cheia de talento e vivacidade, nos remete ao incansável desejo de Antígona, personagem da mitologia grega, interessada em dar ao seu irmão um enterro digno. Diferente da tragédia de Sófocles, na versão cinematográfica da vida da estilista, troque apenas o irmão pelo filho, pois o sofrimento de ambas as mulheres, comparativamente, beiram à semelhança.

Dirigido por Sérgio Rezende, cineasta com vasta experiência no currículo, a biografia da estilista que lutou contra as forças do regime militar no Brasil também teve o realizador como um dos responsáveis pelo roteiro, escrito em parceria com Marcos Berstein. Ao longo da cinebiografia, diferente da mãe que teve seu filho desaparecido após um sequestro em Nas Profundezas do Mar Sem Fim ou da personagem interpretada por Nicole Kidman em Reencontrando a Felicidade, mulher que precisa reajustar a sua vida após a morte do filho de quatro anos em um pequeno acidente, em Zuzu Angel, temos uma mãe que amargou o resto da sua vida para conseguir encontrar o corpo do filme e lhe fornecer os ritos religiosos necessários para deixa-la em paz.

O ponto de partida é a apresentação dos dois personagens: mãe e filho. Zuzu Angel (Patrícia Pillar) é uma estilista que trabalha juntamente com Sônia (Ângela Vieira) e constantemente utiliza Elke Maravilha (Luana Piovani) como modelo para os seus figurinos mais extravagantes. Marcelo Moraes, responsável pela montagem, alterna a trajetória da mãe que em determinado momento, reclama que “há seis meses que não vê o filho”, mas utiliza o trabalho para se manter ocupada e relevante. O jovem Stuart Jones (Daniel de Oliveira), chamado de Paulo pelos companheiros de protesto, é um representante das emoções que tomavam os jovens que buscavam liberdade de expressão e mudanças no desenvolvimento político do país. Estudante de Economia, o jovem é preso no dia 14 de maio de 1971 e nunca mais ninguém tem acesso a nenhuma carta, mensagem ou filmagem sua. Simplesmente “apagado” do sistema. A sua noiva Sônia (Leandra Leal) consegue escapar por um tempo, mas após retornar clandestinamente ao país, é torturada, tendo seus seios arrancados, dentre outras situações aberrantes que demarcam este sangrento período da nossa história.

Diante da situação exposta, Zuzu Angel descobre que seu filho foi preso pelos agentes do Centro de Informação da Aeronáutica. Ela envia cartas para diversos intelectuais, procura a mídia, entrega documentos para representantes políticos de outros países, mas como a direção de fotografia demonstra bem durante essas tentativas de denúncia, o ângulo dos receptores é desfocado. Alguns dias antes de morrer, ao se sentir ameaçada por conta das constantes perseguições diárias a cada movimento que dava, Zuzu deixou uma carta para Chico Buarque, pedindo que fosse divulgada caso algo lhe acontecesse. Era uma espécie de pressentimento da estilista, já que no dia 14 de abril de 1976, seu corpo foi encontrado na saída do túnel Dois Irmãos, na Estrada da Gávea, no Rio de Janeiro, depois de um relato que na época foi exposto como acidente, mas assumido como assassinato nos anos 1990.

Narrado por uma câmera que às vezes recorre ao tímido desfocar das lentes para esconder o que é apenas sugerido, o filme é pobre cinematograficamente, haja vista o seu aspecto essencialmente televisivo, algo muito comum num país onde até determinada época, as produções de maior porte estavam vinculadas aos profissionais da televisão, isto é, uma herança do Cinema da Retomada. A direção de fotografia de Pedro Farkas não é irregular, apenas didática demais, subserviente ao estilo televisivo brasileiro de narrar. A direção de arte, por sua vez, é mais expressiva. Assinada por Daniel Flaksman, com apoio dos figurinos de Kika Lopes, o setor desenvolve elementos visuais que dão o tom de época e ajudam na reconstituição ficcional da trajetória de uma mulher que se expressava justamente pela imagem.  O uso do verde para os momentos de busca pelo filho e a presença do vermelho nas cenas de embate com o regime ditatorial são usos bem expressivos das cores como elementos condutores de significados no cinema. A condução musical de Cristovão Bastos cumpre os requisitos, sem atrapalhar ou ser excessivamente melodramática.

Lançado em 2006, Zuzu Angel é um drama ancorado no desempenho dramático de Patrícia Pillar como uma mãe que luta por justiça e pelo direito de enterrar o próprio filho. Devastada pelos acontecimentos, a personagem é bem delineada pela música Angélica, composta e interpretada por Chico Buarque e que na época de realização do filme, foi rearranjada para compor a trilha sonora da produção. Entre versos que entoam “só queria agasalhar seu anjo e deixar seu corpo descansar” e “que mulher é essa que canta sempre o mesmo lamento”, a canção é uma tradução da postura de Zuzu Angel enquanto mulher que exerceu a postura maternal até os últimos instantes de sua vida.

Zuzu Angel — Brasil, 2006.
Direção: Sergio Rezende
Roteiro: Marcos Berstein, Sergio Rezende
Elenco: Antônio Pitanga, Daniel de Oliveira, Elke Maravilha, Leandra Leal, Luana Piovani, Nelson Dantas, Patrícia Pillar, Paulo Betti
Duração: 103 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.