Entenda Melhor | Gilberto Gil – Discografia (1963 – 1975)

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Gilberto Passos Gil Moreira nasceu em Salvador, em 26 de junho de 1942. Um dos principais músicos do Brasil, Gil começou sua carreira aos 21 anos de idade, tendo o primeiro trabalho lançado, de forma tímida, em 1963. Ao longo dos anos, seu repertório contou com inúmeros gêneros e fez parte de diversos movimentos musicais, como Tropicália, MPB, baião, xote, frevo, samba, reggae, rock progressivo, rock psicodélico, ijexá, música minimalista e música experimental, só para citar os mais frequentes. Formado em administração pela  Universidade Federal da Bahia, Gil encontrou-se mesmo na música — ele já fazia parte de movimentos musicais de sua cidade desde a infância –, e resolveu fazer desta a sua carreira, sendo um dos criadores de experimentos musicais e inovação na MPB da segunda metade do século XX.

De premiações musicais, Gil tem, como principais, o Grammy de Melhor Álbum de World Music Contemporânea por Eletracústico (1998); o Grammy Latino de  Raízes Brasileiras/Álbum Regional por As Canções De Eu, Tu, Eles (2001); o Grammy Latino de Melhor Cantor Brasileiro/Álbum Regional por São João Vivo (2002); o Grammy de Melhor Álbum de World Music por Quanta Live (2005); e o sueco Polar Music Prize (2005)..

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Da presente compilação, trago todos os títulos da discografia oficial e em estúdio do cantor lançados desde a sua estreia, em 1963 até o ano de 1975, abordando os 10 primeiros discos de sua carreira. Deixo claro que a escolha para este período de tempo foi puramente por conveniência de tamanho do Entenda Melhor, dada a extensão da discografia de Gil. Por este critério de escolha, ficaram de fora os projetos paralelos e os discos ao vivo, a saber: o excelente e histórico álbum coletivo Tropicália: ou Panis et Circencis (1968); Gil e Gal: Live in London 71 (1971); Barra 69 – Caetano e Gil Ao Vivo na Bahia (1972); Caetano, Gal e Gil: Temporada de Verão (1974) e Gilberto Gil Ao Vivo (1974). Ainda vale a citação de um projeto pequeno que o cantor participou em 1969, juntamente com Caetano e Capinan, na trilha sonora do filme Brasil Ano 2000, dirigido por Walter Lima Jr.

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1. Salvador, 1962 – 1963

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Maria Tristeza
Não vê mais beleza nas coisas da vida
Seu mundo de agora é um lar sem comida
Que o João coitado, tão pobre, coitado
Não pode aguentar.

João Pobreza
Não tem mais vontade de ter alegria
Sentindo a miséria matar todo dia
Seu corpo cansado de não descansar.

Salvador, 1962 – 1963 — lançado em 1963 — foi o primeiro disco de Gilberto Gil, embora exista um registro anterior a este, chamado Retirante (1962), com demos do cantor, mas que não foi comercializado como álbum (são 32 faixas!), e só lançado, posteriormente, em CD especial duplo. As 8 primeiras faixas de Retirante formam este primeiro álbum do cantor, que por um golpe de sorte foi descoberto pelo produtor Jorge Santos. No dia da gravação de um jingle com o grupo Os Irapuãs, um dos integrantes não compareceu ao estúdio. Em depoimento dado por Santos décadas depois, para evitar o cancelamento, um dos membros do conjunto disse: “Não deixa de fazer a gravação não; a gente vai buscar o Beto! Ele é meio tímido, mas…” e então vieram com o jovem Gilberto Gil, que gravou a voz de apoio para o jingle e tocou acordeão e algumas composições próprias para o produtor, que ficou impressionado com o que ouviu e chamou o músico para uma outra gravação. Desse encontro saiu o registro em estúdio para as duas primeiras faixas desse álbum (e as mais fracas), a nacionalista Povo Petroleiro e a marchinha de carnaval Coça, Coça, Lacerdinha, ambas de Everaldo Guedes (um funcionário da Petrobras) e ambas com com Gil ao violão, acompanhado da Orquestra do Maestro Xaxá. Estas duas são as únicas do disco gravadas em 1961. As outras seis foram gravadas em 1963. Dessas, a que não foi composta por Gil é a que encerra o projeto, a simpática Vem, Colombina, de Silvan Castelo Neto e Jorge Santos.

