Entenda Melhor | Doctor Who: A Contagem dos Doutores, Trenzalore e outros Wibbly Wobblys

ATENÇÃO: O texto a seguir é bastante longo e está repleto de spoilers. Se você não assistiu à tetralogia do Doutor (The Name, The Night, The Day e The Time of the Doctor) sugiro que não leia o artigo. Se arriscar, será por sua conta e risco.

Boa leitura a todos!

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Desde que o público whovian ficou sabendo da existência do War Doctor, uma dúvida aterradora pairou sobre o fandom: como ficaria a contagem dos Doutores a partir daí? Na ocasião, Steven Moffat, atual showrunner da série, disse que a contagem não seria alterada, mas isso não foi o bastante.

No período que foi do episódio final da 7ª Temporada, The Name of the Doctor, até o Especial de Natal de 2013, The Time of the Doctor, teorias, confusões, nós, gritos de terror, brigas e maldições lançadas entre os whovians em fóruns e páginas pela internet afora fizeram parte do cardápio duvidoso sobre qual número seria determinado Doutor, uma confusão centrada nas encarnações posteriores ao Time Lord vivido por Paul McGann no filme de 1996 e forçosamente regenerado em The Night of the Doctor.

Neste artigo, irei abordar os eventos que marcaram essa fase de Doctor Who e, ao final, expor como fica a classificação dos Doutores a partir da saída de Matt Smith do papel.

Whovians achistas ou a revolta da Pequena Inteligência

As falas são muitas: “não me importa o que Moffat diz. John Hurt é sim um Doutor como qualquer outro” / “fica impossível ver a série a partir de agora. Parei.” / “Peter Capaldi é o 14º Doutor, toda a produção e divulgação oficial de Doctor Who está errada”… e por aí vai.

Convenhamos que Steven Moffat confundiu muito as coisas com seus roteiros em 2013, mas é preciso que o espectador ou os fãs mais “meu querido diário” tentem entender as coisas a partir do que foi estabelecido oficialmente. Caso contrário, o indivíduo assistirá Doctor Who como uma série unicamente sua, num universo à parte, longe de qualquer realidade ou sentido que o show tome a partir de sua 8ª Temporada.

Programas de TV são assim, mesmo aqueles que gostamos muito acabam nos decepcionando vez ou outra, mas, o que fazer? Ora, Doctor Who já passou de seus 50 anos de idade e… por quê mesmo? Porque é um programa marcado por mudanças, renovos, regenerações totais (eu e meu partner e co-editor aqui do Plano Crítico, Ritter Fan, já comentamos muito sobre isso em nossos textos das temporadas da Nova Série) e embora não concordemos ou gostemos de todas, é preciso tomar lidar com que foi feito e seguir tendo isso como base. Reclamar e se posicionar contra algo que não gostou é um ótimo exercício democrático, o que se torna burrice é querer fazer de uma visão pessoal algo oficial de qualquer produção artística, subtraindo a verdadeira intenção de seus autores.

Eu constantemente tenho o infortúnio de ler comentários de pessoas que seguem uma linha completamente perturbada de interpretação da série, como se fosse um roteirista contratado da BBC e que tivesse a missão de dar um sentido oculto e aterrador para todas as coisas televisionadas (há até aqueles que defendem que deve-se começar a ver a série a partir da 5ª Temporada! Que tipo de ser vivo com telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor defenderia que é “ok” começar a assistir um programa de televisão a partir dos eventos de seu 5º ano de existência? E eu não estou falando de 1 episódio para “apresentação aos novatos” – o que também não concordo, mas é mais aceitável – estou falando de uma temporada inteira!).

Dito isso, vamos estabelecer um parâmetro de fatos oficiais de Doctor Who para a nossa análise abaixo, começando com um dos problemas mais fáceis e polêmicos.

Por que não podemos considerar o War Doctor como um “Doutor”?

A pergunta é muito simples e a resposta também, mas há quem se digladie até hoje por isso. Para responder de uma vez por todas, vamos ver e transcrever alguns trechos de roteiros. Vocês vão perceber que a própria série explica o conceito e responde a suposta “confusão”, só é preciso que o espectador preste atenção ao que está assistindo.

