Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Reign of Terror (Arco #8)

_ Ele teve o que merecia.

_ Verifique seus livros de história antes de decidir o que as pessoas merecem ou não, Ian.

estrelas 4

Equipe: 1º Doutor, Susan, Ian e Barbara
Espaço: França
Tempo: Julho de 1794

Eis que chegamos ao finale da 1ª Temporada clássica de Doctor Who, e nada mais justo do que encerrar o primeiro ano de aventuras do Doutor em seu período favorito da história da humanidade: a Revolução Francesa. Após partir da Esfera dos Sentidos, o Doutor está bravo com algo que Ian falou. A cena é engraçada, porque o professor dá a entender que o Doutor não fazia ideia pra onde estava indo, ao contrário dos humanos do século 28, que enfim libertados pelos Sensorites, iniciavam sua jornada de volta à Terra.

Como sempre irritado – momentos preciosos que contam com uma excelente interpretação de Hartnell –, o Doutor resolve programar a nave para Londres e levar Ian e Barbara para casa. Mas quando a TARDIS se materializa, eles estão do outro lado do Canal da Mancha e alguns séculos antes de 1963. Ao se dar conta disso, Susan é a primeira a reconhecer que o Doutor jamais aceitaria voltar para a TARDIS e tentar outra viagem, uma vez que ele estava em seu tempo e espaço favoritos.

Se você ainda se recorda de suas aulas de História, é possível que quase tudo sobre a Revolução Francesa lhe pareça um borrão de sangue numa avalanche de eventos históricos. E de fato é. Particularmente, considero este um dos períodos mais “complexos” da História, não só pela transição do período moderno para o contemporâneo, mas também pela densidade dos eventos, alcance e importância para toda a civilização Ocidental.

Mas há um momento do processo revolucionário francês que causa genuíno espanto a muita gente, dada a quantidade de mortos e a paranoia da traição que tomou conta das bocas e salas, das cabanas campestres aos grandes locais de decisão do governo republicano jacobino. Este é o chamado Terror ou Reinado/Reino do Terror, período onde morreram a ex-rainha Maria Antonieta, o químico Antoine Lavoisier, o advogado e político Danton, e o próprio radical e sanguinário Maximilien de Robespierre.

A chegada do Doutor, Suasan, Ian e Barbara é em 23 de julho de 1794, cinco dias antes da deposição de Robespierre e exatamente no mesmo dia da decapitação de Alexandre de Beauharnais, o primeiro marido de Josefina, futura esposa do futuro governante da França, Napoleão Bonaparte. E mais um fato curioso: o general Beauharnais foi pai de Amélia, a futura Imperatriz do Brasil, já que seria a segunda esposa de D. Pedro I.

Já no primeiro episódio, A Land of Fear, somos inseridos em um clima de pavor e ameaça, com direito a demonstrações medonhas do que era a arbitrariedade das prisões, do sistema judiciário e dos motivos para matar alguém que não fosse de sua ala política. É claro que o grupo de viajantes  vai descobrir nos dias seguintes que essa postura não era comum de todos os franceses, mas não eram muitos os que escapavam da condenação injustificada em nome da Revolução.

Algo que impressiona no roteiro de Dennis Spooner é a excelente contextualização ideológica, uma vez que não mostra apenas um lado político da Revolução, mas os três (girondinos, pântanos e jacobinos), além de trazer visões externas diferentes, seja por parte do espião britânico em serviço na capital francesa ou dos próprios companions do Doutor, Ian e Barbara. Além dessa composição histórica e política do roteiro, a história se sustenta a maior parte do tempo como um drama quase social, tenso e cheio de intrigas de resultados perigosos tanto para o Doutor quanto para seus amigos.

Apesar do tema trabalhado, é quase impossível não rir do Doutor vestido como um Representante de Província, uma vestimenta espalhafatosa que contrastava com a personalidade séria do Time Lord. Os figurinos dos coadjuvantes também são bastante fiéis à época, assim como a reconstituição de Paris e de localidades campesinas. Também vale notar que este arco foi o primeiro da série a ser filmado em locação, algo que fez total diferença na percepção do espectador.

De todos os episódios do arco, o meu favorito é o último, Prisoners of Conciergerie, não só porque fecha a história de maneira admirável — com uma inversão de jogo muito inteligente –, mas também porque traz a figura de Napoleão em um outro contexto, brincando com os bastidores da História, construindo possibilidades, tornando viva a ciência dos homens no tempo.

Dentro desta contextualização, percebemos que Barbara já entendera que não poderia modificar pontos fixos na História, exatamente como ela tentara fazer no México, no arco Os Astecas. Aqui, mesmo que tentem, o tempo vence a corrida e o que era para acontecer, acontece. Veja que não apenas o trabalho com o drama narrado mas também fagulhas da complexidade canônica da série se fazem perceber.

Tal qual na aventura em Marco Polo, há uma ótima deixa para o futuro e questionamentos perturbadores para quem fica, especialmente nesse momento da história.

Já na TARDIS, o assunto é a exploração das estrelas, o estar além do tempo e do espaço, a possibilidade de aterrissar em qualquer lugar, independente do que possa haver lá. Por mais incrível que pareça, não deixa de ser um tanto assustador, algo que o nome do arco seguinte, Planet of Giants, parece sugerir muito bem.

The Reign of Terror (Arco #8) – 1ª Temporada – Season Finale

Roteiro: Dennis Spooner
Direção: Henric Hirsch, John Gorrie
Elenco principal: William Hartnell, Carole Ann Ford, Jacqueline Hill, William Russell, John Barrard, James Cairncross, Jack Cunningham, Laidlaw Dalling, Roy Herrick, Neville Smith

Audiência média: 6,73 milhões

6 Episódios (exibidos entre 08 de agosto e 12 de setembro de 1964):
1. – A Land of Fear
2. – Guests of Madame Guillotine
3. – A Change of Identity
4. – The Tyrant of France
5. – A Bargain of Necessity
6. – Prisoners of Conciergerie

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.