Entenda Melhor | Legião Urbana – Discografia

plano critico fotografia da primeira formação da Legião Urbana discografia plano critico

Uma baquetada. Esta foi quase a gota d’água para a quebra de Renato Russo com sua banda formada em 1978, o Aborto Elétrico (parte da “Turma da Colina”, o movimento de bandas de Brasília fundadas no fim dos anos 70/início dos anos 80, junto com Plebe Rude e Os Paralamas do Sucesso). A briga com o baterista Fê Lemos se deu porque Renato errou a letra de Veraneio Vascaína e, em pleno show, tomou a famosa baquetada na cabeça. Lemos já estava irritado com o amigo, porque ele havia sumido no início do show, e o erro parece ter sido um dos modos de descontar a raiva.

Mas o real fim do Aborto se deu meses depois, quando outra briga entre Russo e Lemos aconteceu por causa da música Química. A banda acabou em 1981 e um show de despedida foi realizado em março de 1982. Dali para frente, Fê Lemos, o irmão Flávio Lemos e Dinho Ouro Preto formaram o Capital Inicial. Renato Russo seguiu algum tempo com apresentações sozinho, como o nome de “Trovador Solitário”. Em agosto de 1982, surgia a Legião Urbana, que em sua primeira apresentação, um mês depois, trazia a seguinte formação:  Renato Russo (vocal e baixo), Marcelo Bonfá (bateria), Paulo Paulista (teclado) e Eduardo Paraná (guitarra). Ao longo dos anos a Legião teve os seguintes integrantes:

A discografia (de estúdio) da Legião é pequena, e aqui destacarei, como é de se esperar em um apanhado de discografia, apenas os álbuns de estúdio. De todo modo, vale um olhar en passant pelos discos ao vivo, alguns deles bastante queridos pelo público, como o Música Para Acampamentos (1992), um álbum duplo com gravações ao vivo ou feitas pela Legião para programas de rádio e televisão entre 1984 e 1992. E o realmente bombado e incrível Acústico MTV (1999), gravado na antiga boate Hippodromo, em São Paulo, no dia 28 de Janeiro de 1992. Daí seguem-se Como É que Se Diz Eu Te Amo (2001), gravado entre 8 e 9 de outubro de 1994, no Metropolitan, Rio de Janeiro. As Quatro Estações ao Vivo (2004), gravado em agosto de 1990, no Estádio Palestra Itália (Parque Antártica), São Paulo; e em junho de 1990, no Estádio Jornalista Felipe Drummond (Ginásio Mineirinho), Belo Horizonte. Legião Urbana e Paralamas Juntos (2009), gravado em 3 de setembro de 1988. E, para não ficar de fora da lista, o álbum-homenagem Concerto Sinfônico – Legião Urbana ao Vivo No Rock In Rio (2011).

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1. Legião Urbana (1985)

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Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação

Geração Coca-Cola

Lançado em 2 de janeiro de 1985, pela EMI Music, e gravado entre outubro a dezembro de 1984, Legião Urbana foi o disco de estreia da banda e trazia uma mensagem geral bastante politizada, firmando os pés no pós-punk e faixas de rock alternativo. Considerando o restante da discografia da Legião, temos aqui um disco bastante diferente, tanto no tom das letras e qualidade poética — aqui, mais rústica, propositalmente agressiva e, por isso mesmo, menos polida na forma de expor determinadas situações –, quanto no trabalho e cuidado musical. Importante lembrar que a Legião nunca foi uma banda rica em termos de música e Renato Russo brincou com isso inúmeras vezes em shows (vide a “piadinha dos quatro acordes” que ele faz da própria banda, no Acústico MTV) e também em entrevistas.

O álbum, que tem duração de pouco mais de 37 minutos, começa com Será, faixa escolhida como música de trabalho para a divulgação do disco. A faixa também teve um clipe gravado no final de maio de 1985, na Rose Bom Bom (SP), dirigido por Toniko Melo. Seguem-se A Dança, que traz alusões à famosa festa da Rockonha, onde todo mundo foi preso. Petróleo do Futuro, com sua ironia ao tipo de país e pessoas que temos ou devemos esperar. Ainda É Cedo, outro single do álbum, um dos maiores clássicos da banda. Perdidos no EspaçoGeração Coca-Cola, destaque definitivo e uma das canções mais marcantes de nossa música, com uma mensagem expositiva, flertando com uma típica “quebra de grilhões” ou “nada disso presta”. O ReggaeBaader-Meinhof Blues, trazendo, mesmo que de maneira distanciada, pensamentos e angústias do espírito da Fração do Exército Vermelho, grupo alemão de extrema-esquerda fundado em 1970. Soldados, a música mais longa do disco. Teorema. E, encerrando, Por Enquanto.

