Entenda Melhor | Aspectos pontuais da montagem : As Horas

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Entrelaçando histórias: a montagem no filme As Horas
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As Horas, dirigido por Stephen Daldry e roteirizado por David Hare, baseado no romance homônimo de Michael Cunningham, que também assina o roteiro, é um drama de 114 minutos de duração, produzido entre Londres e os Estados Unidos, lançado nos cinemas entre 2001 e 2002, sendo indicado aos mais variados prêmios da indústria cinematográfica, entre eles, o Oscar, o Globo de Ouro, o BAFTA, o Festival de Berlim, entre outros.

O filme narra um dia na vida de três personagens femininas, em tempos distintos, mas com histórias entrelaçadas: Virginia Wolf (Nicole Kidman), em Richmond, Inglaterra, 1923. No auge da sua depressão, a escritora escreve o conto Mrs. Dalloway, rodeada de ideias sobre suicídio, deixando o seu marido, Leonard Wolf (Stephen Dillane) bastante apreensivo. Eles haviam mudado de Londres há pouco tempo, interessados em uma vida menos polifônica e mais tranquila.

Em 1949 vive Laura Brown (Julianne Moore), uma dona de casa de Los Angeles, grávida, que tenta fazer um bolo para agradar ao seu marido, ao passo que não consegue parar de ler o conto Mrs Dalloway, ao lado do filho, o observador Richie (Jack Rovello), que mais tarde, saberemos que se trata do escritor Richard (Ed Harris), personagem pertencente ao núcleo de Clarissa Vaughn (Meryl Streep).

Clarissa é uma editora de livros à beira de um ataque de nervos. Sendo a Mrs. Dalloway da narrativa, ela vive em Nova York com a namorada Sally (Alisson Janney), e pretende dar uma festa para o escritor Richard, que acabara de receber um prêmio pela última obra literária lançada, um homem devastado vivendo os seus últimos dias, sofrendo com as complicações de saúde oriundas da Aids, que o dizima a cada instante.

As Horas é uma produção bem sucedida nos aspectos da montagem, pois entrelaça esquetes de tempos distintos, sintonizadas devido a eficiente manipulação das imagens, articuladas pelos demais tipos e funções da montagem, principalmente, pelo uso de raccords. A montagem do filme foi assinada por Peter Boyle, editor responsável por produções como Uma Carta de Amor e O Fio da Navalha. Conforme Aumont (1995), os raccords dão ênfase a qualquer mudança de plano que se esforça em preservar, de ambos os lados da colagem, elementos de continuidade. Para Amiel (2007), o raccord faz com que o corte não seja sentido como uma ruptura definitiva e radical, mas como um tipo de costura, permitindo juntar pedaços diferenciados com maior discrição. O autor ainda reforça a ilustração alegando que esta é uma maneira de camuflar o corte, apagando a sua impressão e conservando a articulação entre os planos.

Por se tratar de um artigo que não pretende esgotar as possibilidades analíticas de uma produção como As Horas, um filme de 114 minutos, repleto de momentos preciosos para a articulação entre teoria e prática da montagem cinematográfica, serão privilegiadas algumas passagens dos dez primeiros minutos de projeção, momentos em que a narrativa trata de apresentar os principais personagens e articula-los uns aos outros.

As Horas abre com um plano geral em Sussex, Inglaterra. Situado o espaço fílmico pertencente à Virginia Wolf, um primeiro plano enquadra a escritora, ansiosa para sair de casa e seguir o seu plano: suicidar-se. Apavorada com a depressão que a persegue, Virginia desiste de continuar vivendo e deixa uma carta para seu marido. A música minimalista cresce na cena, surgindo os créditos de abertura: o título do filme As Horas surge na tela, seguido de outro plano geral, agora em Los Angeles, situando o espaço fílmico da personagem Laura Brown. A câmera passeia pelo exterior da casa, e no próximo plano, temos a dedicada esposa lendo o conto Mrs. Dalloway, levantando em seguida para iniciar mais um dia de atividades domésticas.  Logo adiante, através de um raccord vertical, surge o espaço fílmico de Clarissa Vaughn, em Nova York, em pleno metrô.

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Entre 1923, 1949 e 2001, a montagem articula as personagens através de momentos expressivos na narrativa: as três protagonistas estão começando o seu dia. Enquanto Virginia levanta e arruma os cabelos, Clarissa faz o mesmo em 2001. Ambas se olham no espelho, sendo que enquanto uma se põe de frente para lavar o rosto, a outra acabara de sair, cada uma em seu tempo (figuras 1a, 1b e 1c). Clarissa pergunta sobre flores em 2001, enquanto o marido de Laura Brown as troca do vaso em 1949, assim como as empregadas domésticas de 1923 fazem na casa da escritora Virginia Wolf (figuras 2a, 2b e 2c).

