Entenda Melhor | Demolidor – Aniversário de 50 Anos: Parte Um

Quem diria, mas Matt Murdock, o Demolidor, faz 50 anos no mês de abril de 2014. Publicado pela primeira vez em Daredevil #1, de 1964, o “herói urbano cego que se veste de diabo da Marvel Comics” foi aos trancos e barrancos estabelecendo-se como um dos mais angustiados e trágicos personagens da  editora. Que tal, então,  passear um pouco pela vida desse herói – ou anti-herói, depende de como você quiser encarar – desde sua origem até hoje em dia nesse nosso especial comemorativo em duas partes?

Do uniforme amarelo até Frank Miller (1963-1979):

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Ainda bem que ele não enxerga essa poluição visual…

Demolidor foi mais uma das grandes criações sessentistas da Marvel, na esteira de heróis como Homem Aranha, Hulk, Homem de Ferro e Quarteto Fantástico. Foi uma primeira metade de década extremamente fértil, que literalmente determinou as bases criativas para a editora e o império que hoje comanda. Stan Lee, o nome mais citado dessa época, foi em grande parte responsável realmente por toda essa geração de inesquecíveis heróis, inclusive por Demolidor, ainda que créditos também sejam devidos a Bill Everett e Jack Kirby. Mas claro, nunca saberemos exatamente que pedaço do herói saiu de que mente.

O que importa é que, de certa forma, o Demolidor marcou o fim desse dilúvio criativo, já que poucos personagens realmente duradouros foram criados a partir de 1964. Muitos talvez discordarão dessa afirmação, diante de vários outros heróis e vilões que as décadas seguintes fariam florescer no coração da Marvel, mas a verdade é que, em termos fundamentais, de verdadeiro alicerce sobre o qual a editora se erigiu, Demolidor foi mesmo a grande última criação.

E que criação!

Como já era de praxe, Lee e equipe gostavam de heróis mais galgados na “realidade”, que as pessoas pudessem se identificar mais facilmente. Peter Parker é um adolescente estudante, que consegue estágio em um jornal. Bruce Banner é um cientista. Tony Stark é um milionário playboy e Reed Richards é outro cientista. Mas todos tinham – e ainda têm – características terrenas, mais “aceitáveis” diante da quantidade de heróis extra-terrestres e super-poderosos que vinham da DC Comics.

E Matt Murdock entra nessa linha, como um advogado que, na infância, perdeu a visão em razão de um acidente com uma substância radioativa e, ao longo do tempo, passou a ter os demais sentidos amplificados, especialmente um senso de radar que lembra muito o de um morcego. Nada de super força. Sua cegueira, porém, o permite assumir riscos impressionantes, o que lhe garantiu o apelido de “Homem Sem Medo”. E uma curiosidade: o Demolidor não é o primeiro herói cego dos quadrinhos. Essa honra fica com o Dr. Meia-Noite, da DC Comics, criado em 1941. Mas há uma diferença muito grande, pois o Dr. Meia-Noite é cego, mas enxerga perfeitamente bem no escuro total.

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E aí? Quem ganharia a luta?

Aliás, o nome original do Demolidor já deixa isso claro: Daredevil. Em tradução ao pé da letra, palavra por palavra, seria “Demônio Destemido”, mas a expressão em si significa, simplesmente, “ousado, corajoso, destemido” e é comumente usado para designar malabaristas de circo e homens como Evel Knievel, que ultrapassam a barreira do senso comum para alcançar feitos únicos.

Ainda sobre o nome, vale um parênteses aqui: no Brasil, o primeiro nome do herói foi mesmo Demolidor, conforme publicação em preto e branco pela Ebal a partir de 1968. O nome foi uma tentativa “porca” de se usar uma palavra só que começasse com a letra “D”, para combinar com o D bem marcante no peito do uniforme original do personagem. Hoje, todo mundo já está acostumado com Demolidor, mas pare e pense um segundo: como assim Demolidor? Que sentido isso tem? Só que, mesmo errando, a Ebal acabou acertando, pois a editora seguinte a ter os direitos de publicação do Demolidor, já a cores, resolveu rebatizar o herói para Defensor Destemido, já que, no uniforme vermelho, duas letras “D” aparecem. Se por um lado fica mais próximo da tradução literal do nome, por outro consegue ficar mais ridículo do que Demolidor. Portanto, dos males o menor!

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Se é para chutar nomes, então meu voto vai para Doutor Dengoso!

Mas fechando esse parênteses, vale voltar ao uniforme do herói que foi inspirado justamente em artistas de circo, com suas cores berrantes amarela e vermelha, com partes em preto, para que ele se tornasse um alvo ambulante dos vilões, digo fizesse referência imediata às suas origens… Como arma, ele tem uma bengala que faz as vezes de cassetete/nunchaku customizado que ele usa tanto para se locomover, quanto para nocautear vilões.