  • Trecho nº1: The Name of the Doctor.

Clara: Quem é aquele?

11º Doutor: Não importa, vamos voltar.

Clara: Mas quem é ele?

11º Doutor: Sou eu. Só eu existo aqui. Vamos voltar.

Clara: Mas eu nunca vi aquele. E eu vi todos de você. 11 rostos, todos você. Você é o 11º Doutor.

11º Doutor: Eu disse que ele era eu. Nunca disse que ele era o Doutor.

Clara: Não entendo.

11º Doutor: Meu nome, meu verdadeiro nome… isso não importa. O nome que eu escolhi é “Doutor”. O nome que você escolhe é como uma promessa que você faz. Ele é quem quebrou a promessa. […] Ele é o meu segredo.

War Doctor: O que eu fiz, eu fiz sem ter escolha.

11º Doutor: Eu sei.

War Doctor: Em nome da paz e da sanidade.

11º Doutor: Mas não em nome do Doutor!

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  • Trecho nº 2: The Night of the Doctor.

Ohila: O Universo está por um fio. Você vai deixar que ele se parta? Rápido ou forte. Sábio ou furioso. Do que você precisa agora?

8º Doutor: Um guerreiro.

Ohila: Guerreiro?

8º Doutor: Não há mais utilidade para um Doutor. Transforme-me em um Guerreiro. […] Nunca mais Doutor.

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  • Trecho nº 3: The Day of the Doctor.

Moment: Você tem medo do Lobo Mau, Doutor?

War Doctor: Pare de me chamar de Doutor.

Moment: É o nome na sua mente.

War Doctor:Não deveria ser. Já faz muito tempo que eu estou nessa guerra. Perdi o direito de ser o Doutor.

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War Doctor (para o 10º e 11º Doutores): Não lembrarei que tentei salvar Gallifrey ao invés de queimá-lo. Terei que aceitar isso. Mas agora, nesse momento, sou o Doutor de novo. Obrigado.

Não vou explicar todos os trechos porque eles são muito claros e respondem bem a questão desse tópico. Quero apenas chamar atenção para o último trecho do War Doctor, transcrito acima. Vejam que ele deixa explícito que NAQUELE MOMENTO ele se considerara o Doutor de novo.

Aproveito o ensejo para dizer que a base para a famosa frase “Não, senhor! Todos os 13!” dita por um dos Comandantes de Gallifrey nesse Especial foi justamente nesse contexto de ação e aceitação do War Doctor. Aritmeticamente eram 13 TARDISes, portanto, “13 Doutores”. O Comandante não sabia que um daqueles Time Lords não carregava o nome de Doutor. Todavia, também podemos entender que há um coerente acerto nessa questão, já que, naquela hora, o War Doctor não estava guerreando, ele estava salvando, assim como todas as suas outras encarnações.

Eu geralmente comparo a questão do War Doctor como as nossas alterações esporádicas de humor. O fato de termos explosões de raiva em alguns momentos não faz de nós uma pessoa patologicamente colérica. O fato de chorarmos esporadicamente não faz de nós uma pessoa depressiva. O fato de o War Doctor ter se sentido Doutor POR UM MOMENTO e ter agido como Doutor e ser chamado como tal enquanto salvava Gallifrey (momentos!), não faz dele um Doutor. Ele é um Guerreiro. Ele nasceu assim, foi forjado assim e se viu assim durante toda sua vida, à exceção de dois únicos pontos de sua vida citados acima.

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Regeneração e Ciclos Regenerativos

NOTA: Os quatro primeiros parágrafos desse bloco foram anteriormente publicados num outro texto meu, o Entenda Melhor: Doctor Who.

