Entenda Melhor | Batman – Aniversário de 75 Anos: Parte Três (Anos 1980)

Dando continuidade aos nossos artigos sobre o Homem Morcego, chegamos à 3ª parte da cronologia, onde abordarei os eventos dos anos 1980. Se você quer saber mais sobre a origem do Morcegão, leia a primeira parte desta série de textos. Se quer saber como foi a década de 60 em diante, confira a segunda parte.

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Tentativas de Mudança

A primeira metade dos anos 1980 não foi interessante para a DC Comics, muito menos para um de seus mais icônicos personagens, o Batman. A despeito de nomes como Len Wein e Gerry Conway na lista de roteiristas para as histórias do Morcego, não havia o fator “pulo do gato” nas histórias, algo que a DC estava determinada a [tentar] mudar. Essa tentativa deu o seu primeiro passo em dezembro 1983, na Batman #366, onde Jason Todd, que tinha aparecido 9 edições antes, torna-se o Robin II.

Todd-chato e Todd-Robin. Silêncio constrangedor de Batman. Momento “o que você está fazendo com a roupa do Grayson, seu moleque?“.

Mas a criação de Gerry Conway e Don Newton não deu muito certo, pelo menos no objetivo de alavancar o massivo interesse do público de volta para o Batman. Jason Todd era uma cópia imperfeita de Dick Grayson (que em 1984 abandonaria a identidade de Robin e vestiria o manto de Asa Noturna) e os roteiros para ele tinham um tom pouco amigável e que neste início mostrava a dúvida do Batman em ter Todd como assistente mascarado.

No início do meso ano, a mesma dupla que criou o Robin II já tinha apresentado um novo vilão, o Crocodilo, na Detective Comics #523, com resultado igualmente neutro ou indiferente por parte do público.

Num outro patamar da DC, Mike W. Barr e Jim Amparo tentavam emplacar uma outra trilha dramática para o Batman, então criam Os Renegados na revista Brave and the Bold #200, de julho de 1983. Dessa fase de vacas (ou morcegos, como diria Ritter Fan) magras, esta foi a mais interessante e bem recebida realização. Em agosto deste mesmo ano, surgia uma nova revista, Batman and the Outsiders, que traria os Renegados com merecido destaque. O Morcegão esteve à frente do grupo até a edição #32, lançada em abril de 1986. Dali até o encerramento do volume, na edição #46 (junho de 1987), a revista se chamaria Adventures of the Outsiders.

Mais nhenhenhém que novela mexicana: Batman e os Renegados. 1. Capa da Brave and the Bold #200 (surgimento da parceria). 2. Primeira e última capa da permanência do Morcegão à frente do grupo em Batman and the Outsiders. 3. Retorno do herói ao grupo em 2007, para mais 15 edições.

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Metacrise, Reboot

Percebendo que as coisas não iam muito bem em sua linha de publicação, a DC teve a fenomenal ideia de complicar ainda mais resolver o problema de modo metalinguístico: inventar uma crise quando tudo estava realmente em crise (Federico Fellini curtiu isso). A editora viu aí a oportunidade endireitar linhas cronológicas de seus personagens (maldito multiverso!) e abrir espaço para novos rumos editoriais. Era uma aposta cujo verdadeiro valor ainda estava por vir. Assim nasceu a Crise nas Infinitas Terras, crossover em 12 edições, publicado entre 1985 e 1986, com roteiro de Marv Wolfman e desenhos de George Pérez.

Depois do tempo ameaçado e a própria realidade ter sido posta em jogo, as consequências da Crise se apresentaram para os quadrinhos da editora. Era o fim da era de “Terras múltiplas”. Tudo agora se passava em uma única Terra.

Mas o ano de 1986 não terminaria apenas com isso. A convite de Dennis O’Neil, Frank Miller chegou à DC para revolucionar de vez os títulos do Batman, dando início a um momento mais sombrio e de caráter pessimista na vida do herói, um exercício que ele já tinha feito na Marvel, com o Demolidor.

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Renascimento Sombrio, “Tá chovendo obra-prima!”

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Batman é Pop!

 

Com uma missão complicada em mãos, Frank Miller percebeu que só poderia fazer algo notável com o Batman se tivesse plena liberdade para manipular elementos da mitologia do herói e criar algo que fosse não só à frente do seu tempo mas que fosse completamente revolucionário para o personagem. A liberdade veio e Miller nos entregou nada menos que Batman: O Cavaleiro das Trevas (1986), o maior ícone em quadrinhos já criado para o Morcego. Nesse história, um Batman cinquentão está diante de uma Gotham cada vez mais violenta e, por seus atos, se torna uma “ameaça nacional”, recebendo a visita de um certo super-herói enviado pelo governo americano para barrá-lo a todo custo. Mídia, ultraviolência, discussões políticas e muita densidade marcam o roteiro dessa aventura. Era exatamente disso que o Batman precisava para renascer com força total.