Serenata de Teleco-Teco traz um bom improviso de Gil, que não tendo um tamborim na hora da gravação, segundo palavras do produtor Marcelo Fróes, “improvisou a batucada com uma pequena faca de cozinha numa lata de leite em pó abafada por um lenço.“. Maria Tristeza, minha faixa favorita do disco, é uma lírica de protesto social elencando um casal de miseráveis, representando o povo brasileiro: a Maria do título e seu par, o João Pobreza. Com arranjos escrupulosos de Alcyvando Luz, Vontade de Amar é um samba acompanhado por orquestra e com uma interessante quebra de ritmos. Pena que a produção rompa muito rapidamente a última sílaba, quase cortando a voz de Gil ao finalizar o verso. Meu Luar, Minhas Canções é uma belíssima serenata e Amor de Carnaval, futuramente regravada por Daniela Mercury, Elizeth Cardoso e Zimbo Trio é um lamento de um amor que surgiu no Carnaval e que só trouxe dor para o choroso eu-lírico. Uma forma festiva e ao mesmo tempo sentimental de terminar o disco.

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2. Louvação (1967)

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Vou fazer a louvação – louvação, louvação
Do que deve ser louvado – ser louvado, ser louvado
Meu povo, preste atenção – atenção, atenção
Repare se estou errado
Louvando o que bem merece
Deixo o que é ruim de lado

Produzido por João Mello, Louvação foi lançado em maio de 1967, após o Golpe Militar, e isso teve uma influência na escolha das canções para o álbum (algumas eram composições já conhecidas de Gil ou até já registradas em estúdio, para divulgações não comerciais). Aqui, o cantor já estabelece como marca a mistura de estilos como o baião, as marchinhas de carnaval e o samba, que abraçam questões sociais importantes e até acontecimentos reais, como o incêndio que de fato aconteceu na Feira Água de Meninos em 1964, retratado na faixa de mesmo nome, numa parceria de Gil com José Carlos Capinam. Ainda é possível perceber questões políticas e religiosas nos sambas, lamentos românticos flertando com os cancioneiros dos anos 50 e aproximações com a bossa nova. Aqui, temos arranjos musicais feitos por Dori Caymmi, Carlos Monteiro e Souza e Bruno Ferreira.

O álbum é aberto com Louvação (Gil e Torquato Neto), uma homenagem às raízes culturais/musicais do Nordeste. Beira-Mar é um caso curioso de duas grandes mentes (Gil e Caetano Veloso, que já se conheciam há algum tempo) misturando tempos e com um belo toque nostálgico. Lunik 9 é um dos muitos olhares de Gil para a tecnologia, aqui, em forma de suíte com diferentes andamentos e narração, abordando com certo receio e maravilhamento o pouso na Lua da nave soviética não tripulada Luna 9, em 6 de fevereiro de 1966. Em entrevista, anos depois, o cantor disse: “Recebi o impacto da notícia do pouso (suave, segundo as avaliações) do Lunik 9 na Lua com orgulho e ponderação: estávamos conquistando o espaço, mas aonde isso ia dar? Não era só o cidadão que especulava, mas também o artista, com o senso da responsabilidade de ser locutor da sociedade junto à história. Eu tinha que falar no assunto por isso — e também pelo sentido de competição. Havia uma disputa olímpica entre nós. ‘Provavelmente alguém vai fazer música sobre isso; deixa eu fazer logo a minha’, pensei.“. A carnavalesca Ensaio Geral é a menor faixa do disco e fala muita coisa em pouco tempo, apesar da simplicidade. Maria (Me Perdoe, Maria) é um plácido diálogo entre o eu-lírico e sua amada. A Rua é daquelas canções que nos enganam e nos surpreendem, começando com uma orquestra, como as grandes serenatas dos anos 40, e depois desabrocha, ganhando as cores do Nordeste em baião, entrecortado por frases orquestrais.

Roda é um samba que flerta com o lirismo das rodas de capoeira. Rancho da Rosa Encarnada (de Gil, Torquato e Geraldo Vandré) minha favorita do disco, é um épico jazzístico cheio de brasilidade (clássica e popular), com um belo arranjo orquestral, frases de sopros durante as estrofes e aplaudível uso do coro em tempo lento à guisa de ponte entre os blocos. Viramundo é um forró com uma letra inteligente sobre a promessa de tempos onde o povo encontrará diversão e comida. Mancada é um samba cômico de um homem que está bravo com a parceira porque ela “u-hum” o dinheiro da escola de samba. Um charme de canção. E encerrando o disco, Procissão, que começa com uma romaria e segue com um samba simples, regravado pelo próprio cantor em seu álbum seguinte, com um arranjo mais experimental, embora eu goste bem mais dessa primeira versão.