Regeneração é o ato de mudança biogenética de um Time Lord toda vez que ele percebe que o seu corpo vai morrer. Para isso, o Time Lord precisa receber um treinamento (anos de estudo da Time Lord Academy). O processo ocorre através da liberação de um hormônio chamado lindos, que é geralmente manifestado como uma forte luz branca ou amarelada em torno do Time Lord. Em alguns casos, porém, a morte é tão rápida, que não dá tempo de o processo de regeneração se completar, portanto, nessa ocasião, o Time Lord acaba morrendo. Mas a morte pode ser revertida com alguma ajuda…

A ajuda mais recente vista em Doctor Who foi dada pela Irmandade de Karn ao 8º Doutor em The Night of the Doctor (2013). Ele morre, elas o revivem por 4 minutos e oferecem cálices com elixires diferentes para ele escolher (o paradoxo da escolha sugerida) no que queria se tornar para combater na Time War.

Em 1976, no arco The Deadly Assassin, tivemos a informação de que os Time Lords só podem se regenerar 12 vezes. Já no arco Death of the Doctor (2010), de um spin-off de Doctor Who chamado The Sarah Jane Adventures, o 11º Doutor diz a um dos companions de Sarah Jane que ele pode se regenerar 507 vezes! Russell T Davies, autor do roteiro desse arco, deixou claro que aquilo foi uma brincadeira em relação ao número estabelecido na Série Clássica (e… o Doutor mente, não é mesmo?), além disso, esse tom de brincadeira do 11º Doutor está explícito em todo o arco, portanto, a explicação é válida. No mais, 507 vezes pode ser visto como 5 + 0 + 7 = 12, o que nos deixaria no mesmo lugar inicial. Mas se olharmos para a Série Clássica com atenção, veremos arcos com informações bastante diversificadas sobre esse número de vidas possíveis de um Time Lord. Apesar disso, o número 12 se firmou e, com a estrutura de Moffat para os eventos de The Time of the Doctor, creio que se tornou um elemento-chave imutável da série – porém, no futuro, tudo pode acontecer.

Um fato curioso é que as regenerações possuem um ciclo de fixação no qual o Doutor pode sofrer ferimentos graves ou perder parte de seu corpo que a energia do ciclo regenerativo (os hormônios lindos) fará crescer um novo membro, como acontece com a mão do 10º Doutor em The Christmas Invasion (2005).

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Os Time Lords recebem um ciclo de 12 regenerações, o que quer dizer que eles viverão 13 encarnações (entenda que REGENERAÇÃO é o processo de liberação dos hormônios lindos para mudança de corpo do Time Lord; ENCARNAÇÃO é a existência de vida em um corpo por um certo período de tempo, portanto, são coisas completamente diferentes).

Em alguns casos especiais, o ciclo de regenerações pode ser renovado.

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O Estranho caso de Trenzalore

Nos Campos de Trenzalore, na queda do Décimo Primeiro… Quando nenhuma criatura viva poderá mentir ou deixar de responder, uma pergunta será feita. Uma pergunta que nunca deve ser respondida. A primeira pergunta. A mais antiga do Universo, escondida da vista de todos… Doctor Who?

Dorium Maldovar

Eu conversei e discuti com muitos amigos e colegas de fóruns sobre os eventos de The Time of the Doctor. Afinal de contas, as respostas essenciais da Era Matt Smith deveriam ser dadas e a confusão da contagem dos Doutores resolvida. Mas Steven Moffat não fez a coisa fácil, e de alguma forma adicionou ainda mais lenha à fogueira, porque algumas pessoas acreditam que a surpresa ocorrida em Trenzalore na despedida de Matt Smith, inutilizou tudo o que aconteceu antes na série.

Só que não.

Eu não gostei da maior parte de The Time…, mas devo admitir que Moffat fechou de maneira coerente a Era Smith e nos trouxe algumas boas esperanças, afinal de contas, a pergunta Doctor Who? que saía da rachadura, eram os Time Lords querendo vir para o nosso Universo (prova de que estão vivinhos da Silva), precisando apenas de uma segurança a mais, uma palavra do Doutor. Só que se o Doutor dissesse seu nome, uma nova Time War poderia ocorrer já que todo tipo de inimigo orbitava Trenzalore, logo, a profecia que conhecíamos desde a 5ª Temporada deveria se cumprir, e ela se cumpriu: o silêncio caiu.

