Entenda Melhor | Aspectos pontuais da montagem cinematográfica (2 de 2)

eisenstein

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A teoria da montagem: dos soviéticos aos contemporâneos
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Como afirmado na primeira parte deste artigo, a montagem é uma das fases mais importantes da produção cinematográfica. Segundo Murch (2004), no geral, as pessoas buscam estabelecer um determinado grau de equilíbrio e harmonia interior no mundo em que habitam. Metaforizando com os mundos possíveis do cinema, a montagem é a parte responsável por estabelecer estes aspectos no filme, equilibrando-o e harmonizando-o, tendo como operações, nas afirmações de Aumont (1995), a seleção, o agrupamento e a junção, processos que têm por finalidade, obter, a partir de elementos a princípio separados, um produto total: o filme.

Entre os primeiros cineastas que teorizaram sobre a montagem, estavam os soviéticos. Sergei Eisenstein é um deles, responsável por algumas das obras seminais sobre o assunto, O sentido do filme e A forma do filme, livros básicos para quem se interessa pelas reflexões teóricas. Eisenstein (2002) demonstra, através de demasiados exemplos, que a montagem é uma prioridade orgânica de todas as artes: música e literatura, principalmente, afirmando que o papel de toda arte é a necessidade de expor, de forma coerente e orgânica, o tema. Retornando às reflexões de Aumont (1995), a montagem tem como principal função narrar. Em Tubarão, a angústia da população da cidade de Amity diante dos frequentes ataques de um tubarão branco, o hediondo assassinato de Marion Crane no chuveiro em Psicose ou as histórias entrelaçadas de três mulheres em As Horas, todas, histórias intensas, narradas a partir da eficácia dos seus montadores.

Conforme Martin (2011), um filme obedece ao conjunto de regras dramáticas forjadas há mais de dois mil anos de tradição narrativa. Tomando o teatro como exemplificação, alega que esta modalidade artística narra uma história com progressão escalonada de núcleos dramáticos rumo a um desfecho, e, desta forma, a narrativa se comporta no âmbito do cinema. Em A linguagem cinematográfica, o autor apresenta de maneira bastante didática, alguns princípios da montagem, dissecando e definindo as características dos tipos que convencionou chamar de montagem narrativa, montagem expressiva e montagem das atrações.

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A montagem narrativa designa o aspecto mais simples da montagem, que consiste em reunir, de maneira lógica ou cronológica a história a ser contada. Na contemporaneidade, estes conceitos podem ser questionáveis, principalmente diante de filmes experimentais ou até mesmo obras que decidem quebrar com a lógica tradicional, como os recentes, Amnésia, de Christopher Nolan e A Casa do Lago, de Alejandro Agresti. Sobre a montagem expressiva, o autor alega que se trata da justaposição de planos com objetivo de produzir um efeito direto e preciso pelo choque das imagens. É neste tópico, inclusive, que desenvolve algumas considerações sobre a montagem alternada e paralela. Em Moulin Rouge, de Baz Luhrmann, temos o impactante exercício de expressividade da montagem: ora focando no poeta Christian, ora focando na primeira noite entre Satine e o Duque, a narrativa, guiada com auxílio da canção El Tango de Roxanne, expressa a dor e os ciúmes do poeta, assim como a sensação de asco da cortesã, que reluta em se entregar ao Duque. Na montagem das atrações, temos o olhar do espectador sendo direcionado. Trazendo como exemplo uma cena de A Greve, de Eisenstein, que alterna o massacre dos operários pelo exército e uma cena de degolamento de um animal no matadouro, podemos considerar esta modalidade como o equivalente à metáfora, mostrando algo através de uma comparação, geralmente de forma poética, através da manipulação recorrente nas imagens.

Para Aumont (1995), a montagem possui as funções sintáticas, semânticas e rítmicas. Nos princípios sintáticos, a montagem garante relações formais detectáveis. Podemos pensa-la, metaforizando com o nosso uso da língua portuguesa, por exemplo, como a junção básica do sujeito, verbo e objeto para a formação de uma sentença gramatical e compreensível. Na função semântica, para o teórico, a mais universal e importante, temos a produção de denotação ou conotação de sentidos, e na função rítmica, que na opinião de Eisenstein (2002), foi herança da relação com a música, Aumont a coloca como a sobreposição e a combinação dos ritmos plásticos (cores, iluminação e enquadramentos) e temporais (trilha sonora e até mesmo ritmos visuais).

Baseado nas afirmações de Amiel (2007), a montagem cinematográfica não é apenas uma operação técnica indispensável, mas também um princípio criativo, uma modalidade de pensamento, um caminho para conceber os filmes associando imagens. Das suas considerações sobre a montagem, visivelmente oriundas dos estudos sobre Eisenstein e Martin, vamos nos ater aos raccords, fundamentais para o entrelaçamento das três protagonistas do filme As Horas, alvo da nossa análise, pormenorizada, no próximo tópico do especial.
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Saiba mais

AMIEL, Vicente. Estética da montagem. Lisboa: Editora Texto e Grafia, 2007.

AUMONT, Jacques. A montagem. In: A estética do filme. Campinas: Papirus, 2005.

BROWN, Blain. Continuidade cinematográfica. In: Cinematografia: teoria e prática: tradução de imagens para cineastas e diretores. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.

CHUNNIGHAM, Michael. As horas. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

EINSENSTEIN, Sergei. O sentido do filme. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.

__________________. Métodos de montagem. In: A forma do filme. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.

MARTIN, Marcel. A linguagem cinematográfica. 2ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2011.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.