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3. Frevo Rasgado (1968)

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O rei da brincadeira
Ê, José!
O rei da confusão
Ê, João!
Um trabalhava na feira
Ê, José!
Outro na construção
Ê, João!…

Gilberto Gil: Frevo Rasgado é um dos principais discos do Movimento Tropicalista que, junto dos arranjos de Rogério Duprat e da produção de Manoel Barenbein, trouxe Os Mutantes gravando vozes de apoio e algumas linhas instrumentais com Gil, uma união de criatividade que criou um álbum de “rock maluco”, como o próprio cantor gostava de definir. Trata-se de um disco em que tudo cabe: brasilidades musicais diversas, canções de improviso, influência dos Beatles, denúncias, crítica política, louvor da cultura brasileira e elementos religiosos, como vemos na faixa em Procissão, aqui, com nova roupagem, em parceria com os Mutantes.

Frevo Rasgado (Gil e Bruno Ferreira) é a música de abertura e, como o título indica, cria uma marchinha com o ritmo genuinamente pernambucano. Coragem pra Suportar alude a elementos indígenas e expõe a dura realidade da situação dos retirantes e da vida no Sertão Nordestino. Domingou (Gil e Torquato) é Beatles puro, ficando ainda mais evidente com os refrões simpáticos dos Mutantes. Marginália II, outra parceria de Gil com Torquato, é uma saga de identidade nacional que passa por um arranjo musical excelente, com uma baita participação de Wilson das Neves na bateria, que se junta aos sopros de maneira grandiosa. Pega a Voga, Cabeludo (Gil e Juan Arcon) é adaptada do folclore amazonense, com participação de Sérgio Dias nas guitarras (que na faixa, divide os créditos com Lanny Gordin, também excelente) e os Mutantes nos vocais, fazendo algo tão divertido que parece coisa do álbum Os Mutantes (1968).

Ele Falava Nisso Todo Dia é uma das faixas mais tristes que já ouvi, contando a história de um rapaz de 25 anos que morre atropelado em frente à Companhia de Seguros e que tinha por obsessão um seguro de vida para a família. Sobre essa composição, com belos arranjos de música indiana, Gil disse: “O que a canção condena é o desprezo pela vida nesse cultivo excessivo das formas de proteção, as cercas, do mundo burguês. É incrível como, aos 25 anos, o ‘rapaz’ – que personifica o ideal mediano, de classe média, de homem do mundo na sua versão mais comum – reitera com tanta obsessão esse cultivo; é lamentável a desimportância da vida para alguém tão jovem. E é paradoxalmente trágico que tudo que ele fala, tudo com que sonha, finalmente se realize com a sua morte prematura. Como uma fatalidade apropriada, ‘desejada’, uma auto-imolação para a vitória dos seus princípios: ele falava tanto naquilo que aquilo teve de acontecer para materializar o valor do ideal burguês.“. Na sequência, a terna Luzia Luluza, uma fantasia de um casal de jovens pobres que pensam em um futuro romântico à la “cena de cinema”. Pé da Roseira é uma ciranda triste, crepuscular, fortemente pensada para percussão nas estrofes e diferenciação de instrumentos na ponte que serve de refrão. E finalizando o disco, uma das obras-primas da música brasileira, Domingo no Parque, que parte de elementos regionais baianos, com o berimbau e o ritmo de roda de capoeira, em um tipo de cantiga folclórica com uma história de “amor louco” que ainda faria história na apresentação de Gil com os Mutantes, no Festival da Record. Uma pérola de nossa MPB.

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4. Cérebro Eletrônico (1969)

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Meu caminho pelo mundo eu mesmo traço
A Bahia já me deu régua e compasso
Quem sabe de mim sou eu – aquele abraço!
Pra você que meu esqueceu – aquele abraço!

Mais uma produção de Manoel Barenbein, Gilberto Gil: Cérebro Eletrônico (1969) traz arranjos de Rogério Duprat e Chiquinho de Moraes, tendo sido gravado em Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro, entre abril e maio de 1969. Aqui, Gil continua abraçando a Tropicália, mas faz questão de experimentar de tudo, o que talvez torne algumas canções “demasiadas” se olharmos para o todo do disco, com seus momentos mais “comerciais” (porém excelentes, como a principal canção do projeto e uma das mais conhecidas do repertório do cantor, Aquele Abraço). Além de diversos experimentos há aqui uma forte presença futurista/tecnológica, uma espécie de fuga do artista diante da situação em que ele se via, entre a prisão pelos militares, a violação de seu corpo, a futura prisão domiciliar e seguinte exílio. A máquina, aqui, é uma forma de substituir o homem e seus horrores feitos a outros. E como contraponto, existe também uma forte presença de elementos familiares, principalmente em Volks-Volkswagen Blue, onde o artista cita a ex-mulher, as filhas, os pais e a irmã, baseado na memória de um passeio no “carrinho azul” do pai.

