Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Dalek Invasion of Earth (Arco #10)

Jack: Mas que besteira de refração! Os Daleks jamais deixariam coisas aqui para ajudar vocês escaparem!

Doutor: Meu caro, se os Daleks tivessem que lidar com um homem com sua inteligência, eles não precisariam temer coisa alguma, não é mesmo? Agora, sete-se e descanse, por favor.

estrelas 4

Equipe: 1º Doutor, Susan, Ian e Barbara
Espaço-tempo: Londres, 2167

Há motivos de sobra para qualquer whovian que se preze assistir a esse icônico arco da segunda temporada clássica de Doctor Who. Primeiro, pela volta de Terry “Terror” Nation à série, depois de Keys of Marinus. Em segundo lugar, porque esse arco mostra os Daleks muito antes dos acontecimentos que marcaram a sua estreia na série, no ano anterior, e melhor ainda, mostrava uma realidade caótica no planeta Terra, então dominado pelos ciborgues. E para completar a lista de eventos notáveis do arco, temos a despedida de Susan, que conta com um curto, porém emocionante discurso de despedida do Doutor. Por mais que os gritos de Susan irritassem no decorrer dos episódios, é impossível não sentir uma pontada de pesar pela sua partida, especialmente porque Nation escreveu um texto bastante delicado e afetuoso para essa separação.

A partida de Susan foi um acerto da atriz Carole Ann Ford com a BBC. Os motivos estão em algumas divergências entre as partes no que se referia ao aproveitamento e rumos que a personagem estava tomando. Quando a decisão se mostrou irrevogável, a produtora Verity Lambert e outros organizadores da série se mostraram muito preocupados, porque a saída do apelo “infantil” da série poderia afastar o público mais jovem. Embora alguns esforços tenham sido feitos para substituir Susan imediatamente, eles tiveram que ser um pouco adiados.

O que depõe contra The Dalek Invasion of Earth não é o roteiro. Terry Nation realiza aqui o seu melhor trabalho na série, até então, superando de maneira colossal a primeira história com os vilões que criou, e principalmente, o seu roteiro para a aventura em Marinus, um arco que encanta um grande número de espectadores mas sobre o qual eu guardo uma leve antipatia. Aqui, Nation cria um cenário desolador para Terra e só pelas intenções e criação dos Daleks (os Roboman), é possível depreender o fim do planeta, condenado a exploração e escravização de seus últimos habitantes.

A segunda temporada da série clássica mostra a segunda história consecutiva em que elementos críticos ao modo de vida humano podem ser observados. Se em Planet of Giants tivemos o viés ecológico, em Dalek Invasion of Earth temos uma literal, porém breve, discussão sobre resistência e uma interessante cadeia de acontecimentos em torno da luta pela sobrevivência. É até possível relacionarmos certas atitudes a outros momentos da História, como a velhinha que entrega Barbara e Jenny para os Daleks, ficando com a comida que carregavam e seguindo uma a deplorável linha de pensamento: “eu só adiantei o inevitável”.

Por falar em História, há um perspicaz momento em que Barbara tenta enganar os Daleks, narrando os planos de uma certa revolução. Como boa historiadora, ela manipula elementos importantes da ação humana no tempo, como a revolta dos índios disfarçados na Festa do Chá em Boston, a Quinta Cavaleria do General Lee e as forças de Aníbal vindas dos Alpes do Sul. A ideia é genial, e coube perfeitamente na sequência, trazendo um alívio cômico dosado, sem quebrar a tensão em que se encontravam no momento.

É certo que há uma série de pontos no arco que não fazem muito sentido, a maior parte deles vindos de tentativas de criar efeitos especiais, como a descida de Ian pelo canal da bomba dos Daleks, e ainda as toras de madeira que ele arrasta, ao final do episódio. Mas em compensação, temos aqui uma das melhores histórias da série até o momento, e uma importante despedida, coisas que jamais podem ser ignoradas. A elas, é possível acrescentar a ótima direção de Richard Martin, que deu às tomadas externas um significado verdadeiramente revolucionário, fazendo até lembrar as cenas de vitória popular nos longas de Sergei Eisenstein.

No campo estético, vale dizer que a direção de arte teve um enorme cuidado ao recriar cada set, preocupação seguia pelo diretor em sua visão desses locais. O que eu particularmente não gosto do arco é o Slyther, bichinho de estimação dos Daleks, usado como guardião noturno das minas de Bedfordshire. Não morro de amores pelos Roboman, mas o papel dessas estranhas pessoas criadas pelos Daleks (aqui, é inegável a semelhança com o princípio de aprimoramento dos Cyberman) tem relevância e função dramática e narrativa na história, enquanto o Slyther é apenas um elemento de isopor.

É claro que não foi a última vez que os Daleks tentaram dominar a Terra, mas por ser a primeira, na ordem cronológica de exibição, merece todos os louros e atenção possíveis.

A partida de Susan foi um acontecimento e tanto, apesar de todas as ressalvas que se possa ter ante sua personagem. Mesmo o roteiro tendo plantado diversas situações que indicassem a paixão da garota por David, a surpresa da separação do Doutor e o modo como acontece a despedida chega a ser poética e emocionante. Foi o primeiro “final Moffat” de Doctor Who.

The Dalek Invasion of Earth possui uma importância gigantesca para série. Eventos que se repetiriam com o passar dos anos aparecem aqui pela primeira vez ou ganham o seu devido destaque. A despeito dos já citados tropeços técnicos, os acertos conseguem superar as falhas e dar ao espectador uma história tensa, crítica e emocionante. Pedir mais é querer agir como um Dalek.

One day, I shall come back. Yes, I shall come back. Until then, there must be no regrets, no tears, no anxieties. Just go forward in all your beliefs and prove to me that I am not mistaken in mine. Goodbye, Susan. Goodbye, my dear.

1º Doutor

The Dalek Invasion of Earth (Arco #10) – 2ª Temporada

Roteiro: Terry Nation
Direção: Richard Martin
Elenco principal: William Hartnell, Carole Ann Ford, Jacqueline Hill, William Russell, Ann Davies, Peter Fraser, Alan Judd, Bernard Kay

Audiência média: 11,90 milhões

6 Episódios (exibidos entre 21 de novembro e 26 de dezembro de 1964):
1. – World’s End
2. – The Daleks
3. – Day of Reckoning
4. – The End of Tomorrow
5. – The Waking Ally
6. – Flashpoint

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.