Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Brain of Morbius (Arco #84)

estrelas 4

Equipe: 4º Doutor, Sarah Jane Smith
Espaço: Planeta Karn
Tempo: 3120 (?)

Assim como a maior parte das civilizações, Gallifrey teve os seus aspirantes a dominadores do mundo (nesse caso, dos mundos), que depois de tentativas frustradas de levar adiante seus intentos e após conquistarem uma legião de seguidores nesse processo, foram subjugados e condenados ao exílio ou à morte. Esta é praticamente toda a história de Morbius, um gallifreyano que chegou a ser líder do Alto Conselho dos Time Lords, mas caiu em desgraça após tentar exercer suas ideias de domínio ditatorial pelo Universo, formando um Exército particular de mercenários (futuramente chamado de Culto de Morbius), prometendo-lhes imortalidade e o domínio da viagem no tempo.

Denunciado por alguns Time Lords, Morbius e seus seguidores abandonaram Gallifrey e seguiram atacando diversas outras culturas nas constelações próximas, principalmente em busca da imortalidade. Seus atos foram tão cruéis e potencialmente ameaçadores, que no romance Warmonger (2002) vemos o 5º Doutor viajar para o passado de seu planeta natal, receber a ordenação de Comandante Supremo de uma improvável aliança entre humanos, Draconians, Cybermen, Ogrons, Ice Warriors e Sontarans e combater Morbius e seu Culto. Com a ajuda da Irmandade de Karn, a Aliança conseguiu derrotar Morbius, julgá-lo e condená-lo à morte. Porém, antes de sua desintegração, o cientista terráqueo e membro do Culto, Mehendri Solon, removeu o cérebro do Time Lord condenado e o preservou, na esperança de um dia fazer o seu mestre voltar à vida.

A partir de então, Solon e seu assistente Condo — um dos tripulantes de uma nave que caiu no planeta — estabeleceram residência em Karn (que ficou abandonado após o julgamento) e passaram a atrair naves espaciais que por ali passavam, fazendo-as cair para retirar partes dos corpos de seus tripulantes e assim fazerem um hospedeiro perfeito para a ressurreição de Morbius, que no momento em que a história desse arco começa, está nervoso para voltar à vida, enquanto Solon espera a “cabeça ideal” para alojar o cérebro de seu mestre, daí o título do arco.

As primeiras imagens que nos vem à mente quando assistimos a The Brain of Morbius são as de Frankenstein e O Corcunda de Notre Dame. Impossível não fazer ligação com os experimentos científicos de Solon (nome-referência a Planeta Proibido) com os que são feitos para criar o famoso monstro de Mary Shelley. Os episódios do arco nos dão essa impressão durante todo o tempo, seja através da direção de arte (que é um misto de terror e ficção científica, seguindo as bases góticas da temporada), da trilha sonora com seus temas musicais macabros, e do fator espiritual da Irmandade de Karn, que também não deixa de pender para o horror.

Quando a TARDIS se materializa no planeta das guardadoras da “chama e do fogo que gera o Elixir da Vida”, o 4º Doutor desconfia imediatamente que aquela aterrissagem fora obra dos Time Lords. A relação entre o Doutor e seus conterrâneos não era das melhores — The War Games que o diga –, havendo uma forte animosidade dos dois lados. Ele e Sarah Jane tentam encontrar alguma coisa no planeta, mas o Doutor está irritado com a perspectiva de encarar outros de sua espécie e é Sarah quem começa o reconhecimento do local. Já nesse início, vemos os elementos do horror na tela e eles vão desde a aparência geográfica do local, um corpo alienígena morto e degolado encontrado por Sarah a alguns passos da TARDIS, até a fotografia escura e a tempestade, que os forçam a procurar abrigo no castelo de Solon.

Numa narrativa paralela a esse bloco, temos Maren, a Alta Sacerdotisa da Irmandade de Karn preocupada com a diminuição da chama sagrada que gera o Elixir da Vida. Ela não demora muito par perceber que o Doutor está no planeta e, ao descobrir que ele é um Time Lord, teme o que está por vir. Embora a Irmandade tenha tido uma boa convivência inicial com os Time Lords, as relações entre eles ficaram difíceis após a “Era Morbius”, o que fez com que desconfiassem de tudo e todos, achando que vinham ao planeta apenas para pegar o Elixir da Vida e se tornarem imortais. Em tempos passados, os Time Lords fizeram uso desse Elixir para correção de problemas com a regeneração, mas com o passar dos séculos, alguns deles queriam o Elixir para outros fins.

A parte menos interessante do arco é justamente a da ressurreição de Morbius num corpo monstruoso, mas em compensação, a relação do Doutor com a Irmandade e o modo como as coisas terminam valem muito a pena. Elisabeth Sladen se mostra uma atriz incrível, distanciando-se dos padrões de companion feminina frágil para uma ativa assistente do Doutor, que diversas vezes salva o dia, arriscando-se, mesmo em grandes dificuldades a fazer alguma coisa pelo seu adorado amigo. A química entre Tom Baker e Sladen é um atrativo à parte, e percebemos como essa ótima relação entre os atores é utilizada no roteiro para criar um tom humorístico nos momentos certos do arco, culminando situações que arrancam boas risadas do espectador.

The Brain of Morbius é uma história de terror B com um interessante componente místico, uma aventura do 4º Doutor e Sarah Jane que abriria as portas para definir algumas relações futuras do famoso Time Lord com a Irmandade de Karn, um dos momentos mais difíceis de sua vida e de crise por todo o Universo, em The Night of the Doctor.