Cérebro Eletrônico, que abre o álbum, foi composta na prisão e opõe em um rock com grande arranjo para metais a capacidade sentimental humana e a capacidade “de servir sem questionar” das máquinas. Aquilo que separa a humanidade da frieza dos “botões de ferro e seus olhos de vidro“. Aquele Abraço começou a ser composta por Gil em uma visita de despedida a Mariah Costa, mãe de Gal, e foi terminada no avião, com uma melodia simples, “quase blues“, como disse o cantor em entrevista, memorizada para ser formalizada depois, dando origem a um dos sambas mais populares do Brasil e uma das canções mais tocadas e conhecidas de Gilberto Gil. 17 Légua e Meia, de Humberto Teixeira e Carlos Barroso é uma mistura de baião com prog-rock que chama mito mais atenção pelo instrumental do que pela letra, assim como A Voz do Vivo, de Caetano, esta, a única faixa do álbum que eu não gosto.

Vitrines é uma abordagem musical e liricamente romântica de Gil para uma breve história de amor que ele teve com uma garota de olhos azuis, na Espanha. Uma faixa que é quase uma declamação, com a maior parte dos versos acompanhado por uma flauta, que também se destaca nas pontes entre os blocos de ritmos diferentes, juntamente com o violão. 2001 é a regravação de uma canção dos Mutantes, uma faixa composta por Tom Zé e completada por Rita Lee, em uma abordagem de rock mais sujo, também experimental mas não musicalmente tão complexa como a versão dos Mutantes. Futurível (neologismo de futuro + possível) pode desagradar alguns pela forma como o verso “a felicidade é feita de metal” é cantado, mas a escolha do cantor é perfeita para exemplificar essa mutação do homem que ele imagina no futuro, trazendo bases jazzísticas para um mar de distorções de guitarra, metais e sobreposição de vozes, um verdadeiro caos futurista colocado brilhantemente em música. Gil sendo genial, mais uma vez. E para finalizar, Objeto Semi-Identificado, uma leitura de trechos dos diários de Gil e Rogério Duarte com uma colagem musical e um grande número de efeitos, uma forma “pessoal e secular” de finalizar um disco chamado Cérebro Eletrônico.

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5. Copacabana Mon Amour (1970)

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Mangueira, it is so high
A noite inteira it will be so fine
Favela it is so nice
Beco da fome, it will be so fine

John Lennon it´s got too long
Rock´n roll it will be so fine
Morena i am so glad
Because i love you it will be so fine
Tomorrow vai ser bacana
To have a rest vai ser bacana
Bacana, bacana, bacana, bacana

Gravado em Londres, durante o exílio de Gil, esta foi a primeira trilha sonora encomendada ao cantor, na ocasião, pelo cineasta Rogério Sganzerla, para constar no filme Copacabana Mon Amour (1970). O disco tem apenas seis faixas, sendo duas versões de Diga a Ela (que abre e fecha o projeto, com abordagens vocais e musicalidades diferentes, quase um exercício de Tema & Variações) e ainda Mr. SganzerlaBlind FaithYeh Yeh Yah YahTomorrow Vai Ser Bacana. O álbum foi gravado em dois canais, tendo um efeito duplo porque Gil repetiu a gravação de voz e violão para soar como dobra, resultando em um efeito de riqueza musical bastante peculiar.

O processo de mixagem também aconteceu no mesmo estúdio (o IBC Studios, de Londres), com Gil como produtor, que depois da gravação de voz e violão acrescentou percussão, além de contar com David Linger como flautista convidado para abrilhantar e adoçar algumas canções. O resultado é um álbum que ao mesmo tempo que traz um forte cheiro de Brasil, dá a entender que quer distanciar-se, fugir da terra então dominada pelos militares. A obra traz momentos de belas passagens rítmicas — o fato de as faixas serem longas abre as portas para isso — e em cada nova nuance, uma adição de frase cantada ou de um instrumento é elencada pelo cantor e compositor. Infelizmente, uma parte do processo acaba parecendo uma volta em círculos, especialmente no uso constante da flauta para sessões com distintas marcações de tempo e instrumentos de percussão, impasse que não torna o disco ruim, mas certamente impede que ele brilhe mais.

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6. Nêga (1971)

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The first mushroom
Makes room for my mind
To get inside the magic room
Of Dionisius’ house.

Gravado no Chappell’s Studios, em Londres, Gilberto Gil: Nêga foi um disco de exílio. Este momento de Gil lhe trouxe um amplo aprendizado musical, estimulado pela saudade de casa, o que fez deste álbum de 1971 um projeto cheio de saudade, talvez o mais romântico do cantor, que mesmo tendo diversas ideias a respeito das questões políticas do país — vale lembrar que ele tinha sido preso e estava em exílio político — deixou evidente a sua veia mais pessoal, muito ligada a sentimentos, a viagens lisérgicas, a encontros musicais, mimos familiares, laços. Sob produção de Ralph Mace, com uma toada triste, introspectiva, Nêga nos traz momentos de Tropicália, MPB, psicodélico e experimental, tendo apenas uma canção — das oito do projeto — não composta, em solo ou em parceria, por Gil: Can’t Find my Way Home, a segunda faixa, originalmente de Steve Winwood.

