Crítica | A Vida de Emile Zola (1937)

estrelas 2

Há um pensamento que paira sobre o antigo e não se trata de nostalgia. Sempre há a lembrança de que o passado era um lugar melhor, com coisas melhores, músicas melhores, livros melhores, pessoas melhores, uma vida melhor e principalmente, filmes melhores. Entretanto, como a maioria dos pensamentos que cerceiam o senso comum, isso é um equívoco.

Nosso amigo Luiz Santiago já demonstrou anteriormente que realmente era muito fácil ganhar o Oscar de Melhor Filme durante o advento da Hollywood clássica. Aqui, temos outro brilhante exemplo. A Vida de Emile Zola é um biofilme medíocre graças ao texto quebrado e desconexo dos roteiristas Norman Raine, Heinz Herald e Geza Herczeg.

Os filmes antigos, pré-televisão, se sustentavam principalmente em duas coisas: roteiro e atuação. A partir de 1939, com E O Vento Levou…, o design de produção virou um dos pilares da Hollywood Clássica.

Aqui, o filme se propõe a trazer a história do ilustríssimo escritor Emile Zola, porém, ele mal explora o seu objeto de estudo. Zola é um personagem pronto, bem romântico e um tanto irônico – não se iluda, aqui a ironia serve apenas como alívio cômico. Nada semelhante com o que ele provavelmente era – positivista e naturalista….

Outro fator que incomoda é que o personagem possui sim diversos conflitos como a pobreza, a busca pelo sucesso, o sentimento de injustiça social, porém isso tudo é apenas apresentado no início do filme. Logo depois, o trio de roteiristas acha melhor avançar tudo como se tivessem pulado um capítulo do filme. Não tarda para que todas essas passagens que serviriam para engrandecer o personagem, dessem lugar para o marasmo de desenvolvimento que o roteiro sofre quando Zola atinge o sucesso e enriquece com suas obras.

É simplesmente muito bizarro que durante essa era da indústria cinematográfica que prezava tanto o desenvolvimento de personagem e um bom dramalhão, premiasse um filme que foge disso de modo tão porco. Por diversas vezes é possível sentir a falta de passagens que conectem uma sequência com a outra. É um filme completamente segmentado seja durante o trabalho para o sucesso de Zola, quando acompanhamos o caso Dreyfus ou até mesmo na resolução do filme. Isso só não compromete o entendimento do espectador porque os diálogos gostam de autoexplicar o longa em sua maioria.

Também há o erro crasso que diversos biofilmes esbarram até hoje: não conseguir conferir um conflito profundo para o personagem, quais suas motivações, seus medos, etc. Ou seja, nunca conhecemos de fato Emile Zola, sua relação com sua esposa, seus planos e a amizade com Paul Cezanne – isso é ainda mais grave, pois o longa apresenta Emile e Cezanne ao mesmo tempo como se fossem unha e carne.

Outro problema é bruta ruptura entre a narrativa que acompanha Zola até um terço do filme para dar lugar a história do injusto julgamento e condenação de Alfred Dreyfus. A partir disto, o texto esquece de Zola e ele vira coadjuvante da própria história. O caso Dreyfus vira o conflito central até a conclusão do longa. Obviamente, isto também é muito mal trabalhado e maniqueísta.

Toda a sequência que envolve o julgamento de Zola por causa do seu infame e histórico artigo J’accuse defendendo a inocência de Dreyfus e condenando a tirania do Estado é muito interessante, porém ela logo cai na repetitividade, além de ser maior do que deveria. Fora isso, o andamento da cena, repleta de revezes, extrapola muito o sentimento de injustiça tornando o texto nada crível – é um desfile de personagens odiosos.

Com um texto tão ruim e segmentado também há coisas para salvar em A Vida de Emile Zola. Os diálogos, apesar de rasos, são sempre muito bem escritos – destaque para o discurso final de Zola. A fotografia é belíssima seguindo o padrão da Hollywood clássica. As atuações de Paul Muni, Gale Sondergaard e Joseph Schildkraut são ótimas e seguram o interesse do espectador – este também é auxiliado pela montagem eficiente de Warren Low.

O diretor William Dieterle – também do clássico O Corcunda de Notre Dame, faz um ótimo trabalho técnico em já dominar muitíssimo bem a linguagem cinematográfica – há de se considerar a época, meus caros. Ele segue muito bem todos os princípios de eixo de câmera e principalmente de posicionamento dos atores e outros elementos. Como de costume, as composições visuais organizadas por Dieterle são predominantemente barrocas e clássicas, ou seja, se comportam muito bem como pinturas em si próprias. Aliás, eu sempre admiro muito as composições provenientes da razão de aspecto 1.37:1. Se hoje já é complicado enquadrar tantos elementos, imagine naquela época com um espaço muito mais limitado. Aliás, em termos de eficiência visual, muitos diretores que trabalhavam em 1.37 dão um baile nos contemporâneos que possuem uma infinidade de formatos para contar suas histórias – Imax, Cinemascope, etc.

A Vida de Emile Zola só não consegue ser um bom filme por conta do fraquíssimo roteiro que tenta porcamente contar a história dessa figura tão importante para a Literatura. Ele é sim bem atuado, bem dirigido e bem fotografado, além de possuir a trilha musical do mestre Max Steiner. Porém, mesmo contando com todas as benesses técnicas do mundo, os filmes sempre necessitam de um excelente alicerce: um roteiro eficiente.

Assim como acontece nos filmes de hoje, roteiros deficitários também existiram nos filmes do passado. Entretanto, calhou a sorte de os votantes da academia estarem de bom humor. Se não fosse o Oscar de Melhor Filme de 1938, A Vida de Emile Zola seria um dos inúmeros longas abandonados no melancólico limbo cinematográfico.

A Vida de Emile Zola (The Life of Emile Zola) – EUA, 1937
Direção:
William Dieterle
Roteiro: Norman Raine, Heinz Herald e Geza Herczeg.
Elenco: Paul Muni, Gale Sondergaard, Joseph Schildkraut, Gloria Holden, Donald Crisp e John Litel.
Duração: 120 minutos.

MATHEUS FRAGATA . . . Estudo cinema na UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar.