Crítica | Muppets 2: Procurados e Amados

estrelas 3,5

Quando assisti e critiquei Os Muppets, de 2011, festejei duas características da obra, uma intrínseca e outra extrínseca: a intrínseca era que o novo filme representava a volta dos amados personagens de Jim Henson depois de ficarem na geladeira por 12 longos anos e a extrínseca era a bem sacada maneira como o roteiro de Jason Segel e Nicholas Stoller fizeram isso, criando um meta-filme, com os Muppets contando a história de sua própria ausência das telonas. Por isso, fiquei receoso sobre a continuação. Afinal, a primeira qualidade não existiria mais, é óbvio e as chances do segundo roteiro ser inferior ao primeiro eram enormes. Continuação é continuação, não é mesmo?

E os primeiros dois minutos de Muppets 2 quase me deixaram completamente desesperançosos para os 105 seguintes. É que o filme começa exatamente de onde acaba o primeiro (exatamente mesmo!) em que vemos que tudo o que aconteceu antes foi apenas isso mesmo, um filme. O cenário está sendo desmontado, vemos stand-ins de costas no lugar de Amy Adams e Jason Segel  e os Muppets, liderados por Caco (eu me recuso a me referir a ele como Kermit), começam a cantar sobre o que fazer agora e que uma sequência seria o caminho. As críticas ao sistema hollywoodiano de fazer cinema são até engraçadas, mas esse número poderia ser o prelúdio de basicamente uma repetição da meta-história do primeiro filme e eu já estava preparando para jogar tomates.

Stoller volta para o roteiro, juntamente com James Bobit, o diretor do primeiro que também dirige a continuação. E, felizmente, minha impressão inicial ficou só nisso mesmo, uma impressão. Logo entra em cena Dominic Cara Mau (Dominic Badguy, vivido de maneira exagerada, como manda o figurino, por Ricky Gervais, claramente se divertindo muito) que sugere aos Muppets uma turnê mundial para capitalizar com o sucesso da reunião dos personagens depois de tantos anos. Mas, como o nome de Dominic deixa muito claro (he, he, he), ele não é um cara bonzinho e tudo não passa de um elaborado e impossível plano para ele roubar as joias da coroa britânica usando as marionetes como fantoches (viram o que fiz aqui?). Como parte do plano, Caco é substituído por Constantine, o bandido mais perigoso do mundo que, por acaso, é idêntico ao sapo mais querido do mundo, com exceção de uma pinta saliente logo acima da boca.

Com isso, passeamos por Berlin, Madri, Dublin e, finalmente, Londres, em uma aventura que, diferente do outro filme, foca quase que integralmente nos Muppets. Os personagens humanos são o que eles deveriam ser mesmo: coadjuvantes. E, melhor ainda, eles são poucos, apenas Gervais, a chefe da prisão russa para onde Caco é enviado, Nadya, vivida por Tina Fey e o detetive da Interpol Jean Pierre Napoleon (Ty Burrell), que faz parceria com Sam, o Gavião, o hilário Muppet ultranacionalista que trabalha para a CIA. Os demais são só outros vários – muitos mesmo – atores famosos fazendo pontas mínimas para que nós apontemos os indicadores para a tela para brincar de quem adivinha mais nomes.

E a coisa funciona bem, apesar da enorme simplicidade e bobeira da história. Mas estamos falando dos Muppets, um dos poucos fragmentos de um humor que hoje, provavelmente, será considerado pela maioria como idiota e ultrapassado. Uma pena. Em Muppets 2, o viés é decididamente mais infantil, mas a fita não é menos interessante do que a primeira. Onde antes existia um frescor maior carregado pela novidade ou pela volta triunfal dos personagens, agora temos um mergulho maior em suas personalidades, especialmente em Caco e Miss Piggy e o eterno “casa-e-não-casa” entre eles, Gonzo, Animal e Walter, esse último criado em 2011 para o primeiro filme dessa volta.

No lugar de se limitar a um grande show, erro da primeira fita, Stoller e Bobin intercalam a ação entre o tour pela Europa e a sofrimento de Caco no gulag. Com isso, há um ritmo melhor imposto à narrativa, que é ajudado por uma montagem e uma fotografia bem estruturadas, que trabalham bem os dois ambientes diferentes, com suas exigências específicas. Reparem, por exemplo, como o ambiente do gulag evoca corretamente os “filmes de prisão” em geral, com uma fotografia mais fria e desolada e uma montagem que carrega na dramaticidade, enquanto que o ambiente do tour tenta emular filmes como Férias Frustradas, com cortes mais rápidos e cores mais intensas. Nada com grande originalidade, mas que mostra o cuidado na produção.

Mas falta à Muppets 2 um melhor timing de piadas. Elas existem, mas as que são realmente boas, com um quê mais esperto, não só voltadas para crianças muito pequenas, são raras e esparsas. Claro, há as piadas embutidas na mera presença dos vários atores fazendo pontas que são salpicados pela obra sem qualquer cerimônia, mas não me refiro a elas. Falo das piadas mesmo, no sentido clássico da palavra, como a engraçada tirada de Sam com nomes franceses chamando Jean de Pierre, somente para Jean lembrá-lo que ele é Jean e não Pierre. Só que a cada piada “Jean-Pierre”, temos trinta outras que são só bonitinhas. Para ficar apenas com a mesma dupla, basta mencionar a gag da competição do tamanho do distintivo que os dois travam e que é repetida e repetida e repetida até o final da projeção.

E é claro, há o problema da dublagem. Assim como no primeiro filme, a Disney fez o favor de só lançar cópias dubladas de Muppets 2. Garantia de mais público ao mesmo tempo que é uma tirania em relação a quem prefere apreciar o filme com as clássicas vozes originais e, especialmente, as piadas verbais que são muitas e constantes e cuja maioria se perde na tradução. É realmente frustante ver um filme no cinema apenas pela metade, que é como me sinto ao ver algo dublado.

No final das contas, Muppets 2 divertirá os pequenos e potencialmente agradará aos nostálgicos e saudosos. É uma continuação que, se não supera o primeiro, pelo menos mantém o nível, não descanbando para o caminho natural que as sequências percorrem.

Muppets 2: Procurados e Amados (Muppets Most Wanted, EUA – 2014)
Direção: James Bobin
Roteiro: James Bobin, Nicholas Stoller (baseado nos personagens de Jim Henson)
Elenco: Ricky Gervais, Ty Burrell, Tina Fey, Steve Whitmire, Eric Jacobson, Dave Goelz, Bill Barretta, David Rudman, Matt Vogel, Peter Linz
Duração: 107 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.