  • Minha faixa favorita do disco: Ainda é Cedo.

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2. Dois (1986)

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O que foi escondido
É o que se escondeu
E o que foi prometido
Ninguém prometeu
Nem foi tempo perdido

Somos tão jovens

Embora tenha demorado um pouco para emplacar o primeiro álbum, a Legião não demoraria para alcançar sucesso como banda. Letras sob medida para uma juventude recém-saída de uma Ditadura Militar, críticas às instituições, desilusões diversas e inquietações comuns de qualquer idade, além de inúmeras influências estrangeiras de respeito faziam parte do escopo dos legionários. Lançado em julho de 1986 e gravado entre fevereiro e abril do mesmo ano, Dois é considerado o mais romântico dos álbuns do grupo, e também fez parte da história de vendas na discografia da banda. Na concepção, porém, o disco seria consideravelmente diferente. Renato Russo pensou o trabalho como um lançamento duplo, chamada Mitologia e Intuição, mas um empreendimento desse tamanho para uma banda apenas em seu segundo álbum não animou a EMI. Sob a produção de Mayrton Bahia, Dois foi repensado para uma versão mais “comercial”, e espantou com o sucesso de Eduardo e Mônica, que inicialmente amedrontava, porque não tinha refrão, o que poderia dificultar a música chegar às rádios. Bem… não foi assim que aconteceu.

Mesmo com a influência direta do The Smiths, Dois é marcado por uma linha intimista, trazendo um maior trabalho lírico e um tom menos desesperado — se comparado às mensagens centrais do lançamento anterior da banda. A abertura é com Daniel Na Cova Dos Leões, música que normalmente se interpreta como sendo uma metáfora para o uso e vício de drogas ou para uma cena de sexo (a princípio, oral) entre dois homens. Depois temos Quase Sem Querer, com a representação de um conflito entre razão e emoção/mente e coração. Acrilic On Canvas, faixa que tem uma baita linha de baixo (como Renato Rocha fez falta, quando saiu!). A famosa história de amor repetida à exaustão pelo Brasil, Eduardo e Mônica. A instrumental Central Do Brasil, faixa mais curta do álbum. Tempo Perdido, música de trabalho do disco, cheia de sinceridade e selvageria, que gritam através do eu-lírico.

Metrópole, a faixa mais destoante do trabalho, um punk talvez sério demais para o que o álbum propunha. Plantas Embaixo Do AquárioMúsica Urbana 2, um blues fortíssimo e de um lirismo tocante. Andrea Doria, que faz referência ao SS Andrea Doria, navio que naufragou em 25 de julho de 1956, após se chocar com uma outra embarcação de bandeira sueco-americana, resultando em 51 mortos. Fábrica, uma outra passada pelo território político que cheira a Smiths em tudo. E Índios, que a despeito de uma simples progressão melódica, traz um cenário ainda persistente no Brasil e, na outra interpretação da faixa, no coração e no cinismo de muitas pessoas.

  • Minha faixa favorita do disco: Tempo Perdido.

NOTA: na versão em fita K7 do álbum, veio uma faixa bônus, Química. Mas ela não é parte oficial do trabalho e estaria no disco seguinte do conjunto, Que País É Este 1978/1987, lançado um ano depois.

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3. Que País É Este 1978/1987

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Nas favelas, no Senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a Constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação

Que país é esse?

