Crítica | Segunda Chance

estrelas 4

O cinema de Susanne Bier não é de fácil digestão. Pelo menos não os filmes menos comerciais da diretora como Em Um Mundo Melhor (que lhe rendeu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010), Brothers (que ganhou um remake americano) e ainda Depois do Casamento (com então ainda desconhecido Mads Mikkelsen, que viria a protagonizar a série Hannibal). Segunda Chance, que chega aos cinemas brasileiros neste final de semana não é diferente. Prepare-se para um filme duro, absurdamente triste, mas incrivelmente bem executado.

Na trama temos Andreas (Nikolaj Coster-Waldau que deu tempo de Westeros para voltar às origens dinamarquesas), um policial boa pinta que leva uma vida tranquila ao lado da esposa Anna (Maria Bonnevie). Um dia, ele e seu parceiro Simon (Ulrich Thomsen) são acionados para intervir em uma briga doméstica motivada pelo uso de drogas. No meio da confusão ele descobre, dentro do armário da casa, um bebê totalmente imundo, o que desperta sua indignação. Só que as leis do país permitem que a família, mesmo com todo o histórico de drogas e violência, permaneça com a criança. Cada vez mais obcecado pelo caso, Andreas acaba sequestrando o bebê por conta própria, o que ocasiona uma avalanche de mudanças na sua vida e de todos os envolvidos.

O roteiro de Anders Thomas Jensen é muito bem amarrado, apesar das muitas reviravoltas que o filme traz. Até por isso, é complicado falar mais do desenrolar da história de Andreas com o bebê, já que não queremos estragar as surpresas que o espectador encontrará no desenrolar do longa. O elenco é outro destaque de Segunda Chance. Nikolaj nos entrega um Andreas perturbado com suas escolhas, um personagem que pouco lembra seu famoso Jaime Lannister. Os coadjuvantes também merecem uma menção honrosa, principalmente Maria Bonnevie no papel da esposa Anna que logo no início se mostra um tanto perturbada com as escolhas do marido e o companheiro de trabalho de Andreas, Simon, que no desenrolar da história se transforma de uma maneira quase redentora.

O que podemos adiantar é que estamos diante de uma história muito triste e reflexiva. Como é comum do cinema de Bier, as questões éticas e morais são colocadas à prova a cada segundo. É possível que você fique do lado de Andreas, ao mesmo tempo que questiona se o que ele fez é realmente o correto, ou indo mais além, o justo. O que é justiça afinal? Quem determina o que é melhor para o futuro de uma criança? O Estado, sua família, as circunstâncias?

A diretora utiliza ainda recursos para prender a atenção do espectador, e mais, para traçar um paralelo com os personagens, tão tristes em suas vidas frias e cheias de dilemas. A todo o momento ela mostra cenas externas que remetem a um vazio interior: águas calmas, mas profundas, névoas, árvores secas. E quando, próximo ao fim, seus personagens encontram algum tipo de tranquilidade para todos os problemas, chega a primavera e o colorido de uma vida cheias de expectativas e sonhos.

É difícil deixar a sala de projeção sem um nó na garganta e também sem expelir qualquer julgamento de valor aos envolvidos na questão central do filme. Mas supere isso e veja mais esse exemplar do cinema nórdico que vem nos entregando grandes títulos como A Caça, O Amante da Rainha, só para citar alguns mais recentes.

Segunda Chance – En chance til, Dinamarca – 2014
Direção: Susanne Bier
Roteiro:  Anders Thomas Jensen
Elenco: Nikolaj Coster-Waldau, Ulrich Thomsen, Nikolaj Lie Kass, Maria Bonnevie, Lykke May Andersen, Thomas Bo Larsen, Bodil Jorgensen, Ole Dupont
Duração: 104 min.

GISELE SANTOS . . Gaúcha de nascimento, mas que não curte bairrismos nem chimarrão! Me encantei pelo cinema ainda criança e a paixão só cresceu ao longo dos anos. O top 1 da vida é "Cidadão Kane", mas tenho uma dificuldade enorme de listar os melhores filmes da minha vida. De uns anos para cá, os filmes alternativos têm ganhado espaço neste coração que um dia já foi ocupado apenas por blockbusters pipoquentos.