Crítica | Reino do Amanhã

estrelas 5,0

Reino do Amanhã faz parte de um relativamente pequeno grupo de arcos, sagas ou minisséries em quadrinhos de super-herói mainstream cuja leitura é realmente essencial para compreender-se a magnitude do que se faz nesse meio. E, mesmo que o leitor possa nomear um sem-número de histórias sensacionais, Reino do Amanhã permanece como um épico de proporções bíblicas (literalmente) que combina com uma perfeição poucas vezes vista, roteiro e arte.

Cada painel dessa obra-prima desenhada por Alex Ross – cultuado artista de quadrinhos que, infelizmente, hoje em dia, tem se especializado em capas de números especiais e não mais histórias inteiras com sua arte – é um bombardeio sensorial de traços realistas (sua marca registrada) e cores explosivas em uma combinação que tornaria perfeitamente possível a apreciação de toda as mais de 200 páginas da minissérie sem qualquer balão de fala, sem qualquer narração. E que apreciação. Mesmo quem eventualmente desgostar de seu traço (existe alguém assim?), não poderá deixar de apreciar sua capacidade de reimaginar icônicos heróis em suas versões envelhecidas, começando com Superman, o foco das atenções, mas também passando pela Mulher-Maravilha, Lanterna Verde, Batman, Flash, Aquaman, Gavião Negro, Poderosa e Capitão Marvel (hoje Shazam). Além disso, como um das bases da narrativa é a proliferação de heróis novos, alguns descendentes dos clássicos, por uma Terra que acaba à mercê deles depois que um desgostoso Superman se aposenta e se exila na Fortaleza da Solidão, Ross ainda tem a oportunidade de literalmente criar do zero dezenas e dezenas de novos heróis (ou anti-heróis e até vilões), literalmente todo um novo universo DC assim como se fosse a coisa mais comum e mais fácil do mundo.

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Pois é “facilidade” que esse grande artista passa a seus leitores. Seu trabalho de composição de quadros, com disposições magníficas de personagens populando a página e trazendo detalhes insignificantes para dar tom de realidade a esse futuro possível distópico do universo DC, inclusive com pistas visuais expressas de Dectective Comics #27 (primeira aparição do Batman) e Action Comics #1 (primeira aparição do Superman), além de Watchmen e dezenas e dezenas de outras, é de tirar o fôlego e material suficiente para um leitor detalhista empregar horas e horas decupando cada página, cada sequência visual.

E o traço de Ross ainda empresta algo essencial a essa história em particular: uma aura mítica a Superman e demais heróis, aura essa que ele amplifica ao inspirar-se em personalidades variadas, como Gregory Peck como Bruce Wayne. Precisamos primeiro acreditar que eles são realmente deuses – que nos abandonaram, mas ainda assim deuses -, de forma que o roteiro de Mark Waid, baseado em uma ideia manuscrita de 40 páginas do próprio Ross, depois que ele acabou seu trabalho na excelente minissérie Marvels, em 1994, em seguida, desconstrua essa qualidade. Os heróis são quebrados, destruídos pela horda desordenada e amoral dos novos super-heróis que tomaram a Terra de assalto, e também pelo plano de Lex Luthor (sempre ele!) de se aproveitar da confusão para livrar-se para sempre dos meta-humanos. A humanidade versus divindade é a alegoria que é abordada desde a primeira página de Reino do Amanhã e está obviamente contida no próprio título original em inglês (retirado diretamente do Pai Nosso, Mateus, 6:9-13) e o tema central pode ser interpretado como a interferência divina no caminho da humanidade.

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Com base nessa estrutura que por si só não é exatamente original (esse era o exato conceito criado por Alan Moore em seu nunca produzido Twilight of the Superheroes), Waid e Ross costuraram a famosa temática encapsulada pelo poeta Juvenal em “quem vigia os vigilantes”, anteriormente abordada de maneira brilhante em Watchmen e indiretamente em Batman – O Cavaleiro das Trevas, com catalisador uma tragédia – a explosão de um dos novos heróis que devasta o Kansas, não só matando um milhão de civis, como transformando o interior dos EUA em uma terra de ninguém nuclear, destruindo a economia mundial no processo – que coloca o mundo todo, representado pela ONU (que, não por acaso, se localiza em um prédio igual ao Salão da Justiça da clássica animação Superamigos), de olho no descontrole meta-humano. A estrutura vai aos poucos se complicando, especialmente com a entrada de um Batman, que só se locomove graças a um exoesqueleto, na equação, levando à infiltrações em grupos inimigos, à construção de uma prisão para seres super-poderosos (novamente fazendo menção aos Superamigos, igual ao quartel-general da Legião do Mal) e à escalação do conflito entre Superman e sua nova Liga da Justiça e os meta-humanos rebeldes por todo o globo.

