Entenda Melhor | Kurosawa e a Literatura

Não é segredo para ninguém que Akira Kurosawa tinha os dois pés na literatura, e que parte de suas obras são adaptações livres ou relativamente fieis de livros ocidentais e orientais. Leitor ávido de Shakespeare, literatura russa em geral e livros policiais americanos, Kurosawa concebeu alguns de seus roteiros tendo em mente histórias que já conhecia, tramas que havia lido e imaginado sua presença na tela. O propósito desse Entenda Melhor é trazer as adaptações literárias realizadas no cinema pelo mestre japonês em sua filmografia.

Trouxemos apenas os filmes cuja base é a literatura, mas que foram dirigidos por Kurosawa. Os inúmeros roteiros escritos pelo diretor mas que não tiveram sua direção não foram inclusos nessa abordagem. Excluímos também o seu último filme, Madadayo (1993), que é baseado em ensaios do escritor e professor japonês Hyakken Uchida (1889 – 1971). O motivo da exclusão foi a dificuldade de encontrar os ensaios que serviram de base para o roteiro, e assim estabelecer uma relação direta com a obra cinematográfica. De qualquer modo, eis aqui a citação.

Desejamos a todos uma boa leitura.

1943 – A Saga do Judô

Leia a crítica do filme.

Tanto A Saga do Judô, estreia de Kurosawa na direção, quando A Saga do Judô 2 (1945) são adaptações da obra de Tsuneo Tomita, Sugata Sanshiro. A obra é focada na diferenciação, dualidade e torneios entre os lutadores de jiu-jitsu e os judô, trazendo uma realidade dramática cuja personagem principal é baseada na vida de Saigo Shiro, judoca que foi responsável pela difusão do judô em seus primeiros anos. Existem outras versões para Sugata Sanshiro além dos filmes de Kurosawa:

1955 – com direção de Shigeo Tanaka; 1965 – com direção de Seiichirô Uchikawa; 1970 – com direção de Kunio Watanabe; 1977 – com direção de Kihachi Okamoto.

Nota: Tsuneo Tomita, o autor do livro, é filho do primeiro discípulo de Jigoro Kano, o criador do judô.

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1945 – Os Homens Que Pisaram na Cauda do Tigre

Leia a crítica do filme.

Filme de 1945, Os Homens que Pisaram na Cauda do Tigre tem como fonte literária uma peça do Teatro Kabuki, A Lista de Assinaturas (Kanjincho), escrita por Namiki Gohei III (1789 – 1855). A peça tem uma enorme popularidade no mundo do teatro kabuki e foi adaptada de maneira muito inteligente por Kurosawa, que manteve a maior parte dos elementos narrativos originais, inclusive a celebração que ocorre na reta final, após a passagem pelo portão que está sob vigia.

Escrita e encenada por volta de 1840, A Lista de Assinaturas é baseada em uma obra do Teatro Nô chamada Ataka.

Nota: a peça é uma das mais populares do Teatro Kabuki moderno.

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1949 – Duelo Silencioso

Leia a crítica do filme.

Neste filme, Kurosawa parte da peça teatral de Kazuo Kikuta, autor que teve outras de suas obras adaptadas para a grande tela e com diretores icônicos guiando o projeto, como Mikio Naruse e Kon Ichikawa. Kurosawa viu um grande potencial na história do médico que contrai sífilis enquanto realiza uma operação em um paciente e passa a ter de conviver com uma doença cujo tratamento era realmente difícil na época.

O filme foi o segundo da parceria entre Kurosawa e Toshiro Mifune, e traz muitos elementos da peça, com filmagens em cenários fechados, dando-nos uma sensação claustrofóbica e trazendo um pouco da dinâmica presente no palco para o cinema.

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1950 – Rashomon

Leia a crítica do filme.

Considerado a primeira obra-prima de Akira Kurosawa, Rashomon é uma daptação de dois contos escritos por Ryūnosuke Akutagawa (1892 – 1927). A grande quantidade de detalhes contidos nos contos e a exploração da natureza humana (em seus dois lados principais) permitiu a Kurosawa realizar uma obra muito abrangente em termos de psicologia das personagens e de trama (ou tramas) central.

O principal conto adaptado é Dentro de Um Bosque, publicado em 1922. A obra retrata sete versões diferentes para o assassinato de um samurai. Já Rashomon é um conto de 1914, e fornece a ambientação geral da história do filme.

Nota: Ryūnosuke Akutagawa é considerado o pai do conto japonês.

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1951 – O Idiota

Leia a crítica do filme.

O Idiota é a adaptação da obra homônima de Fiódor Dostoiévski (1821 – 1881). Kurosawa sempre foi um grande admirador da literatura russa e voltaria a adaptar mais uma obra do antigo país dos czares apenas seis anos depois. Dostoiévski, um dos maiores romancistas russos, foi também um grande inovador, sendo atribuído a ele o surgimento do existencialismo na literatura, em Notas do Subterrâneo.

O Idiota foi publicado em 1869, e sua ideia original partiu de uma notícia de jornal. Já a sua personagem principal, o Príncipe Míchkin é uma mistura de Cristo com Dom Quixote. O livro foi muito bem recebido à época de seu lançamento e teve pelo menos outras 10 adaptações para o cinema e para a TV, além do presente filme de Kurosawa.

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1957 – Trono Manchado de Sangue

Leia a crítica do filme.

Esta película de 1957, marca a incursão de Kurosawa no mundo shakespeariano. O filme é a adaptação da tragédia Macbeth, de William Shakespeare (1564 – 1616). Macbeth é uma tragédia curta, e narra as consequência de um regicídio. A obra já recebeu incontáveis montagens nos palcos e muitas adaptações cinematográficas. A versão de Kurosawa é tida como a melhor visão no cinema sobre essa obra de Shakespeare.

