Crítico | Seu Nome Era Jason: 30 Anos de Sexta-Feira 13

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estrelas 3

Obs: Leia a crítica de todos os filmes da série, aqui.

A série Sexta-Feira 13 é a prova cabal da necessidade de se repensar o que popularmente conhecemos como número do azar. No que tange ao personagem Jason e a sua presença na indústria cinematográfica, o número 13 é o símbolo da sorte, haja vista a permanência destes filmes na memória cultural mundial ao longo de mais de três décadas. No intuito de reforçar a força da franquia, o documentário His Name was Jason – 30 Years of Friday the 13th, retoma alguns pontos nevrálgicos que fizeram de Jason um dos antagonistas mais famosos da história do cinema.

Dirigido por Daniel Farrands e com produção executiva de Sean S. Cunnigham, responsável pelo primeiro filme da série, o documentário segue os modos participativo e expositivo, conceitos teóricos propostos por Bill Nichols no livro Introdução ao Documentário. No que diz respeito ao modo participativo, a produção entrevista alguns dos envolvidos nos doze filmes da franquia, às vezes só documentando, às vezes interagindo, utilizando-se de imagens de arquivo para recuperar a história que é contada.

No que se propõe pelo modo expositivo, a produção dirige-se ao espectador diretamente, propondo um argumento, neste caso, a permanência e solidez de Jason na cultura pop em escala global. Segundo relatos, nenhuma cultura passou incólume à série. Para provar essa afirmação, são apresentados alguns cartazes de filmes da série nas mais variadas línguas faladas ao redor do planeta.

O documentário traz alguns instantes de encenação. Uma garota corre de um lado para o outro como uma final girl típica da série. Tom Savini, mestre dos efeitos especiais, é o apresentador, surgindo entre intervalos para narrar cada tópico do filme. Logo após a abertura, a produção faz um resumo geral da série, trazendo à baila todos os filmes em ordem cronológica, sem deixar de ressaltar os pontos altos e baixos de cada um. Logo adiante, há um panorama do perfil de Jason, talvez o único personagem da série carregado de “certa” complexidade.

“Jason foi um grande contraceptivo na minha vida”, narra um dos entrevistados, apontando a punição pela morte como um caminho para os envolvidos com sexo casual, drogas ou qualquer manifestação não tradicional de comportamento. Esse é o terceiro grande bloco do documentário, preocupado em estabelecer os parâmetros de análise da fórmula que Sexta-Feira 13 calcificou no terreno do slasher movie. Jason, que segundo Victor Miller, seria inicialmente Josh, é um personagem que inspirou várias produções ao longo dos anos 1980, 1990 e até mesmo algumas realizações cinematográficas mais contemporâneas.

No que tange aos relatos históricos envolvendo elementos extras, há depoimentos sobre a relação da franquia com a MPAA. O sétimo filme da série foi o mais editado, tendo praticamente todas as mortes “suavizadas” em nove sessões-teste realizadas para a aprovação do órgão “censor” estadunidense. O quinto filme ocupa o segundo lugar nas limitações impostas, tendo praticamente todos os assassinatos censurados.

De acordo com os depoimentos, Jason entrou de vez no bojo da cultura pop com o lançamento de Sexta-Feira 13 Parte 3. A produção estreou com o recurso 3D e apresentou para o público a semiótica máscara de hóquei que marcou de vez a imagem do personagem nos anais da história do cinema recente. Na esteira deste relato há imagens de lancheiras, copos, videogames, dentre outros produtos derivados da série.

“Jason dá dinheiro”, aponta um dos entrevistados. Isso é uma verdade absoluta. E outra coisa: não adianta os críticos de cinema ou cinéfilos mais exigentes chamarem os produtores de “picaretas” ou “alienadores”. “Jason existe porque o público sempre pedia mais”, afirma outro relato, colocando para o espectador a responsabilidade da permanência do antagonista graças ao apego do público, um processo bem sucedido de construção de uma micro indústria dentro do macro empreendimento que é o campo de produção hollywoodiano.

A relação com a crítica especializada também é um dos pontos do documentário. “Nos divertíamos lendo alguns comentários da imprensa”, aponta Joseph Zito, diretor de Sexta-Feira 13 Parte 4: O Capítulo Final. Para reforçar o relato, a produção apresenta um breve comentário do competente, mas agressivo e temperamental Roger Ebert em seu programa televisivo sobre cinema. “Lixo imoral e repreensível”, declarou o crítico, um dos haters da série, tendo dedicado um programa inteiro para analisar os pontos problemáticos da estrutura fílmica do primeiro filme da série, lançado em 1980.