O álbum se abre com Nega (Photograph Blues), que faz valer o título, tanto na abordagem bastante visual na letra — que é simples, mas evocativa de um momento do eu-lírico com essa “Nêga” — quanto na parte musical, que tem, assim como em todas as faixas aqui, Gil na percussão, violão e guitarra e Chris Bonett no baixo. Pulando para a terceira, temos The Three Mushrooms, minha favorita, que começa com um assobio, nos preparando para uma viagem pelo mundo fantástico (e realista, intimista) de Alice. Uma viagem que conta com uma excelente quebra rítmica para cada cogumelo que Gil prova ao longo do processo, uma fantástica parceria com Jorge Mautner, que volta a  acontecer na faixa seguinte, Babylon, encerrando o Lado A, a parte mais londrina do disco.

O LADO B começa com Volks-Volkswagen Blue, versão em inglês da faixa de Cérebro Eletrônico, que realmente dá o tom mais brasileiro dessa segunda parte, a melhor do projeto. Em Mamma (depois gravada por Arnaldo Antunes, numa versão da qual eu só gosto da música, mas não da interpretação do cantor) é uma triste canção de despedida de um filho, que pode ser lida de duas formas diferentes, considerando uma partida forçada ou outra aventureira, aí vai de cada ouvinte. One O’Clock Last Morning, 20th April 1970 é uma crônica com uma porção de brincadeiras vocais (algo que o cantor incorporaria em muitas de suas canções seguintes) e um violão ágil, marcando o avançar do tempo, criando um clima musical que se adapta perfeitamente ao relato da letra. O encerramento vem com o flerte abrasileirado com os Rolling Stones em Crazy Pop Rock, a faixa mais agitada, parceria com Jorge Mautner sabiamente escolhida para fechar o projeto com uma nota de otimismo, de vontade de viver, de dançar. A maneira certa de terminar uma viagem que começou de maneira triste.

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7. Expresso 2222 (1972)

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Começou a circular o Expresso 2222
Que parte direto de Bonsucesso pra depois
Começou a circular o Expresso 2222
Da Central do Brasil
Que parte direto de Bonsucesso
Pra depois do ano 2000.

Era de se esperar que o disco de retorno de Gil ao Brasil, após o exílio, representasse musicalmente o seu contato com o rock e combinações musicais com as quais ele teve contato no exterior. Assim surgiu Expresso 2222, produzido por Guilherme Araújo e Roberto Menescal, como uma entrada definitiva da influência de Beatles, Rolling Stones e até Jimi Hendrix na discografia de Gilberto Gil, que cria nesse disco um tapete tropicalista (um pouquinho ainda atrapalhado) cheio de cores da Bossa Nova, do forró, do baião, do samba e do rock. Já na abertura, temos a instrumental Pipoca Moderna, composta por Caetano e Sebastião Biano, com a participação da Banda de Pífanos de Caruaru. Back in Bahia é uma sopa musical e poética, cantada na base do versejar nordestino, como embolada e galope. Sobre a faixa, Gil comentou, anos depois: “Era o primeiro verão na Bahia depois que eu tinha voltado de Londres, e eu fui à festa de Nossa Senhora da Conceição em Santo Amaro da Purificação. Eu estava na casa onde Canô, mãe de Caetano, estava dando a festa; vendo as pessoas queridas e a alegria que emanava delas, da lembrança da saudade que eu sentia dessas e outras coisas em Londres veio o impulso para escrever a canção – que eu comecei ali, letra e música juntas, de cabeça, e complementei no dia seguinte, já na casa de Sandra, na Graça, em Salvador“.