Por este filme, Kurosawa recebeu uma indicação ao Leão de Ouro no Festival de Veneza, perdendo o prêmio para o indiano Satyajit Ray. O filme arrebatou alguns prêmios de festivais asiáticos importantes.

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1957 – Ralé

Leia a crítica do filme.

Kurosawa volta-se mais uma vez para a literatura russa, desta vez, para um divisor de águas entre as gerações literárias de seu país de origem, o escritor Máximo Gorki (1868 – 1936). Ralé foi escrito em 1901, ano em que Gorki também lançaria Pequenos Burgueses, uma de suas obras mais icônicas. Trata-se de uma peça sobre o convívio de pessoas em situações diversas e em um ambiente pouco convidativo.

Ao lado de Hideo Oguni, Kurosawa transporta as questões expostas na peça de Gorki para o Japão do Período Edo, mas essas mesmas situações podem também ser aplicadas ao Japão dos anos 1950, com as comunidades periféricas se proliferando, bem como a insalubridade e as dificuldades dos japoneses afastados dos grandes centros urbanos que estão se desenvolviam a olhos vistos.

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1962 – Sanjuro

Leia a crítica do filme.

Sanjuro é a sequência temática de Yojimbo, outro grandioso filme de Kurosawa. Em Sanjuro, temos a adaptação da obra Nichinichi Heian, de Shugoro Yamamoto (1903 – 1967). Kurosawa gostava muito das obras de Yamamoto, e chegou a adaptar outras de suas obras no decorrer da carreira.

Shugoro Yamamoto era o pseudônimo de Satomu Shimizu, escritor que durante seu período de atividade escreveu sob cerca de 15 diferentes pseudônimos. Inicialmente escreveu obras para crianças e só ao longo dos anos adentrou à literatura para outros públicos como podemos ver em suas obras de aventuras para adolescentes, histórias de detetive para adultos ou histórias de guerra com samurais ou mulheres heroínas.

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1963 – Céu e Inferno

Leia a Crítica do filme.

Filme de 1963, adaptação do romance de Evan Hunter (1926 – 2005), King’s Ransom (1959).

Hunter era um escritor novaiorquino de quem Kurosawa gostava muito. Na verdade, o nome Evan Hunter é um dos muitos pseudônimos do autor, que também assinava como Ed McBain. Como Evan Hunter, o escritor chegou a escrever o roteiro de Os Pássaros (1963), de Alfred Hitchcock, numa adaptação da obra de Daphne Du Maurier.

Com este filme Kurosawa recebeu mais uma indicação ao Leão de Ouro, além de um prêmio Especial no Globo de Ouro e outras premiações em festivais menores como o Edgar Allan Poe Awards.

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1965 – O Barba Ruiva

Leia a crítica do filme.

Filme divisor de águas na carreira de Kurosawa, O Barba Ruiva é uma adaptação do romance Akahige Shinryô Tan, de Shugoro Yamamoto, escritor de quem já adaptara uma obra, Nichinichi Heian, que deu origem ao filme Sanjuro.

Adaptado no século XIX, o filme traz elementos muito caros ao mestre Kurosawa, mas enfrentou muitos problemas de produção, o que marcou o filme da parceria entre o diretor e Toshiro Mifune, que após as filmagens de O Barba Ruiva seguiriam brigados por mais de 30 anos.

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1970 – Dodeskaden

Leia a crítica do filme.

Mais uma adaptação de um romance de Shugoro Yamamoto, desta vez, o tocante Kisetsu no nai Machi. O livro narra uma história de convívio entre as pessoas no subúrbio de Tóquio, no Período Edo. Essa história será adaptada por Kurosawa com uma peculiaridade tremenda, apontando elementos do Japão da década de 1970, que então começava…

O filme foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, perdendo o prêmio para O Jadim dos Finzi Contini, de Vittorio De Sica.

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1975 – Dersu Uzala

Leia a crítica do filme.

Baseado na obra homônima do escritor russo Vladimir Arsenyev (1872 – 1930), Dersu Uzala venceu o Oscar de Melhor Filme estrangeiro e levou o prêmio do Moscow Film Festival, além de diversos outros festivais para os quais recebeu indicações.

Além de escritor, Arsenyev era explorador, naturalista e cartógrafo, o que fica muito claro nas páginas do livro, que traz a beleza da paisagem da Sibéria Oriental, além do surgimento de uma forte amizade entre os protagonistas.

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1980 – Ran

Leia a crítica do filme.

De volta ao teatro de William Shakespeare, Kurosawa traz em Ran a aclamada peça Rei Lear, escrita entre 1605 e 1606 (contando com a reimpressão revisada). O filme recebeu quatro indicações ao Oscar e acabou levando uma, a de Melhor Figurino.

A história de um patriarca idoso que deseja dividir o seu reino entre os filhos é trazida por Kurosawa, como sempre, para a realidade japonesa, desta vez, no século XVI.

O diretor Chris Marker acompanhou Kurosawa em parte das filmagens de Ran, e esta convivência gerou o documentário A.K., um filme que nos mostra um pouco do grandioso trabalho de produção desta obra-prima do mestre japonês.

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1991 – Rapsódia em Agosto

Leia a crítica do filme.

Penúltimo filme de Kurosawa, Rapsódia em Agosto é uma adaptação do romance de Kiyoko Murata intitulado Nabe no Naka.

O filme aborda um lado sensível da memória dos povos que é a lembrança da guerra. Como é uma obra que chama a atenção para a paz e para os horrores a longo prazo de um aguerra, há um forte sentimento de perda e reconstrução, mas ao mesmo tempo, de fascínio, uma vez que Kurosawa traz eventos fantásticos para a obra, tornando-a sensível e atemporal.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.