Entre os entrevistados, temos Seth Garhome-Smith, responsável por Crystal Lake Memories, livro lançado em 2012 e que se tornou um documentário de nove horas de duração, um raro trabalho de resgata a memória de um produto cinematográfico. Diretores, atores, atrizes e roteiristas comentam alguns pontos centrais envolvendo as suas respectivas participações na série, sempre com bom humor e autocrítica, haja vista que, em vários momentos, os entrevistados mencionam os problemas de continuidade, os erros de gravação e detalhes de bastidores.

O depoimento de Adrienne King é um dos mais interessantes. A final girl do primeiro filme, morta logo no preâmbulo do segundo, alega que recebeu numerosas cartas de pessoas dizendo que a sua personagem havia sido a responsável pela vitória no processo de luta contra as amarguras da vida real. Segundo o relato, os remetentes diziam que a força da personagem os lembrava de suas batalhas cotidianas. Cabe ressaltar que King precisou afastar-se das telas logo após o lançamento do segundo filme. Perseguida por um misterioso homem que lhe fazia terríveis ameaças de morte, a atriz só alcançou a paz desejada após a prisão e processo judicial do perseguidor.

Amy Steel, final girl do segundo filme, aponta que o fechamento da sequência é um dos mais misteriosos finais de toda a série. Ela acredita que não tenha sido um sonho: de fato, na cena do susto envolvendo a cadela Molly e o salto de Jason pela janela, a personagem pode ter lutado com o antagonista e sobrevivido ao processo, sendo isso fruto da nossa imaginação, pois os produtores deixam o final em aberto. Essa questão nos remete ao que os manuais de roteiro chamam de “cena obrigatória”.

Inspirado em Poética, de Aristóteles, esse recurso é utilizado para deixar espaço aos possíveis processos interpretativos do espectador em relação ao que é narrado em tela, entretanto, ao observar o panorama da franquia, é possível inferir que o final esteja mais associado ao trabalho “pecaminoso” de roteiro e montagem de alguns filmes do que a intenção de expor uma “cena obrigatória” para os espectadores.

Apesar de bem humorado e revelador de algumas curiosidades que podem ser de interesse geral, não apenas para os amantes do personagem, o documentário se perde um pouco na dispersão das histórias contadas. Há, aparentemente, uma linha narrativa que tenta seguir um direcionamento, mas a produção peca por não amarrar bem algumas pontas. Basta saber, de fato, se isso é um problema de Monica Daniel, responsável pela montagem, ou do roteiro, assinado por Thommy Hutson e Anthony Masi. No entanto, independente dessas pequenas falhas, o documentário continua sendo interessante para compreensão do gênero nos anos 1980, bem como dos motivos que levaram Sexta-Feira 13 a atravessar tantas gerações.

Além da dispersão, há outra questão incômoda no documentário: a trilha sonora de John Corlis. É quase inconcebível pensar esta produção sem nenhuma menção ao trabalho de Harry Manfredini e sua famosa trilha inspirada no trabalho de Bernard Hermann em Psicose, de Alfred Hitchcock. Os entrevistados até comentam a música tema da série, mas ela não é tocada em nenhum momento, nem sequer nas cenas extraídas dos filmes, apresentadas sem nenhum trabalho de som, um dos poucos pontos interessantes no âmbito estético das obras deste gênero.

A produção é uma prova do interesse contemporâneo pelo resgate da memória do cinema. Lançado dia 13 de fevereiro de 2009, o documentário veio na esteira da refilmagem de Sexta-Feira 13, comandada por Marcus Nispel (responsável pela versão turbinada de O Massacre da Serra Elétrica), sendo uma produção que não foca, como já apontado, apenas nos fãs do gênero terror ou do icônico Jason, mas nos curiosos e interessados pela história da indústria cinematográfica.

Há relatos que afirmam Sexta-Feira 13 como um dos próximos filmes a tornar-se série televisiva. Pode até ser boato, mas com o panorama atual que nos oferta Scream Queens, Scream e outros derivados de filmes de terror de sucesso, é bem possível que esta afirmação seja mais verdadeira. Por sinal, hoje é sexta-feira 13, dia de fazer uma retrospectiva. Que tal assistir aos filmes da série e depois conferir todas as críticas do nosso especial?

Seu Nome Era Jason: 30 Anos de Sexta-Feira 13 (His Name was Jason: 30 Years of Friday the 13th, EUA – 2009)
Direção: Daniel Farrands
Roteiro: Thommy Hutson, Anthony Masi
Elenco: Sean S Cunnigham, Adrienne King, Amy Steel, John Furey, Kane Hodder, Robbi Morgan, Ari Lehman, Betsy Palmer,  Warrigton Gillette, Russel Todd
Duração: 87 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.