Crítica | O Caseiro

estrelas 4

Por não ter uma tradição firme no terreno dos filmes de terror, as produções brasileiras que se arriscam a adentrar nesta seara geralmente são alvo de comparações, algumas delas, arrogantes e extremamente preconceituosas. Há casos que os envolvidos na produção geralmente tentam emular modelos que acabam tornando-se cópias escancaradas de sucessos de outrora, como foi o caso de Condado Macabro, um pastiche de Pânico na Floresta, O Massacre da Serra Elétrica, Palhaços Assassinos e Sexta-Feira 13.

O Caseiro já começou apresentando vantagens. Sem os apelos sobrenaturais mal conduzidos de Isolados, oura incursão do Brasil no gênero fantástico, a produção possui uma boa equipe de produção, um roteiro mediano e uma condução narrativa eficiente para uma indústria pouco experiente no assunto. Pode até não ter funcionado como filme de terror, mas estabelece uma relação de tensão e suspense com o espectador que não dá para sair indiferente da sessão.

Apresentadas as qualidades, vamos ao enredo: no filme, Davi, personagem interpretado pelo ótimo Bruno Garcia é um professor e escritor cético de psicologia que se tornou famoso por explicar eventos sobrenaturais através dos elementos da psicanálise. Após um longo hiato sem atender pacientes, haja vista a sua dedicação ao trabalho docente, Davi é levado a uma investigação numa cidade interiorana, tendo em vista estudar o caso de uma possível assombração atormentando as noites de uma criança que aparece machucada constantemente, sem agressão aparente por parte de nenhum membro da família.

O patriarca acredita que o lar está assombrado por conta da presença da alma de um antigo caseiro que cometeu suicídio sem motivação plausível. Seria uma alguma vingativa, oriunda de uma cobrança da insistente relação Casa Grande e Senzala que ainda demarca certas regiões de um Brasil dito globalizado? Inicialmente Davi prefere acreditar em violência doméstica ou distúrbios psicológicos, mas ao passo que a narrativa avança, revelações sinistras apontam que há a possibilidade de existir algo a mais.

É através deste suspense a todo tempo que o ambicioso projeto (bem sucedido) de O Caseiro se desenvolve: o cineasta iniciante, mas não menos competente, Julio Santi, diminuiu os sustos gratuitos e investiu num clima que deixa espaço para a sugestão, mesmo que em seus minutos finais descambe para a histeria, o que também não é ruim, mas menos “cult” para alguns mais exigentes.

A fotografia e a direção de arte estabelecem uma atmosfera assustadora, elementos que ganham mais potencial com a “semi-exagerada” trilha sonora. A iluminação é outro ponto que merece destaque: proporciona reflexos no momento certo, o que ajuda a história a ser melhor contada. Santi e a sua equipe investem pesado no suspense e arriscam pouco no terror mais explícito. A câmera, igualmente eficiente, circula pelos espaços juntamente com os personagens, num exercício de captação de imagens que beira ao acadêmico, haja vista a necessidade de Santi em contar uma história que funcione. Neste quesito, outro ponto positivo: a parte técnica é um dos trunfos de O Caseiro.

Outra grande vantagem do filme é adequar-se ao acervo cultural nacional. Há a figura típica do caseiro, bem como a forte presença do nosso conhecido sincretismo religioso. As relações de poder também são fortes, beirando ao trágico. Com elementos declarados de O Sexto Sentido, Revelações e Os Suspeitos, a mídia chamou o filme de “Invocação do Mal” brasileiro, ou seja, tal como apontou Flora Sussekind no polêmico artigo “A Crítica como papel de bala”, há uma grande fatia do jornalismo cultural que tende ao superficial e ao lugar comum, traçando paralelos, relacionando elementos que em muitos casos são reflexões ligeiras.

Em relação ao ótimo Invocação do Mal 2, a relação pertinente está na carona que o filme pegou na esteira da produção estrangeira. O Caseiro estreou duas semanas após a sequência de James Wan. No que tange aos aspectos publicitários, a estratégia foi muito perspicaz, pois o filme estreou em apenas 61 salas de cinema do Brasil, ficando limitado aos “circuitos”.

Orçado em R$1,6 milhão, a narrativa poderia ter caprichado um pouco mais no roteiro, afinal, as famigeradas falas teatrais não combinam com o discurso cinematográfico e a nossa produção é viciada em utilizar este tipo de abordagem, em muitos casos, por conta da direção ou dos atores oriundos dos palcos ou das telenovelas. Ademais, O Caseiro é um filme ousado, diferenciado e só por isso, já merece as nossas palmas.

O Caseiro Brasil, 2016 
Direção: Julio Santi
Roteiro: Felipe Santi, Joao Segall, Julio Santi
Elenco: Annalara Prates, Antonio Haddad Aguerre, Bianca Batista, Bruno Garcia, Denise Weinberg, Fabio Takeo, Joao Segall, Julio Santi, Leopoldo Pacheco, Malu Rodrigues, Mirtes Nogueira, Pedro Bosnich, Roberto Arduin, Victória Leister
Duração: 85 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.