Entenda Melhor | E Com Vocês, a Final Girl!

Cunhado pela escritora feminista Carol Clover no livro Men, Women and Chainsaws (Homens, Mulheres e Motosserras: A Questão de Gênero nos Filmes de Terror Modernos), o termo final girl designa as protagonistas dos filmes de terror ao estilo Halloween – A Noite do Terror, O Massacre da Serra Elétrica, Sexta-Feira 13, A Hora do Pesadelo, etc. Tal personagem é a “principal”, a escolhida para enfrentar o “monstro” e dar fim aos momentos de horror que se estabelecem momentaneamente em sua vida, muitas vezes, numa data comemorativa: 31 de outubro, noite de natal, etc.

Após analisar o subgênero slasher, a autora percebeu que nestas tramas há uma espécie de atmosfera que nos remete ao ódio patriarcal, pois as personagens são adaptadas pelos roteiros para enfrentar o opressor masculino próximo ao final da narrativa. No geral, estes desfechos apoteóticos são interpretados em diversas camadas, entre elas, a capacidade da mulher em enfrentar tais celeumas e ser capaz de sobreviver, sem necessariamente ter a ajuda de um herói salvador.

“Belas, recatadas e dignas do lar”, a final girl dos anos 1970 e 1980 é o exemplo que a sociedade achava que deveria ser seguido: as representantes deste arquétipo são jovens, cuidadosas, responsáveis, virgens e carregam consigo uma aura de ingenuidade. Não há espaço para rebeldia, tampouco qualquer comportamento que venha a ser encarado como transgressor. Tal questão nos leva à outra camada de reflexão ao analisar tais personagens: a cultura do estupro e a necessidade de dizimação dos exemplos que não estão de acordo com os padrões tradicionais da sociedade, pois caso uma personagem apareça seminua ou tenha qualquer comportamento que acentue a sua sexualidade, o destino é certeiro: uma morte bastante sanguinolenta.

Campo fértil para diversas reflexões, o arquétipo da final girl reforça que tais personagens precisam se preparar para o perigo que “pode estar à espreita na esquina”, afinal, nunca se sabe quando terão que enfrentar figuras macabras como Leatherface, Michael Myers, Jason Vorhees ou Freddy Krueger. Como Clover desenvolve em sua análise, “há nestes filmes a ideia de que a final girl é uma figura frágil e em perigo”, numa espécie de “apropriação dos signos de nossa sociedade”. Arquétipo bastante discutido em diversos setores da sociedade, tais como o âmbito acadêmico, as críticas jornalísticas e os filmes metalinguísticos, o termo na atualidade nos leva para a seara da problematização: se é pura e virginal pode ficar viva, mas se for “vadia” ou fora dos padrões, precisa morrer?

Responsável por impulsionar a trama para o seu epílogo, a final girl possui natureza investigativa, sempre na busca de se abster do sexo e das drogas. Os modelos dos anos 1990, por exemplo, seguem uma linha diferenciada, mas ainda assim, mantém uma aura intocável em suas protagonistas. Há filmes que buscam parodiar a questão ou até mesmo reverter a fórmula. Em Pânico, Sidney Prescott não é virgem e ao longo dos quatro filmes, evolui de adolescente com pouca capacidade de se defender para uma heroína ao estilo Sigourney Weaver (Alien – O Oitavo Passageiro) e Linda Hamilton (O Exterminador do Futuro 2), personagens dos anos 1970 e 1980 que são conhecidas por empunhar armas e autodefender-se sem necessariamente depender de homens para salvá-las de qualquer situação extrema.

Em Eu Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado, Jennifer Love Hewitt comete os seus erros, mas se arrepende. Relaciona-se sexualmente com seu namorado, mas é uma “boa menina”, tal como Sidney, responsáveis e dedicadas, o que garante as suas vidas. Na série Slasher, produzida pelo canal Chiller, a protagonista Sarah Bennett (Katie McGrath) também protagoniza tórridas cenas de sexo com o seu companheiro, sem o perigo de morrer ao final, tampouco ser gravemente ferida, haja vista a reconfiguração dos novos tempos e a necessidade de evolução do slasher enquanto subgênero do cinema.

Na esteira da final girl há outro termo, de cunho mais pop e sem problematização alguma, no entanto, marca registrada destes arquétipos, principalmente nos filmes citados logo na abertura desta breve reflexão. As scream queens, em tradução literal, são as rainhas do grito. Elas precisam enfrentar os monstros de suas narrativas, mas nada as impede de gritar muito, para aumentar o pathos que nos é ofertado em cena. O termo até ganhou uma série paródica que durou duas temporadas e teve Jamie Lee Curtis, Emma Roberts, Ariana Grande, Abigail Breslin no elenco, com direito à muitas piadas metalinguísticas e referências visuais aos grandes clássicos do slasher e do terror em geral.

Historicamente, o termo designa donzelas em perigo. Fay Wray foi uma das primeiras: em King Kong, de 1933, a atriz precisou caprichar nos gritos ao ter que lidar com a desconhecida e monstruosa criatura que é retirada de seu espaço natural por ambiciosos homens de negócios. Em Psicose, de Alfred Hitchcock, Janet Leigh protagoniza a eletrizante cena do chuveiro, num desempenho dramático que depende dos seus gritos para impactar.

Tais exemplos são as bases, mas o conceito de scream queen é mais amplo, pois designa também a aparência frequente de uma atriz em filmes de terror, geralmente como protagonista. Dentro deste parâmetro Jamie Lee Curtis, nos anos 1970 e 1980, ocupa o primeiro lugar do pódio. Esteve em Halloween, Halloween 2, Trem do Terror, Baile de Formatura, etc. Entre as décadas de 1990 e 2000, tivemos Neve Campbell (quatro vezes) e Jennifer Love Hewitt (duas vezes) como as representantes mais bem sucedidas.

No bojo dos filmes de terror italianos, também tivemos rainhas especializadas em gritos apavorantes: Barbara Steele e Daria Nicoladi, ambas protagonistas dos filmes de Mario Bava e Dario Argento, respectivamente. Entre 2006 e 2011, havia até uma premiação para filmes de terror que incluía a categoria “Melhor Rainha do Grito”. Intitulado Scream Awards, contemplava filmes de horror, fantasia e ficção científica. Criado pelo produtor executivo Michael Hewitt, o evento ocorria em Los Angeles e era transmitido anualmente pelo canal Spike.

Diante do exposto, caro leitor, não deixe de comentar. Qual a sua final girl predileta?

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.