Gavado em outubro e lançado no fim de novembro de 1987, Que País É Este 1978/1987, produzido por Mayrton Bahia, é um disco que muita gente classifica a “falta de tempo e falta de inspiração que deu certo“. O fato é que depois de Dois, a EMI caiu em cima da banda para que produzissem logo um outro disco, o que sempre acaba sendo um problema para os artistas, muitas vezes resultando em produtos questionáveis, embora este não seja o caso aqui. Todavia, das 9 faixas do disco, apenas Angra dos Reis e Mais do Mesmo são composições pós-Dois. Todo o restante do repertório veio de trabalhos de Renato Russo na época do Aborto Elétrico e de Trovador Solitário. Isso fez desse trabalho um rompimento com o tipo de abordagem que o grupo tinha abraçado em Dois (e, principalmente, que faria depois de Que País é Este) e a entrega de um produto final mais cru (o que não quer dizer “ruim”, como muita gente pensa), para defini-lo de maneira simples e direta. Aqui também marca-se a participação final de Renato Rocha como baixista da Legião. Ele só voltaria a figurar em mais uma faixa da banda, Riding Song, de Uma Outra Estação (1997).

Que País É Este abre o disco. Mesmo tendo sido composta em 1978, fazia sentido para o Brasil de 1987, com todas as suas fraquezas econômicas e nova onda de desesperança política, infelizmente, ainda muito perto do fim da ditadura. Uma polêmica em relação ao riff ser um plágio de I Don’t Care, dos Ramones, foi levantada na época, e Renato Russo tratou a questão com indiferença e cinismo, mas depois disse que realmente se inspirou na referida canção para compor Que País É Este. Depois temos Conexão Amazônica, parceria de Renato com Fê Lemos e que está na linha das faixas engajadas, destacando-se mais pelos vocais. Tédio (Com Um T Bem Grande Pra Você) talvez sirva como “indicador de juventude”, pelo estilo e mensagem, embora já em 1987 não fosse mais um “abalo do sistema”. Depois do Começo, uma que o próprio Renato disse que não gostava, porque a considerava “pretensiosa” e eu concordo com o compositor na parte do “não gostar”, só que pelo motivo de achar sem graça mesmo, embora saiba que tem gente que gosta da faixa. Química, com um bom tratamento nessa versão oficial. Eu Sei, um dos momentos melódicos mais inspirados de Renato Russo. Faroeste Caboclo, épico de 9 minutos com várias supostas histórias de origem e inspirada em Hurricane, de Bob Dylan; Domingo no Parque, de Gilberto Gil; Raul Seixas e em histórias populares brasileiras. No fim, temos duas boas tentativas de novidades da banda: Angra dos Reis e a bem escrita e bem musicalizada Mais do Mesmo.

  • Minha faixa favorita do disco: Eu Sei.

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4. As Quatro Estações (1989)

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Parece cocaína mas é só tristeza, talvez tua cidade
Muitos temores nascem do cansaço e da solidão
Descompasso, desperdício
Herdeiros são agora da virtude que perdemos
Há tempos tive um sonho
Não me lembro, não me lembro

Lançado em 26 de outubro de 1989 e gravado entre julho de 1988 e agosto de 1989, As Quatro Estações é o disco mais vendido da Legião Urbana, agora com a formação (pós saída de Negrete) que se estenderia até o fim da banda, com a morte de Renato Russo. Durante as turnês do álbum, porém a banda contou com os seguintes músicos de apoio: Bruno Araújo (baixo), Fred Nascimento (violões) e Mú Carvalho (teclados). Aqui, a Legião se viu como um retorno à linha de abordagem feita em Dois, tendo um ponto bastante trágico (e salientando a fobia de palco de Renato) no Estádio Mané Garrincha, em 1988. Aqui, todas as letras são de Renato Russo e as músicas recebem créditos da Legião Urbana, exceto Monte Castelo, que é só de Renato.

Há Tempos é uma faixa que traz o verdadeiro espírito da banda, abrindo o disco com uma paulada que se tornou um dos grandes sucessos. Pais e Filhos é o hino do conflito de gerações que, para mim, enjoa por um tempo, mas depois volta a interessar com o mesmo vigor. Feedback Song for a Dying Friend, homenagem a Robert Mapplethorpe e a Cazuza, traz uma surpresa nos arranjos finais e tem o peso que esse tipo de canção deveria ter — embora um melhor trabalho com a guitarra fosse bem-vindo. Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto é de uma simplicidade absurda, mas na voz de Renato Russo sobe a uma altura inacreditável, com um resultado final belo e marcante. Eu Era um Lobisomem Juvenil traz uma letra relacionável com diversos públicos, mostrando, inclusive, um modelo de arranjo que flertava com projetos futuros, especialmente do álbum V1965 (Duas Tribos) é de uma empolgação um pouco melancólica, mas serve bem ao seu propósito. .