O Canto da Ema é a versão de Gil para uma música de Ayres Viana, Alventino Cavalcanti e João do Vale, novamente misturando o cancioneiro típico do Brasil, desta vez, com xaxado e rockChiclete com Banana é a regravação do cantor para uma composição de Gordurinha e Almira Castilho, já cantada por Odete Amaral em 1958 e Jackson do Pandeiro em 1959. Ele e Eu é a única faixa do disco que eu realmente não gosto. Para mim, é muitíssimo deslocada aqui. Simplesmente não me desce. Sai do Sereno, composição de Onildo Almeida, tem participação de Gal Costa e elenca uma melodia que casa diretamente com os “cantos das baianas”. A principal e melhor faixa do álbum, Expresso 2222 é um misto de baião com adição de violão e componentes de música nordestina e até africana (na percussão) que transpira a noção de ritmo de uma locomotiva, e também pode ser explicada como um caminho para “viagens” causadas pelo uso de drogas. Sobre o tal “2222”, para além da metáfora, Gil disse: “Da infância até a idade adulta eu fiz muita viagem de trem, que era um dos meios de transportes fundamentais para nós da Bahia. Os trens da Companhia Leste Brasileira – e outros – saindo e entrando nas estações, em Salvador, em Ituaçu, em Nazaré das Farinhas, me marcaram. Não sei por que cargas d’água, essa repetição do 2 era algo de que eu estava impregnado; alguma locomotiva, de número 222, que eu vi, ficou na minha cabeça e, quando comecei a letra, a primeira imagem que me veio foi dela“.

Fechando o álbum temos O Sonho Acabou, que vem de God, de John Lennon, mas também de uma despedida que deixara o cantor melancólico, no final de uma edição do Festival de Glastonbury, no Reino Unido. Essa relação também pode ser feita, em uma segunda interpretação, para o chamado “Fim de uma Era”, olhando para as mudanças do ideal da juventude dos anos 60. Por fim, Oriente, que fecha o disco em uma nota íntima, com um olhar de Gil para si próprio, com seu retorno à casa (ainda bagunçada) e as perspectivas do que ele poderia fazer, como artista, como pessoa que critica, sob aquele regime. Há até uma pontada de ironia na faixa, mas não se trata de uma canção cínica em relação ao mundo à sua volta. Expresso 2222 é um marco na carreira de Gilberto Gil e também de nossa MPB.

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8. Cidade do Salvador (1974)

Disco 1

Disco 2

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Representações de cenas proibidas
Obcsenas obsessões
No ateliê da louca varrida
Vivendo, varrendo os salões.

Disco duplo, com 22 canções (13 no primeiro e 9 no segundo) Cidade do Salvador foi gravado nos estúdios da Phonogram, entre fevereiro de 1973 e fevereiro de 1974, com Gil e Marcelo Fróes como produtores. De uma maneira mais orgânica (especialmente no segundo disco), temos experimentos musicais como uma versão mais madura de Expresso 2222, dando ainda mais atenção a questões nacionais. Se tirarmos de cena a faixa Minha Nega na Janela (canção bem ruim e de ideias questionáveis de Germano Mathias e Doca — me espanta Gil ter escolhido gravá-la) e a conceitualmente boa, mas absurdamente muito esticada Meio-de-campo, temos um primeiro disco cheio de brasilidade, de cores musicais, variedade de instrumentos, andamentos e significados. Começamos já a sentir o bom clima a partir da segunda faixa, Eu só Quero um Xodó, de Dominguinhos e Anastácia, um forró que ganha ampla luminosidade no arranjo e voz de Gil. Em seguida, as muitíssimo inventivas Edyth CooperUmeboshi, cada uma mostrando um lado musical do cantor, quase como preparação para uma faixa mais experimental (e irônica) como Essa é Pra Tocar no Rádio.

Tradição é uma memória musical — da qual eu gosto muito mais da música do que da letra — que o próprio Gil definiu como: “Para dar um sentido aristocratizante a um tempo e espaço (Bahia, anos 50) da minha história social; uma qualificação nobilizadora a uma realidade, somente possível a posteriori, a partir de um olhar que se deslocou para um plano superior. ‘Tradição’ é um título afastado, um sobrevoo, elevando com ele o conceito do cotidiano relatado. (É como Caetano falando de Santo Amaro da Purificação em ‘Trilhos Urbanos’; a ambição aristocrática é a mesma. Em ‘Tradição’, Lessa, o goleiro do Bahia, é um nobre.). ‘Tradição’, também, para dar a ideia de uma mentalidade de época; de um modo tradicional de um agrupamento social da cidade de Salvador que se pereniza ou que se transforma; para sugerir como uma célula cultural se reproduz num macro-organismo social; e ‘tradição’, ainda, no sentido da importância, na minha formação, de tudo o que a letra retrata — no sentido, portanto, do meu compromisso afetivo com aquilo.“. Na sequência, o samba Ó Maria, que serve de ponte para algumas mudanças no fim do primeiro disco, como já se vê em A Última Valsa (Gil e Rogério Duarte), com o cantor em vocais muito graves; a icônica Ladeira da Preguiça (posteriormente imortalizada na voz de Elis Regina); Rainha do Mar (de Dorival Caymmi); a épica e maravilhosamente experimental Iansã, de Gil e Caetano e, fechando com chave de ouro, Doente, Morena, de Gil e Duda Machado.