Oito Doutores Anteriores? Como assim?

Aqui abrimos um pequeno espaço para a discussão de um tópico importante e muito polêmico que aparece nessa fase da série.

Durante a batalha mental entre o Doutor e Morbius, aparecem as faces das três encarnações anteriores conhecidas por nós (ou seja, , e Doutores), mas depois de William Hartnell vemos surgir na tela mais 8 rostos, que dão a entender serem encarnações anteriores do Doutor. Na sequência, as faces são de pessoas ligadas à produção da série na época:

  • Christopher Baker (membro do time de produção de DW nos anos 70);
  • Robert Holmes (na época editor de roteiros, mas também foi roteirista da série);
  • Graeme Harper (na época assistente, mas depois diretor da série);
  • Douglas Camfield (veterano diretor da série);
  • Philip Hinchcliffe (produtor da série na época);
  • Robert Banks Stewart (roteirista de algumas aventuras do 4º Doutor);
  • George Gallaccio (gerente de unidade de produção da época);
  • Christopher Barry (diretor de episódio da série do 1º ao 4º Doutor).

A cena é organizada de modo que o que vemos é o seguinte.

Morbius_Doctors

Oito versões do Doutor ANTES do William Hartnell, que para nós, é o 1º Doutor?

A intenção da produção era SIM indicar que antes do que conhecemos hoje como 1º Doutor houveram outros 8 Doutores! Em entrevista, o produtor da série na época, Philip Hinchcliffe, disse:

We tried to get famous actors for the faces of the Doctor. But because no one would volunteer, we had to use backroom boys. And it is true to say that I attempted to imply that William Hartnell was not the first Doctor.

Doctor Who - In-Vision 012 - The Brain of Morbius-doctorwho

Está escrito “Young Morbius” ou “Young Doutors”? Hein? Hã? (e sim, a foto está incompleta. Está faltando um rosto).

Todavia, com a longevidade da série e a dificuldade de manter essas aparições no cânone, elas foram simplesmente ignoradas e em muitas ocasiões posteriores, colocou-se claramente que Hartnell era a “mais antiga encarnação do Doutor“. Alguma confusão, mentira ou fala atrapalhada de Doutores posteriores podem abrir o caminho para uma possível inclusão desses oito rostos misteriosos em uma linha do tempo “X”, mas aparentemente eles estão fora de cogitação para encaixe na cronologia oficial, porque são entendidos como doutores ANTES daquele interpretado por Hartnell e não depois, o que torna tudo mais difícil de se esquematizar.

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NOTA: não vejo como a Nova Série poderia retomar esse conceito sem dar grandes problemas de contagem. Penso que este mistério, assim como o nome do Doutor, deve se manter para sempre como um dos grandes mistérios da série. Mas diferente do nome, a gente tem algumas explicações soltas com as quais podemos harmonizar, de algum jeito, esses rostos. A questão é não querer dar o nome de DOUTOR a eles, porque… vejam bem, o DOUTOR que a gente conhece só passou a adotar esse título após a sua fuga de Gallifrey com Susan, e isso é explicado no livro Sob Forte Tensão (2003). Então, mesmo que esses rostos sejam a mesma pessoa que o Time Lord que conhecemos a partir de William Hartnell, eles não eram o Doutor, esse título só veio depois.

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Mas e aí? Tem alguma forma de encaixar isso? Em alguma medida, considerando o Universo Expandido, é possível ligar essas rostos ao Doutor?

Algo interessante sobre essas encarnações aparece no livro Fusão a Frio (1996), onde uma mulher (Patience) afirma ter se casado com “um os primeiros exploradores do Vórtex Temporal, uma lenda reverenciada pelos Time Lords, que eventualmente esqueceram seu nome…“. É claro que há indicações de que a mulher esteja se referindo a Omega, ao pai do Doutor ou a um misterioso TL chamado The Other, que pode ser uma lendária figura na sociedade de Gallifrey OU uma “primeira versão” do nosso Doutor. Isso não é claro nem no Universo Expandido (que majoritariamente — veja que não usei a palavra “exclusivamente”! — sugere que The Other é OUTRA pessoa que não o Doutor) e espero que permaneça para sempre assim.

Existem inúmeras teorias sobre o que são e como são possíveis essas oito faces. Acreditem no que acreditar a ÚNICA CERTEZA que temos é que não são faces de Morbius.

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Particularmente, sou adepto da teoria de que estes rostos se harmonizam com os eventos de Fusão a Frio e Lungbarrow. Ou seja, eles são sim o homem que conheceríamos como Doutor no futuro. Nesta teoria, por uma série de eventos catastróficos envolvendo a profecia da última Pítia a governar Gallifrey, o Doutor se lança sobre os Teares, de alguma forma se regenerando, mas fazendo algum truque para enganar seus primos de Casa (lembrem-se: ele é o único ali que tem umbigo, então ele não foi tecido, ele nasceu mesmo!). Dessa forma, ele ganhou um ciclo inteirinho de regeneração e já está no corpo de Bill Hartnell.

The Brain of Morbius (Arco #84) – 13ª Temporada

Roteiro: Terrance Dicks, Robert Holmes
Direção: Christopher Barry
Elenco principal: Tom Baker, Elisabeth Sladen, Gilly Brown, Cynthia Grenville, Philip Madoc

Audiência média: 9,78 milhões
4 Episódios (exibidos entre 03 e 24 de janeiro de 1976).

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.