Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Aztecs (Arco #6)

estrelas 4,5

Equipe: 1º Doutor, Susan, Ian e Barbara
Espaço-tempo: México, c. 1454

Os Astecas é um dos meus arcos favoritos dessa primeira temporada de Doctor Who, ao lado de The Edge of Destruction e Marco Polo. Embora a data da aventura nesta civilização pré-colombiana seja aproximada, percebemos que aconteceu em seu último século de existência, o que deve ter sido muito difícil para Barbara, historiadora especialista em Civilização Asteca. Isso talvez explique a sua tentativa de modificar o modo de vida dos indígenas, começando pela interrupção dos sacrifícios humanos. A tentativa da historiadora era fazer com que a sociedade tivesse uma estrutura de funcionamento menos ritualística e com foco em outras coisas. Talvez assim, pensava ela, o fim dos astecas fosse impedido.

Pela primeira vez na série temos o impasse do viajante que pretende modificar um ponto fixo no tempo e se depara com a posição negativa do Doutor. As questões morais e éticas de Barbara, uma professora britânica do século 20, se digladiam com a posição da Alta Sacerdotisa Yetaxa que ela assume. John Lucarotti cria um interessante debate antropológico, mantendo separadas a cultura dos viajantes e a dos nativos, num exemplo máximo, quando o jovem a quem Barbara/Yetaxa salva do sacrifício, diz que ela o desonrou, e acaba se suicidando. No futuro da série esse problema apareceria diversas vezes, tanto na versão clássica (Time-Flight) quanto na nova (The Waters of Mars, The Wedding of River Song).

Em The Keys of Marinus eu salientei que os “efeitos especiais tipo B”, muito comuns em Doctor Who, são o charme da série, isso quando não assumem a característica de desleixo total da equipe de produção. Mas não há nada como ver caracterizações de cenário e efeitos bem realizados, como é o caso de todo esse arco dos astecas. Figurinos, pinturas, entalhes nas paredes, maquiagem e artefatos, tudo é muito bem feito e ganha uma ótima representação na tela, graças a boa direção de John Crockett. Desde a chegada da TARDIS em The Temple of Evil, presenciamos uma abordagem notável da cultura asteca, mesmo que em alguns momentos, como no episódio final, The Day of Darkness, exista mais dramatização do que representação história – todavia, é importante ressaltar que eu não cobro uma adaptação fiel à história em nenhuma obra fictícia, portanto, vejo essas dramatizações como algo necessário para o desenvolvimento do roteiro em questão.

A única coisa que não parece natural nos episódios são as lutas de Ian com o guerreiro Ixta, muito embora a esperteza do professor em The Warriors of Death deva ser destacada. Um outro ponto que merece ser abordado é o caráter dos vilões até esse momento da série. As criaturas enfrentadas até então, Daleks, Voords, Morphos, etc., não apresentam tanto perigo e histórias tão elaboradas quanto os vilões humanos. É interessante observar que os planos das criaturas são sempre mecânicos, tendo uma ou outra carta na manga – no caso dos Daleks, que sempre encontram um jeitinho – mas ignorando uma série de cosias que para os humanos acabam sendo a salvação. Porém, quando se trata de inimigos da nossa espécie, os planos são mais elaborados, megalomaníacos e sempre há a questão da intriga, o que acaba envolvendo mais de uma pessoa para ser enfrentada – o arco Marco Polo foi um grande exemplo disso.

Mas o grande acontecimento em Os Astecas foi certamente a abordagem do lado emotivo do Doutor, que flerta e acaba noivando com uma nativa, a senhora Cameca. Mesmo que o noivado não estivesse nos planos do Doutor (ele mesmo não sabia que ao oferecer uma bebida de cacau à mulher estaria se comprometendo com ela), o flerte e a troca de elogios e confetes foi algo interessante de se ver. Pela primeira vez vimos o lado menos alien do Time Lord, ou o lado romântico alien dele. O fato é que esse noivado parece ter tocado o Doutor, que antes de entrar na TARDIS, volta para pegar o presente que recebera de Cameca, presente que a princípio pretendia deixar na cripta do verdadeiro Yetaxa. Talvez essa tenha sido a maior prova de que mesmo sendo um velho ranzinza, o Doutor era capaz de gestos e sentimentos muito humanos, por assim dizer. Até a sua relação com Barbara mudou após os eventos de The Edge of Destruction, e aqui podemos ver os dois mais próximos, compartilhando opiniões e impressões gerais sobre os acontecimentos.

Particularmente não gosto do tratamento dado a Susan nesse arco. Aliás, Susan recebeu um tratamento bastante enfadonho dos roteiristas na maior parte dos episódios dessa temporada. Ela geralmente é retratada como uma garota frágil e bastante histérica, o que é estranho, porque depois de viajar tanto tempo com o Doutor (mesmo sabendo que eles estavam na Terra já a algum tempo, a tirar pela presença de Susan na escola, em An Unearthly Child, há indicações de que haviam viajado muito pelo Universo) ela já deveria ter se acostumado com coisas estranhas e ameaças diversas. Eu gosto muito de Susan, mas às vezes é irritante observar o modo como ela é tratada nos enredos da série.

Das três aventuras históricas do Doutor nesta primeira temporada, Os Astecas talvez seja a mais bem produzida, embora perca alguns pontos na criação de uma história para o período pré-colombiano. De qualquer forma, este é com certeza um dos melhores arcos de toda a temporada, um dos que com certeza indicaria para novos espectadores conhecerem a série clássica e o 1º Doutor.

The Aztecs (Arco #6) – 1ª Temporada

Roteiro: John Lucarotti
Direção: John Crockett
Elenco principal: William Hartnell, Carole Ann Ford, Jacqueline Hill, William Russell, Ian Cullen, Keith Pyott, John Ringham, Margot van der Burgh

Audiência média: 7,53 milhões

4 Episódios (exibidos entre 23 de maio e 13 de junho de 1964):
1. – The Temple of Evil
2. – The Warriors of Death
3. – The Bride of Sacrifice
4. – The Day of Darkness

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.