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Seu diabinho…

Dizem que foi Kirby quem fez o desenho básico do herói e que Everett modificou. Dizem também o contrário. Dizem que Stan Lee só deu instruções gerais. Seja como for, o esquema de cores inconfundível do uniforme original com pequenos chifres do Demolidor mudou radicalmente já em seu número 7, sob a batuta dos desenhos de Wally Wood, que começara a desenhar dois números antes (a primeira aparição do uniforme vermelho foi nessa edição ao lado, com Namor). Essa aparência mais séria e condizente com o devil de seu nome, o Demolidor permanece até hoje, com apenas alguns desvios aqui e ali, como na série de TV do Hulk e em Shadowland.

Durante toda a década de 60, as revistas do Demolidor venderam bem e diversos vilões famosos foram introduzidos, como o Coruja, Senhor Medo, Stilt-Man, Gladiador, Saqueador Mascarado e outros. No entanto, poucos vilões foram realmente marcantes e duradouros, ainda que muitos mesmo hoje em dia voltem para importunar o Demolidor e outros heróis.

Houve até uma estranhíssima história, mas típica mesmo dos anos 60, com a identidade do herói sendo revelada para Karen Page, a secretária/namorada de Matt, por um Homem-Aranha que decide mandar uma “carta” ao Demolidor prometendo que não revelaria sua identidade (ótima ideia, Parker!). Sem saída, o que faz Murdock? Marque a opção correta: (a) ele conta a verdade e revela seu segredo; (b) diz que o Homem Aranha é completamente maluco; (c) nega até morrer ou (d) inventa um irmão gêmeo.

É claro que você marcou a opção D, não é mesmo? Pois essa seria a saída mais fácil em todas as circunstâncias. Matt Murdock inventa que tem um irmão gêmeo chamado Mike e que ele sim é que é o Demolidor. E essa genial esparrela criada por Stan Lee continuou por um ano e meio e só acabou de verdade tempos depois, nas edições 41 e 42. com Matt fingindo que Mike morreu e que ele havia treinado um Demolidor “substituto”. O mais engraçado é que Foggy Nelson é literalmente convencido que, apesar de ter estudado na faculdade com Matt a vida inteira, nunca antes ouvira falar em seu “irmão gêmeo”. Prêmio de otário para Foggy é pouco, não?

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Mike Murdock, o Demolidor!

O Demolidor, então, flertou com linhas narrativas de ficção científica e muitas mudanças na equipe criativa a partir da década de 70. De memorável mesmo, só a criação do grande nêmesis do Demolidor, o vilão Mercenário (Bullseye), na edição 131, que trouxe também sua origem. Apesar de sub-aproveitado, o vilão seria a peça fundamental para o futuro cheio de desgraças do herói não muito tempo depois.

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Primeira aparição do Mercenário: olha o tamanho do alvo na testa do sujeito!

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O começo da virada sombria do herói, com McKenzie nos roteiros

A partir do número 140, na segunda metade dos anos 70, ficou evidente que o Demolidor havia perdido o gás e, sete meses depois, no número 147, a revista passou a ser bimestral. Foi nesse momento que Roger McKenzie pegou o personagem e, como tinha muita experiência com quadrinhos de terror, começou a levar o personagem para um lado mais sério, sombrio e pesado. Foi o embrião do que viria a desabrochar em seguida com a “era Frank Miller”.

McKenzie não só fez o Demolidor enfrentar demônios interiores, às vezes refletidos em vilões que personificavam a Morte, como também o fez enfrentar a revelação de sua identidade secreta pelas mãos do repórter Ben Ulrich (criado por McKenzie).  Com isso, o Demolidor se vê forçado a usar uma rede de criminosos menores de Hell’s Kitchen, onde nasceu e foi criado, fazendo o personagem enveredar por caminhos que nunca antes havia tomado e que, depois do que pode sim ser chamado “era McKenzie”, jamais verdadeiramente sairia.

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Demolidor #158: início da tomada hostil de Frank Miller

E foi com McKenzie que, a partir do número 158, de maio de 1979, Frank Miller começou a desenhar o Demolidor (na verdade, foi a segunda vez, pois a primeira foi em fevereiro do mesmo ano, em O Espetacular Homem-Aranha #27). É o começo da guinada radical do personagem, pois, não demorou muito e Miller tomou as rédeas do personagem completamente.

A revista estava para ser cancelada. A passagem para a temporalidade bimestral havia sido desastrosa para o público fiel do herói, que via o Demolidor desaparecer das prateleiras. McKenzie bem que tentava, mas a moda do “herói soturno” e da “pegada mais sombria” ainda não existia de verdade nos quadrinhos. No entanto, Frank Miller começou a se incomodar com o que via como falta de qualidade nos roteiros de McKenzie e não se fez de rogado, deixando Jim Shooter, então editor-chefe (e que viria a ser responsável pelas atrocidades chamadas Guerras Secretas), bem ciente disso. Shooter teve que convencer Miller e não desistir e, não demorou muito, o editor Denny O’Neill, demitiu McKenzie de forma extremamente abrupta. Era a tentativa de salvar o título.

Com isso, Miller entra de sola na vida de Matt Murdock.

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E o que aconteceu na Era Frank Miller? Calma, endiabrados leitores, vocês saberão muito em breve na segunda e excitante parte desse Entenda Melhor, que será publicado dentro de uma semana! (leiam aqui a Parte Dois)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.