Entenda Melhor | Doctor Who: The Night of the Doctor

estrelas 5

The Night of the Doctor é um minisode-prequel do Especial de 50 anos de Doctor Who, The Day of the Doctor. Ele traz algumas respostas para os fãs da série que haviam ficado à deriva após o finale da 7ª Temporada (The Name of the Doctor). Naquela ocasião, tivemos a apresentação de John Hurt como um (não-) Doutor e as especulações sobre a personagem foram inúmeras, quase todas indo em direção ao que Steven Moffat estava preparando para o Especial de 50 anos e que foi mostrado parcialmente neste prólogo.

O objetivo do presente texto é responder algumas perguntas e contextualizar os acontecimentos do minisode, comentando também alguns detalhes da produção. Se você ainda não assistiu, por favor, faça isso agora, dando play no vídeo abaixo. Lembramos que o texto a seguir está repleto de River Songs spoilers.

Allons-y!

Entendendo a sequência temporal e as referências do episódio

Com a aproximação do final da vida do 11º Doutor, as aventuras e o mundo em torno dele – como aconteceu com as 10 encarnações anteriores – foram se tornando cada vez mais sombrios, uma característica também percebida na personalidade do Doutor, que desde a partida dos Ponds em The Angels Take Manhattan foi compassadamente mudando para uma postura mais fatalista e sombria.

Só que desta vez é diferente. Steven Moffat, atual showrunner da série, disse diversas vezes que com o Especial de 50 anos esperava redefinir Doctor Who, e com certeza ele foi plantando coisas na reta final da 7ª Temporada, culminando com a aparição de um misterioso Doutor na cena final de The Name of the Doctor:

Quado vimos esse episódio, a primeira pergunta que veio à mente (depois do nosso cérebro voltar a funcionar, após a explosão da surpresa) foi: quem é esse “Doutor”? Bem, agora temos essa resposta. Ele não é uma memória, um Time Lord qualquer que adotou o nome de “Doutor”, nada disso. Ele é o NOSSO Doutor, o mesmo que vimos pela primeira vez no galpão da Totter’s Lane em 1963. Só que ele é um renegado, e isso ficou bem claro em The Name of the Doctor. Ele é o Doutor que lutou na Guerra. O Doutor que cometeu genocídio. O Doutor que por todas as coisas terríveis que fez, não merece ser chamado de “Doutor”. Ele é o War Doctor ou Doctor no More ou Doctor 8.5, se você quiser.

Mas antes desse War Doctor existir, existiu o contexto que lhe deu origem. E é disso que falaremos rapidamente adiante, começando com duas coisas importantes que é preciso ter em mente:

  • 1 – A tão falada Time War foi criada por Russell T Davies com o retorno da série em 2005, portanto, em toda a história de Doctor Who, só foi citada pela primeira vez pelo 9º Doutor.
  • 2 – Sabemos que o 9º Doutor quando aparece no episódio Rose (1ª Temporada) tinha se regenerado a pouco tempo, tanto que numa cena ele se olha no espelho e faz um comentário jocoso e surpreso sobre suas orelhas (“poderia ser pior“), o que nos faz entender que ele ainda nem tinha se visto (mas já tinha mudado de roupa, porque aquele não era o figurino de sua encarnação anterior).

Ditas essas duas coisas, continuemos.

O 9º Doutor não viveu a Time War. Ela foi vivida pelo 8º Doutor e pelo Doutor interpretado por John Hurt. Durante a Guerra, o 8º Doutor vivia como uma espécie de “salva-vidas espacial”, olhando por naves à deriva, tentando desviar-se o máximo possível do campo de batalha. É sabido que ele travou algumas lutas, mas não porque se colocou na linha de frente e sim porque estava no local errado e hora errada.

A Guerra, como sabemos, aconteceu “através do tempo” e teve uma gigantesca duração (para colocar em termos terráqueos). No momento em que vemos The Night of the Doctor, ela já vai avançada e as atrocidades cometidas pelos Time Lords são tantas, que Cass, uma piloto que está prestes a cair no Planeta Karn, recusa-se a ser salva pelo Doutor, só porque ele é um Time Lord. Nesse momento da História, os Time Lords são tão odiados quanto os Daleks.

A nave com Cass e o 8º Doutor caem. Ele morre sem conseguir se regenerar mas é ressuscitado por 4 minutos pela Irmandade de Karn (falaremos delas mais adiante). A conversa que se segue acabará com uma das coisas mais cruéis que já vimos: o 8º Doutor, que até então não tinha tomado partido na Guerra e fugido dela, decide que vai, enfim, lutar, só que “ele não quer ser ele” nessa empreitada, então toma o cálice de um Elixir oferecido pela irmã Ohila e antes de vencer os seus 4 minutos, bebe e se regenera no War Doctor vivido por John Hurt, só que ainda bem novo (o que mais uma vez nos leva à opinião de que a Time War teve uma gigantesca duração, uma vez que conhecemos essa versão do Doutor já velha).

