Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Daleks’ Master Plan (Arco #21)

estrelas 4

Equipe: 1º Doutor, Steven, Katarina e Sara Kingdom
Espaço-tempo: Planeta Kembel, 4000 / Planeta Desperus, 4000 / Planeta Terra, Central City, 4000 – Liverpool, 25 de Dezembro de 1965 – Liverpool, 31 de Dezembro de 1965 e 1º de Janeiro de 1966 – Hollywood, 1921 – Egito 2566 a.C. / Planeta Mira, 4000 / Planeta Tigus, 4000 / planeta de gelo (nome não mencionado), 4000

A ação desse enorme arco de 12 episódios se passa essencialmente no ano 4000, mais ou menos seis meses depois dos eventos que presenciamos em Mission to the Unknown. Terry Nation então nos preparara para uma história poderosa tendo os grandes vilões do Doutor como inimigos a serem vencidos. Por toda a ansiedade e ótima construção dos fatos, Mission… elevou demasiadamente as expectativas do público, talvez até demais. O fato é que o espectador espera um verdadeiro “master plan”, mas todo o arco não passa de uma mega tentativa, que ao final, fracassa vergonhosamente.

Os Daleks aqui estão mais desenvolvidos, mas como não são eles os arquitetos totais do plano, a coisa corre a desandar. Como já havia ficado claro em Mission to the Unknown, um grupo de Conselheiros Galácticos estava envolvido no plano. O papel de cada um não ia além de apoio político e algumas facilidades, talvez com armas, mas não vemos nada disso citado no presente arco. Eis que surge então um representante da Terra, um traidor do planeta, uma vez que ele é o Guardião do Sistema Solar, para ajudar os Daleks. Mavic Chen provê seus aliados com um raro mineral chamado taranium, com o qual é possível ativar o Time Destructor, uma poderosa arma.

No início do arco sabemos que Mavic Chen está saindo de férias, e antes, faz um discurso de paz na televisão. Horas depois ele se encontra no planeta Kembel, reunindo-se com os Daleks e outros Conselheiros para conquistarem o Universo. Interessante observar que em seu discurso televisivo, o Guardião citara o pacto de não-agressão de 3975 e um difícil mas finalizado Acordo de Minerais com a Galáxia 4, concluindo que agora tudo estava bem e que ele garantia ao mundo a permanente paz.

Mavic Chen encarna um dos mais notáveis vilões humanos da série até o momento, superando os inimigos enfrentados em Marco Polo e Os Astecas. Até sua postura frente aos Daleks é de desafio. Apesar de ter medo dos Daleks, Mavic Chen nunca demonstra isso e não hesita em dar ordens e tentar se promover rapidamente, com a frase que fica na cabeça do espectador logo após o segundo episódio: “Eu, Mavic Chen…”.

A parte inicial do arco, digamos, os cinco primeiros episódios são simplesmente maravilhosos. As incertezas, os muitos planetas visitados e a cadeia de eventos trágicos nessa reta inicial é de fazer o público não tirar o olho da tela.

Pela primeira vez em Doctor Who uma companion morre. Katarina, a serva de Cassandra que achava que estava a caminho do “Céu” e que o Doutor era Zeus, sacrifica-se para que o Time Lord, Steven e o Agente Bret Vyon conseguissem escapar de um planeta-prisão chamado Desperus. A morte de Katarina é tocante, não só por ser um choque para quem assiste – quem diria, nesse início, que um passageiro da TARDIS morreria? –, mas também porque ela era muito simpática e o fato de ser troiana fazia seu discurso anacrônico ser divertido e ao mesmo tempo muito curioso.