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O auge do raccord é alcançado aos doze minutos de filme (figuras 3a, 3b e 3c) Enquanto Virginia escreve, Laura lê e Clarissa age. Este trecho é a base para compreensão de toda a narrativa. Laura Brown é a dona de casa que acompanha a trajetória de Mrs Dalloway, “representada na vida real” por Clarissa, mulher que possui traços característicos da personagem do conto de Virginia Wolf.

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Os frequentes raccords são ajudados pela direção de arte concebida pelo filme. Cores opacas, simbolizando o estado de espírito de cada personagem, estampadas nos figurinos, cenários e demais aspectos imagéticos do filme, colaboram com a projeção da depressão presente na vida de Virginia Wolf, que ecoa para os anos 1949 e 2001, respectivamente.

As figuras de retórica, que também ganham espaço nas reflexões de Amiel (2007), são utilizadas para reforçar que a montagem é suscetível de desencadear articulações intelectuais, promovidas pelos cineastas que utilizam elementos visuais e sonoros que, ao serem combinados, ganham grande expressividade na narrativa. Um caso clássico citado pelo autor é o trecho em que Chaplin, no cultuado filme Tempos Modernos, mostra um rebanho de ovelhas avançando e depois corta para um bando de operários em caminhada. Fazendo uso da metáfora, o realizador compara os operários aos animais, denunciando a situação dos trabalhadores ao criticar o fordismo.

Em As Horas, uma das metáforas mais relevantes está no jantar que Clarissa havia encomendado para a festa em homenagem ao escritor Richard. Utilizando mecanismos que seriam mais bem explicitados por uma análise de cunho psicanalista, o prato da noite seria siri. Se observarmos que o siri, assim como o caranguejo, é um crustáceo que caminha de maneira oblíqua em relação aos outros animais, sempre para o lado e para trás, perceberá que o animal metaforicamente se refere à Clarissa. A personagem vive a vida de Richard. Não se sente feliz com o relacionamento com Sally, como afirma a Louis Watters (Jeff Daniels), ex-namorado de Richard, que a havia visitado antes da noite de festa. Clarissa vive do passado, dos momentos de amor com o escritor debilitado pela Aids. Antes de cometer suicídio, Richard, num lampejo de falas desconexas e febris, informa para a amiga que ela precisará viver a vida dela depois da sua morte.

Outra figura de retórica bastante relevante durante o filme é a sinédoque. Esta figura de estilo, que consiste em mostrar ou dizer apenas uma parte do que quer exprimir, é constante no espaço fílmico situado pela escritora Virginia Wolf. Um plano da sua mão nervosa, batendo no tinteiro e indo em direção ao papel é uma maneira encontrada pelo filme de poetizar sobre o desenvolvimento do conto Mrs Dalloway e das decisões da escritora diante do destino dos seus personagens. Tanto a metáfora, como a sinédoque e outras figuras de retórica presentes no filme, como a repetição e a gradação são bem articuladas graças aos raccords constantes. O raccord é um elemento que permeia toda a narrativa, tendo na música minimalista, orquestrada por Philip Glass, um dos aspectos que permitem essa colagem coesa e coerente.

Para Amiel (2007), os raccords sonoros consistem em assegurar uma permanência musical ou dialogada enquanto no âmbito da visualidade, os planos se articulam. A música minimalista que faz parte da trilha sonora do filme As Horas e é um gênero oriundo dos Estados Unidos, marcado por harmonia consonante, com lentas transformações e perfil estático. É uma modalidade musical quase hipnótica, que através das suas repetições frequentes de pequenos trechos, participa do movimento visual discretamente, quase onipresente, permeando os espaços do filme com bastante discrição. Morning Passages é uma destas composições que atravessam o tempo proposto pela narrativa: adentra 1923, passa por 1949 e deságua em 2001, costurando os dramas e as frustrações de três mulheres amarguradas diante da situação em que suas vidas se encontram.

Algumas considerações finais

A montagem é um dos principais momentos da realização cinematográfica. São os instantes dedicados aos possíveis ajustes por parte dos cineastas, corrigindo erros e finalizando o produto oriundo do material bruto: o filme. Todo filme depende desta articulação e colagem dos planos, e, para chegar ao mercado, passa pela mesa de montagem. Mas alguns são mais primorosos no que tange à relação direta com as principais teorias da montagem, como os citados Apocalipse Now, Psicose, Tubarão e o alvo da análise deste artigo, As Horas, drama dirigido por Stephen Daldry, que consegue entrelaçar três histórias, em três tempos distintos, utilizando como ferramenta as possibilidades narrativas do raccord. Através dos planos, com direção de arte atenta aos aspectos enlaçados das histórias, justapostos ao minimalismo da trilha sonora, As Horas é um dos melhores exemplares para reflexão sobre a montagem cinematográfica na contemporaneidade.

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Saiba mais

MURCH, Walter. Num piscar de olhos: a edição de filmes sob a ótica de um mestre. Tradução: Juliana Lins. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

CHUNNIGHAM, Michael. As horas. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

As Horas. Direção: Stephen Daldry. Produção: Miramax. 2002. DVD. (115 minutos). Son. Color. Legendas em português.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.