A Irmandade de Karn e a passagem do 8º Doutor para o War Doctor

Essa irmandade apareceu pela primeira vez em Doctor Who no ano de 1976, ainda na era do 4º Doutor. O arco em questão chama-se The Brain of Morbius:

O Doutor encontraria a Irmandade mais algumas outras vezes, só que como tudo em DW, explicar de maneira rápida pode dar nó no cérebro. Irei organizar a seguir os eventos protagonizados pelo Doutor e pela Irmandade de Karn em uma linha do tempo. Assim fica mais fácil entendermos a bagunça das viagens temporais e a complexa relação entre o Time Lord e essas little daleks irmãs:

  • 3100 – O 5º Doutor e Peri viajam para o passado e derrotam Morbius com a ajuda da Irmandade de Karn e uma aliança incomum formada por vilões correntes do Doutor – todos tremendo na base, com medo de Morbius (LIVRO: Warmonger, 2002).
  • 3120 – O 4º Doutor e Sarah Jane chegam a Karn. O Doutor não é bem recebido pelas irmãs, chegando a ser condenando à morte. Depois de idas e vindas, ele consegue convencer a Superiora e com a ajuda da Irmandade derrotam Morbius mais uma vez (TV: The Brain of Morbius, 1976).
  • 3520 – O 8º Doutor e Lucie Miller reencontram a Irmandade em um lugar indeterminado no Universo, já que o planeta Karn foi comprado pelo homem mais rico da Galáxia, que é suspeito de ser membro do Culto de Morbius e estar procurando pelos restos de seu mestre. Nessa ocasião, as irmãs condenam o Doutor à morte mais uma vez, colocando-o inclusive na Câmara de Desintegração, o mesmo lugar onde Morbius fora colocado, 420 anos antes (ÁUDIO: Sisters of the Flame, 2008).
  • 3530 – O 8º Doutor e Lucie Miller foram enviados para uma década após os eventos de Sisters of the Flame, e, por questões que não valem comentar aqui, se vêm apavorados com um Universo onde Morbius é Imperador Galáctico. Num dos momentos mais terríveis da vida do Doutor, numa luta que pode lhe custar a vida e a do Universo inteiro, ele faz um apelo telepático à Irmandade, mas elas não o respondem, uma, inclusive, dizendo que ele deveria lutar suas próprias batalhas (ÁUDIO: The Vengeance of Morbius, 2008).
  • Através do tempo – A Time War está em andamento. O 8º Doutor cai no planeta Karn e morre sem conseguir se regenerar. A Irmandade o revive por 4 minutos e lhe oferece uma regeneração para lutar na Guerra. Pela primeira, ao menos onde a gente saiba, o Doutor é forçado a se regenerar.

Essas irmãs são guardiãs da chama sagrada que gera o Elixir da Vida, uma bebida que pode garantir a imortalidade ou corrigir problemas vitais, tais como as complicações de regeneração que alguns Time Lords tiveram ao longo dos anos, ou mesmo, em casos extremos, ressurreição temporária de um Time Lord que não conseguiu se regenerar, como é o caso do 8º Doutor neste The Night of the Doctor.

Ohila, a irmã que fala com o 8º Doutor, não é a mesma de The Brain of Morbius, mas segundo Moffat, é uma referência àquela, que na verdade se chamava Ohica. Ela oferece para o Doutor a oportunidade de se regenerar como ele quiser, até como mulher (!), já que ele não queria ser o “Homem Bom” ou o “Doutor” enquanto estivesse lutando na Time War. Ela sabia que ele iria relutar, mas ao fim, aceitaria o pedido e entraria na Guerra, por isso quando ele pede para se regenerar como Guerreiro, o cálice para essa configuração já está pronto.

Perceba que a regeneração do 8º Doutor para o War Doctor foi forçada. Ele só tinha 4 minutos de vida e tinha que escolher entre morrer ou participar da Time War. Diante da morte de Cass e ao se sentir desprezado e comparado a um Dalek ou qualquer coisa mais violenta do Universo é natural que tenha escolhido esse caminho, mas como sua 11ª encarnação diria, “não em nome do Doutor“.

Antes de beber o cálice preparado pela Irmandade de Karn, o 8º Doutor oferece em lembrança aos seus companions Charley, C’rizz, Lucie, Tamsin e Molly, todos eles dos audiolivros da Big Finish Productions, que devido a essa incursão do roteiro, foram oficialmente canonizados por Moffat.

As últimas palavras pronunciadas pelo 8º Doutor, “Physician, heal thyself“, são um provérbio bíblico citado por S. Lucas, no capítulo 4 e versículo 23 de seu Evangelho. Então ele bebe o líquido do cálice, entra em processo de regeneração e como dito antes, surge o War Doctor, que vemos em uma imagem refletida de um jovem John Hurt. Não há duvidas quanto ao sentido metafórico do título deste minisode. Esta foi, definitivamente, a noite do Doutor.

Doctor Who – The Night of the Doctor (UK, 2013)
Showrunner: Steven Moffat
Roteiro: Steven Moffat
Direção: John Hayes
Elenco: Paul McGann, Emma Campbell-Jones, Clare Higgins, John Hurt
Duração: 7 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.