Mas a morte não termina com Katarina. O Agente Bret Vyon, assistente do Doutor, também morre, e Sara Kingdom, sua irmã e assassina, se torna “companion” e também morre (da maneira mais angustiante possível). Sinceramente não gostei muito a mudança ideológica repentina de Sara (personagem por quem nutro uma das maiores antipatias, visto o que ela fez com o irmão — e não, não considero “questões ideológicas” como validadores de um assassinato de um familiar. Esse negócio de obedecer ordens às cegas, sem questionar, é o núcleo da “banalidade do mal”, segundo Hannah Arendt, e é bem doloroso ver isso acontecer em Doctor Who. Nota: não estou culpando os roteiristas nem nada, veja bem. Como DRAMA, eu gosto desse evento. É um baita tapa moral na série, isso é bom. Estou apenas analisando criticamente a situação, por isso mesmo não gosto do rumo da personagem após esse assassinato.), que mata o irmão para obedecer ordens de seu líder na Terra (Mavic Chen), mas logo após um tempo no planeta das criaturas invisíveis ela muda de ideia. Tanto o Doutor quanto Steven não tocaram mais no assunto e mesmo que ela tenha se redimido, arriscando a vida para salvar a Terra e morrendo em decorrência disso, sua presença na TARDIS foi bastante estranha, um tanto deslocada, injustificada até.

O Monge também aparece nesse arco e torna a missão do Doutor ainda mais difícil. Tendo ficado com sua TARDIS danificada em plena Nortúmbria de 1066, o Monge volta agora em busca de vingança. É claro que ele não é o tipo de vilão malvado como Mavic Chen, o que faz com que nos afeiçoemos de algum modo a ele. Eu tinha citado a ótima interação entre o Doutor e o Monge da primeira vez que eles se encontrarem, em The Time Meddler, interação que se repete aqui. Aliás, o William Hartnell dá um show de atuação, com excelentes momentos de explosão de raiva, imposição de autoridade e discursos com todo mundo. Sua relação explosiva com Steven é um outro ponto alto desse momento da série e tem pontos críticos, engraçados e muito importantes nesse arco.

É uma pena que a maior parte dessa história seja um reconstituição. Os únicos três episódios que sobreviveram demonstram uma ótima caracterização dos cenários e um trabalho maravilhoso de figurinos e direção. Particularmente gostaria muito de ver refeito o episódio em que o Doutor vai para Hollywood nos anos 1920. Ele encontra Charles Chaplin, Mary Pickford e Bing Crosby em pontos diferentes de um grande set de filmagens.

Por último, vale citar que no mesmo episódio em que o Doutor, Steven e Sara vão a Hollywood, eles também passam por Liverpool em pleno dia de Natal. No final do episódio, o Doutor aparece com uma garrafa de champanhe para comemorar com seus companions e brinda também com os espectadores, dirigindo-se diretamente para a câmera. Mesmo que esse capítulo do arco não tenha absolutamente nenhuma relação com a história central, ele foi ao ar no dia 25 de dezembro de 1965. É perfeitamente compreensível que não fosse nada ameaçador, com Daleks matando gente, gritos de terror, ameaças e tudo mais.

The Daleks’ Master Plan é uma grande história, tanto em tamanho quanto em qualidade, mas ainda não chega ao topo das melhores e notáveis da temporada ou mesma da série até o momento, porque a quantidade de ventos, os desvios do tema principal e o grande engodo vindo do título tornam a história desencontrada. Mas não há dúvidas de que essa grande vontade de dominar o Universo com um grupo de Conselheiros e a grande falha no plano dos Daleks ficaria para a história.

The Dalek’s Master Plan (Arco #21) – 3ª Temporada

Roteiro: Terry Nation, Dennis Spooner
Direção: Douglas Camfield
Elenco principal: William Hartnell, Adrienne Hill, Jean Marsh, Peter Purves, Peter Butterworth, Brian Cant, Nicholas Courtney, Kevin Stoney

Audiência média: 9,36 milhões

12 Episódios (exibidos entre 13 de novembro de 1965 e 29 de janeiro de 1966):

1. – The Nightmare Begins
2. – Day of Armageddon
3. – Devil’s Planet
4. – The Traitors
5. – Counter Plot
6. – Coronas of the Sun
7. – The Feast of Steven
8. – Volcano
9. – Golden Death
10. – Escape Switch
11. – The Abandoned Planet
12. – Destruction of Time

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.