Mas o grande trunfo de Waid e Ross é capturar, à perfeição, a essência dos heróis. Superman, frustrado e cansado, desaparecera do mundo 10 anos antes depois de um desentendimento sobre sua função quando Magog, um protegido seu, mata o Coringa. Voltando ao mundo para tentar consertá-lo, ele age exatamente da maneira como os humanos não querem que ele aja: usando de seus poderes e suas ideias para realinhar o caminho da humanidade. É nesse ponto que a interferência divina é fortemente criticada, tendo como pivô o próprio Superman que, ao fazer o bem, impede a evolução do Homem. É fascinante ver os alicerces que dão base ao mundo super-heroístico dos quadrinhos mainstream vir à tona com tanta relevância e ao mesmo tempo reverência. É como ler uma graphic novel que encapsula ao mesmo tempo as qualidades e os defeitos dos super-seres e o mito que os cerca. É uma espécie de crítica adoradora da simbologia dos super-heróis que muito poucos artistas foram capazes de capturar nessas décadas todas. E o mais interessante é que Waid e Ross fazem isso sem cinismo, sem perversidade. Os valores da Era de Ouro dos super-heróis são mantidos intactos, mas atualizados para uma ambientação moderna.

O grande fio condutor dessa saga é o pastor Norman McCay, um senhor de idade que recebe visões apocalípticas de um futuro possível do moribundo Wesley Dodds, o primeiro Sandman. McCay, então, passa a navegar por esse universo como a “âncora moral” do Espectro, apenas observando e raramente interferindo. Esse artifício, que fora usado por Ross em Marvels – lá é o fotógrafo Phil Sheldon – funciona mais uma vez e humaniza toda a narrativa tomada de gigantes e deuses. É McCay que tem importância fundamental em toda a história, sendo capaz de usar seu conhecimento para fazer Superman compreender seu verdadeiro papel diante da humanidade. É uma forma dos autores demonstrarem que, no final das contas, os humanos são sim os responsáveis por suas próprias escolhas.

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Reino do Amanhã, diferente das graphic novels mais citadas em conjunto a ela (Batman – O Cavaleiro das Trevas e Watchmen) não carrega uma visão pessimista de mundo, não desconstrói de maneira irremediável os mitos dos super-heróis. Ao contrário, o trabalho de Waid e Ross é altamente positivo e simplista. Mas não leiam “simplista” como algo pejorativo, pois não é a intenção. Aqui, a conotação é de algo que não mergulha nas complexidades sombrias do tema e sim tenta ao máximo glosar o lado negativo e enaltecer o positivo. Aqui, nesse Elseworld magnífico, a “verdade e a justiça” despontam a cada página, mesmo quando a esperança parece ter desaparecido e mesmo quando mortes aos milhões são abordadas.

Reino do Amanhã encapsula, talvez como nenhuma outra obra recente, o espírito original dos quadrinhos de super-herói. É uma homenagem a um tempo que não volta mais ao mesmo tempo que é um olhar para um futuro cheio de possibilidades. É é um deleite sensorial quase indescritível.

Reino do Amanhã (Kingdom Come, EUA – 1996)
Contendo: Reino do Amanhã #1 a #4
Roteiro: Mark Waid
Arte: Alex Ross
Letras: Todd Klein
Editora original: DC Comics
Datas originais de publicação: maio a agosto de 1996
Editoras no Brasil: Editora Abril, Panini Comics
Datas de publicação no Brasil: julho a agosto de 1997 (Abril, em 4 números), abril de 1998 (Abril, em edição encadernada), agosto de 2004 (Panini, em edição encadernada), novembro de 2013 (Panini, em edição encadernada definitiva)
Páginas: 224 (versão encadernada simples)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.