Clara acabou convencendo os Time Lords a darem um novo ciclo de regenerações para o Doutor, ele derrotou seus inimigos com a força regenerativa e… e o que mesmo? A partir daí temos duas opções perfeitamente coerentes com o andamento da série, só dependendo do futuro para inutilizar uma delas, ou ambas. Mas nenhuma inutiliza nenhuma fase do programa.

Opção nº1 – Esse evento com o 11º Doutor é apenas um fato “comum” na vida do Time Lord. Na verdade, o Doutor ainda vai voltar para Trenzalore e ainda vai morrer e ser enterrado ali. Portanto, segundo essa opção, o túmulo que vimos em The Name of the Doctor existirá no futuro. O fato de The Time of the Doctor ter ocorrido em Trenzalore foi apenas… uma interessante coincidência.

Opção nº2 – Os eventos de The Time of the Doctor são um perfeito loop temporal, que comporta tranquilamente duas realidades em Trenzalore. Preste atenção na sequência:

  • Se o Doutor não morreu em Trenzalore,

  • lá não havia seu túmulo, então Clara não pulou em sua timeline,

  • ele não conheceu Clara,

  • ela jamais deu a ideia para que ele salvasse Gallifrey em vez de destruí-lo,

  • o Doutor destruiu Gallifrey e os Time Lords,
  • Clara jamais pediu aos Time Lords um novo ciclo regenerativo para o Doutor,

  • então, naquela noite, ele morre na torre de Trenzalore.

  • Morrendo na torre de Trenzalore, seu túmulo surgiu,

  • então Clara pulou em sua timeline,

  • ele a conheceu desde a sua 1ª encarnação,

  • ela o convenceu a salvar Gallifrey em vez de destruí-lo,

  • o Doutor salvou Gallifrey e os Time Lords,
  • Clara pediu aos Time Lords um novo ciclo regenerativo para o Doutor,

  • os Time Lords lhe concederam um novo ciclo regenerativo,

  • então o Doutor não morreu em Trenzalore.

  • Se ele não morreu em Trenzalore,

  • lá não havia seu túmulo, então Clara não pulou em sua timeline,

  • ele não conheceu Clara,

  • etc etc etc etc…

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A Contagem

Baseado em tudo o que dissemos acima, eis o nosso quadro com a contagem de cada quesito que compõe a “classificação” da vida do Doutor. Lembrando que o Meta Crise (regeneração do 10º Doutor nele mesmo – problemas de ego, segundo o 11º – usando sua mão decepada) também entra na contagem de encarnações e regenerações, conforme vimos em The Time of the Doctor.

William Hartnell 1º Doutor 1ª Encarnação X
Patrick Troughton 2º Doutor 2ª Encarnação 1ª Regeneração (1/12) – Ciclo 1
Jon Pertwee 3º Doutor 3ª Encarnação 2ª Regeneração (2/12) – Ciclo 1
Tom Baker 4º Doutor 4ª Encarnação 3ª Regeneração (3/12) – Ciclo 1
Peter Davison 5º Doutor 5ª Encarnação 4ª Regeneração (4/12) – Ciclo 1
Colin Baker 6º Doutor 6ª encarnação 5ª Regeneração (5/12) – Ciclo 1
Sylvester McCoy 7º Doutor 7ª Encarnação 6ª Regeneração (6/12) – Ciclo 1
Paul McGann 8º Doutor 8ª Encarnação 7ª Regeneração (7/12) – Ciclo 1
John Hurt War Doctor 9ª Encarnação 8ª Regeneração (8/12) – Ciclo 1
Christopher Eccleston 9º Doutor 10ª Encarnação 9ª Regeneração (9/12) – Ciclo 1
David Tennant 10º Doutor 11ª Encarnação 10ª Regeneração (10/12) – Ciclo 1
David Tennant Meta Crise 12ª Encarnação 11ª Regeneração (11/12) – Ciclo 1
Matt Smith 11º Doutor 13ª Encarnação 12ª Regeneração (12/12) – Ciclo 1
Peter Capaldi 12º Doutor 14ª Encarnação 13ª Regeneração (1/12) – Ciclo 2

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.