Na mesma linha de qualidade, Miller escreveria sua versão para a história e origem do Batman sem mudar a versão original criada por Bob Kane e Bill Finger na Detective Comics #33. Juntamente com O Cavaleiro das Trevas, Batman: Ano Um (1987) foi e ainda é sinônimo de referência no que diz respeito às raízes do Morcegão, além de um marco decisivo para recolocar o Batman no gosto massivo do público e vender, vender e vender revistas.

Frank Miller despenteia e estrupia o Morcego. Iniciava aqui uma era onde desgraça pouca era bobagem (ao menos na mão de bons roteiristas).

Frank Miller despenteia e estrupia o Morcego, além de recontar de forma amargurada a origem do herói. Iniciava aqui uma era onde desgraça pouca = bobagem (ao menos na mão de bons roteiristas). Acima, capas de Batman: O Cavaleiro das Trevas (1986) e Batman: Ano Um (1987).

Mais preocupada com alguma noção de cronologia e tendo dois exemplos sublimes de como se escrever histórias do Batman, a DC (impulsionada pelo ânimo de Dennis O’Neil) cedeu algumas liberdades para roteiristas e artistas criarem arcos ou aventuras que tivessem relevância a longo prazo na timeline do Morcego. Era algo do tipo “oi, tudo bem? Você já escreveu ou desenhou sua obra-prima do Batman hoje?“.

Escusa-se bater na tecla de que muita coisa neutra e muita coisa ruim apareceu nessa leva, mas ainda é possível lembrar de algumas histórias que tiveram sua importância à época e marcaram a vida do Homem Morcego, como Batman: Anos Dois (Mike W. Barr, Alan Davis e Todd McFarlane, 1987) e a excelente Batman: O Filho do Demônio (Mike W. Barr e Jerry Bingham, 1987).

Além dessa nova fase tanto de popularidade quanto de qualidade das histórias do Morcego, podemos observar a presença do herói em muitas mídias fora dos quadrinhos, algumas delas, de carona com o sucesso enorme do qual o personagem então gozava.

Acima, a abertura de uma das 4 séries em que o Batman apareceu nos anos 80, todas elas séries animadas produzidas e exibidas pela ABC. A primeira foi The World’s Greatest Super Friends (1979 – 1980), que teve apenas uma temporada de 8 episódios. A segunda foi Super Friends — perceba o nível de criatividade da ABC para nomear suas séries — exibida entre 1980 e 1982, com três temporadas. Em seguida veio Super Friends: The Legendary Super Powers Show (1984 – 1985), e depois The Super Powers Team: Galactic Guardians (1985 – 1986), ambas com apenas uma temporada.

Data também desse período o primeiro jogo do Batman, desenvolvido pela Ocean Software sob perspectiva isométrica 3D e lançado em 1986 (para quem tem curiosidade, as plataformas compatíveis eram: Amstrad CPC, Amstrad PCW, MSX, Sinclair ZX Spectrum). Além da ótima receptividade pela crítica e pelo público, o jogo foi o primeiro passo para mostrar que o Morcegão também poderia fazer parte desse novo mundo de entretenimento, algo que seria bem explorado nos anos seguintes. É interessante ressaltar que Batman estreou o modelo de checkpoint para os jogos, ou seja, você podia recomeçar o jogo de um ponto que desejasse (se bem que isso te custaria 1 das 8 vidas que tinha, mas em compensação, você retornava com os mesmos gadgets a com a mesma health). E para os curiosos sobre o estilo do jogo, vai aí uma palhinha nostálgica:

Em 1989, seguindo o rumo da batmania que elevou o Morcegão às alturas entre 1986 e 1989, chegou aos cinemas (arrasando bilheterias pelo mundo todo) o filme dirigido por Tim Burton.