Já a partir de Cidade do Salvador, que sabre o disco 2 do projeto, temos uma cara bem diferente do que foi apresentado antes. Indícios disso já haviam aparecido em Doente, Morena, mas aqui, o foco realmente está amplo, mais world music possível, o que não significa que não hajam abordagens de gêneros, claro. Imbalança, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas ganha aqui uma ótima versão em samba e ingredientes de música afro. Duplo Sentido e a excelente Preciso Aprender a Só Ser servem de contato com “o público exterior”, flertando com canções dos anos 50, mas claramente marcadas por uma levada madura e musicalmente plural de Gil. Duas versões de Maracatu Atômico, de Jorge Mautner e Nelson Jacobina, aparecem aqui. Uma, como em um ensaio, onde Gil erra a levada — aliás, o álbum está cheio de ótimos trechos de bastidores de estúdio, com ele contando o tempo e falando algo sobre a execução em algumas faixas — e outra com a execução completa. Das três faixas finais, Todo Dia é dia D (Torquato Neto e Carlos Pinto) e Esses Moços (Pobres Moços), de Lupicínio Rodrigues, são verdadeiras pérolas de interpretação. Já Meditação, infelizmente, quebra a visão geral do disco, por ser apenas instrumental. Pelo que foi apresentado antes, a faixa se torna vazia aqui. Ela voltaria aparecer, porém, em Refazenda, com outro arranjo musical e com letra.

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9. Gil & Jorge: Ogum – Xangô (1975)

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Omolu, Ogum, Oxum, Oxumaré
Todo o pessoal
Manda descer pra ver
Filhos de Gandhi.

Iansã, Iemanjá, chama Xangô
Oxossi também
Manda descer pra ver
Filhos de Gandhi.

Ouvir Gil & Jorge: Ogum – Xangô é uma espécie de “tortura de luxo” com um tsunami de excessos vindos de dois grandes artistas de nossa música. Uma hora e vinte minutos de disco. Nove faixas. E isso já diz algo óbvio sobre ele, expondo o verdadeiro erro deste que, por muitos, é considerado “um primor de experimentalismo e minimalismo“, mas que não passa de um loop de canções inicialmente maravilhosas, mas estragadas porque parece que nunca chegam ao fim. O resultado? À medida que o tempo avança não há percussão, onomatopeias e talento musical que deixe o ouvinte preso ao conceito do disco. A proposta só funcionaria, nessa roupagem, de uma forma: se os versos fossem espalhados pela canção inteira, contendo sessões de variações instrumentais e rítmicas onde as estrofes caberiam. Assim, com longas linhas instrumentais e versos em variação ao longo do tempo, nossa paciência não seria testada até o limite. E aqui é importante dizer que não ponho em xeque a capacidade dos artistas, mas sim da produção do disco, a cargo de Paulinho Tapajós e Perinho Albuquerque.

O curioso é que em uma análise de sua obra, Gil comentou que não estava muito feliz com o resultado de Cidade do Salvador porque, dentre um dos motivos, “as músicas eram muito longas“. Daí chegamos a Ogum – Xangô e vemos que nesse caso sim, há uma extensão absurdamente desnecessária de quase a totalidade do álbum. Quando olhamos para a junção de Gil e Jorge Ben em músicas como Taj MahalMorre o Burro Fica o Homem, ambas precisando de um corte de metade de seu tempo original, vemos que esse é o tipo de caso onde se pode afirmar com propriedade que “as músicas eram muito longas“. O momento onde isso QUASE funciona o tempo inteiro é em Filhos de Gandhi. No todo, o disco é de um grandioso, rigoroso e aplaudível conceito musical, mas o excesso simplesmente não funcionou. Pelo menos para mim. Além das faixas já citadas, temos aqui regravações de Meu Glorioso São CristóvãoNêga (Photograph Blues), Jurubeba (a pior do disco), Quem Mandou (Pé na Estrada)Essa é Pra Tocar no Rádio e Sarro (única faixa curta, com pouco mais de um minuto).

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10. Refazenda (1975)

gilberto-gil-refazenda plano critico mpb

Abacateiro
Serás meu parceiro solitário
Nesse itinerário
Da leveza pelo ar
Abacateiro
Saiba que na refazenda
Tu me ensina a fazer renda
Que eu te ensino a namorar.

Refazendo tudo
Refazenda
Refazenda toda
Guariroba.