Com uma identidade estética cara ao diretor (o visual expressionista), esse filme foi, à sua maneira, uma espécie de confirmação visual para o momento sombrio e perturbado que o herói então vivia. Há uma série de falhas conceituais na fita, mas não podemos dizer que ela foge inteiramente da atmosfera que o Morcegão vivia naquele momento de sua história. Abaixo, vai o trailer para quem quiser matar a saudade (precisa mesmo?) e para quem nunca viu o filme (tome vergonha e veja!):

Um pequeno jabá

Abaixo, a DC comemorando de forma icônica o aniversário de 50 anos da Detective Comics, em março de 1987. À direita, a capa da DC #1 (Março de 1937) e à esquerda a capa da DC #572 (Março de 1987). O curioso é que o Batman só foi aparecer na Detective Comics #27 (Maio de 1939), ou seja, a referência na capa da edição de aniversário é mais um agradecimento ao Batman — que ainda não existia quando a DC foi criada — do que à própria revista:

De qualquer forma, o aniversário de 50 anos da criação do Batman seria comemorado não muito tempo depois, em Maio de 1989. Mas não houve nenhuma edição de aniversário com capa temática e referências bacanas. Vai entender…

Voltando ao Assunto: a fase 1988 – 1989

Voltando aos quadrinhos, encontramos já em final dos anos 80 um Sr. Dennis O’Neil cada vez mais interessado em trazer para o Morcego e sua família situações antes nunca vistas. Talvez esta seja a marca inesquecível do Morcegão oitentista (com reflexos de base para os anos seguintes), por muitos considerado o melhor momento de sua cronologia: havia um constante padrão de renovo, liberdade para os roteiristas fazerem o que quisessem com o herói (desde que dentro de padrões justificáveis) e exploração de coisas que até aquele momento não se imaginara “de bom tom” trabalhar nos quadrinhos.

A reta final dessa fase conta com duas levas de histórias interessantes em pauta, que dividi aqui entre os anos de 1988 e 1989. A primeira delas é o exercício divino do mago Alan Moore em A Piada Mortal (1988), história que traz à tona um questionamento interessante sobre homens postos no limite de suas vidas e o que se tornam depois desse teste maior.

No mesmo ano tivemos a publicação de As Dez Noites da Besta e Morte em Família, esta última, com um fato inédito: aproveitando-se da impopularidade de Jason Todd, a DC propôs uma votação por telefone onde os leitores poderiam escolher se o Robin II morreria ou não no final da história. O resultado foi a maior carnificina pública de todos os tempos. É como se uma multidão de leitores gritassem “matem logo! Estão esperando o quê?“. Bom, a DC esperou até o final da história, e então já era Jason Todd. Quer dizer… já QUASE era Jason Todd, que depois volta como Capuz Vermelho (vaso ruim não quebra, não é mesmo?).

A Piada Mortal; Morte em Família e As Dez Noites da Besta.

Já em 1989, o Morcego voltava para numa espécie de inferno revelador pessoal, com histórias que não só traziam muitos detalhes sobre sua vida, mas também colocavam-no em situações de vulnerabilidade extrema ou até mesmo numa posição descaraterizada, como é o caso de Asilo Arkham – Uma Série Casa em um Sério Mundo. A temática de “como eu me tornei o que sou” volta em As Muitas Mortes de Batman, e no caso de Justiça Cega, temos o herói combatendo um cartel criminoso dentro de sua própria corporação, a Wayne Enterprises.

Uma espécie de “lobo solitário” dos anos 80 também surge nesse meio, a Graphic Novel Gotham City 1889 (Gotham by Gaslight, 1989), escrita por Brian Augustyn e ilustrada por Mike Mignola e P. Craig Russell. Essa história se difere das demais da época porque é ambientada em um universo passado, com Jack, o Estripador como vilão. Mesmo que seja uma aventura elseworld, sua concepção e execução são interessantes no montante dos lançamentos da época e não poderia deixar de ser citada aqui.

Não podemos esquecer que essa fase de 1989 foi agraciada com o impulso que qualidade cujo núcleo tinha explodido em meados da década, mas que agora achava herdeiros fixos responsáveis pelas aventuras em andamento: Marv Wolfman e Jim Aparo em Batman e Alan Grant e Norm Breyfogle na Detective Comics. O ano ainda nos traria, em seu crepúsculo, Batman: Ano Três e Um Lugar Solitário para Morrer, fechando de forma muito interessante um ciclo que ainda se seguraria bem no início dos anos 1990, mas aos poucos se dissiparia, ao menos na quantidade de histórias geniais e concepção de mudança numa sequência assustadora.

Asilo Arkham – Uma Série Casa em um Sério Mundo; Batman: Ano Três e As Muitas Mortes de Batman.

A próxima edição do nosso Entenda Melhor sobre o Morcegão trará eventos relacionados aos anos 1990, não só nos quadrinhos mas também em outras mídias. Não deixe de conferir também a parte um e a parte dois dos artigos relacionados ao herói, ambas escritas pelo nosso Coringa particular, o Sr. Ritter Fan.

Até a próxima!

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.