Produzido por Mazola, com coordenação musical e arranjos de orquestra por Perinho Albuquerque e arranjos de base pelo próprio Gilberto Gil, Refazenda é o primeiro álbum da TRILOGIA RE, completado por Refavela (1977) e Realce (1979). Aqui, o cantor e compositor está mais ciente do caráter antropofágico de sua veia poética e musical e, por isso mesmo, conseguiu trabalhar com muita competência a música brasileira, sem jamais se separar das influências de seu período no exílio (já trabalhadas em estúdio, em Expresso 2222 e com um início de “desintoxicação” em Cidade do Salvador). Numa análise conceitual, o próprio Gil deixou claro: “[…] eu já trago a experiência com o violão ovation, com as novas tecnologias e com os novos pedais, para tocar coisas mais ligadas ao original nordestino. E o acordeom de Dominguinhos serve para manter presente o espírito do baião. Eu vinha de uma aproximação muito grande com o rock, mas dei marcha-ré e me afastei dessa ponta da seta, voltando lá pro fundo da história. Não estava necessariamente solitário nisso, pois todo o pessoal que estava começando — como Alceu Valença e Geraldinho Azevedo — estavam de uma certa forma com um compromisso com a música regional“. Esse pendor nacional revestido de influências já pode ser ouvido em Ela (cuja segunda parte e finalização são melhores que a primeira) abertura do projeto, e se fixa logo a seguir, com a inesquecível Tenho Sede, de Dominguinhos e Anastácia.

Na terceira faixa, temos uma das coisas mais interessantes e liricamente bem ritmadas do catálogo de Gil. Sobre esta faixa que dá título ao disco, o cantor explicou: “Refazenda resultou de uma justaposição de nonsenses. Começou com um brainstorm com sons: fui aleatoriamente escolhendo palavras que rimassem e cheguei a um embrião interessante […] O esboço era maior e muito mais absurdo: não tinha sentido nenhum! Aos poucos fui criando sentidos parciais a certas frases, até desejar um sentido geral para todas. Os versos foram feitos antes da música, obedecendo a um ritmo que eu tinha na cabeça. Para o primeiro, escolhi o alexandrino, um dos preferenciais do cantador nordestino, pois queria a priori uma canção com esse direcionamento country“. O chorinho do álbum, Pai e Mãe, é uma das coisas mais delicadas em termos de demonstração de afeto entre amigos que temos em nossa música. Existe uma clara relação de dupla interpretação possível na letra, para relações homoafetivas, mas é importante destacar a intenção puramente sentimental do compositor, que chegou a falar da gênese da canção: “composta no dia em que eu completei 33 anos, 26 de junho de 1975. Uma música de confissão de afeto profundo pelos pais, colocando todos os homens queridos como sendo um prolongamento do pai e todas as mulheres amadas como um prolongamento da mãe. Meus pais moravam em Vitória da Conquista na época e festejaram muito a canção“.

Jeca Total, que faz uma casadinha com outras duas faixas do disco, traz um olhar de Gil para as “fases” de um homem simples, em suas mais diversas condições de vida. Essa é Pra Tocar no Rádio, de Cidade do Salvador, também aparece aqui, e na sequência, Ê, Povo, Ê, a que eu menos gosto de todo o disco. Em seguida vem Retiros Espirituais, uma faixa tão bela (e brincando com Banho de Lua, de Celly Campello) que chega a emocionar. Gil comentou — de maneira consideravelmente complexa — a respeito: ” […] lança um olhar singelo, simplório, sobre a questão filosófica do ser e não ser; sobre o paradoxo do princípio da incerteza, do que é e não é. É uma das minhas músicas sobre o wu wei, a ação-não-ação, a ideia de superação e alcance do ser, onde tudo é; sobre o fato de que o pensamento consciente, sob a égide da volição, ainda é o que se chamaria o estágio zen, o satori, o samadhi, o sat ananda indiano, onde arqueiro, arco e alvo se confundem e sujeito, ato e objeto são uma só coisa“. Da tríade final, composta por O Rouxinol (Gil e Jorge Mautner), Lamento Sertanejo (Gil e Dominguinhos) e Meditação, o destaque absoluto vai para a delicada obra-prima Lamento Sertanejo, ápice da parceria com Dominguinhos nesse disco, uma faixa que só poderia vir mesmo nesse álbum de relação do homem com a sua terra, o seu lugar, o seu espaço… Um desabafo doloroso do indivíduo antes de empreendida a Refazenda.

RANKING (Gilberto Gil, álbuns 1 a 10)

Álbum

Faixa Favorita

10º   Gil & Jorge: Ogum – Xangô   —
  Copacabana Mon Amour   Blind Faith
  Expresso 2222   Expresso 2222
  Salvador, 1962 – 1963   Maria Tristeza
  Nêga   The Three Mushrooms
5º    Cidade do Salvador   Edyth Cooper
  Cérebro Eletrônico   Cérebro Eletrônico
  Refazenda   Refazenda
  Louvação   Rancho da Rosa Encarnada
  Frevo Rasgado   Coragem Pra Suportar

 

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.