Monte Castelo mistura trechos da Bíblica com um poema muito conhecido de Camões. Não é, de forma alguma, uma prova da “grande verve poética de Renato Russo“, que na verdade teve pouquíssimo trabalho aqui, mas é uma bela canção… meio brega, mas no sentido mais positivo possível. Maurício é, talvez, a faixa menos impactante do disco, mas não é ruim. Meninos e Meninas foi surpreendentemente bem aceita pelo grande público, o que é curioso em se tratando de Brasil, especialmente porque é a oficialização artística — e declarada em verso — da bissexualidade de Renato. Sete Cidades nem parece pertencer a esse disco… parece um flerte do compositor com o passado recente da banda, mas com um bom resultado. No fim, Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar, uma faixa simples, dentro da proposta mais quieta e mais romântica da banda, fazendo um bom fechamento.

  • Minha faixa favorita do disco: Há Tempos.

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5. V (1991)

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E nossa história não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz
Teremos coisas bonitas pra contar

E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás
Apenas começamos
O mundo começa agora
Apenas começamos

Gravado entre agosto e setembro e lançado em novembro de 1991, V é um álbum, para todos os efeitos, experimental. Ou melhor, um álbum realmente progressivo. Ou… sendo um pouco maldoso… seria REALMENTE progressivo se os artistas aqui tivessem excelência musical para tanto — novamente: o próprio Renato sempre ressaltou que a Legião era uma banda musicalmente mais… limitada, até do que ele gostaria. Todavia, V é um pulinho fora da caixa. Tem música medieval, tem rock alternativo, rock progressivo folk rock e braços possíveis vindos desses subgêneros. Na época, Renato Russo começava o seu vício em drogas e também havia descoberto que era portador do vírus da AIDS. Muita gente se decepcionou com o disco porque esperava algo na mesma linha de As Quatro Estações. O baixista convidado para as gravações em estúdio foi Bruno Araújo e os músicos de apoio convidados para a turnê foram Carlos Trilha (teclado e piano), Tavinho Fialho (contrabaixo elétrico) e Sérgio Serra (violões, guitarra base).

Love Song, uma canção em português arcaico, com letra do trovador Nuno Fernandes Torneol, do século XIII, abre o disco, encontrando-se, de certa forma, com a terceira faixa, a instrumental A Ordem dos TempláriosMetal Contra as Nuvens é outro épico da banda, sua maior faixa, com 11 minutos de duração. Há uma influência direta dos dissabores econômicos do país causados pelo governo Collor (abordados em Metal, embora a faixa possa ser lida por um lado unicamente pessoal/existencial). A Montanha Mágica é uma exposição de verdades pessoais do cantor, falando sobre dependência química. O Teatro dos Vampiros é um representação de um Brasil em crise. Sereníssima não faz jus ao título, mas isso é uma coisa boa no meio de tanta melancolia, valendo muito a brincadeira entre guitarra e violão. Vento no Litoral é um prenúncio do fim, e isso é muito triste de se pensar. Trata-se de uma belíssima e tocante canção de despedida, de desamparo e isolamento, um lindo poema, com uma bela melodia. O Mundo Anda Tão Complicado é uma faixa sobre o cotidiano, tão simples e tão honesta, que figura entre as melhores da do disco e da banda. L’âge D’or é uma porrada inesperada do álbum. E para fechar, a plácida Come Share My Life, um arranjo da banda para uma canção tradicional americana.

  • Minha faixa favorita do disco: Metal Contra as Nuvens.

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6. O Descobrimento do Brasil (1993)

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Venha!
Meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão

Venha!
O amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha que o que vem é perfeição

Uma mistura de sentimentos marcam este álbum da Legião, gravado entre setembro e novembro e lançado em dezembro de 1993. São 14 faixas em que se vê diversas facetas do grupo, com letras que misturam a agonia e solidão de Renato Russo com o otimismo e esperança do cantor, que estava livre das drogas, após um período difícil de reabilitação. Os músicos de apoio para a turnê do disco foram: Carlos Trilha (teclado e piano), Gian Fabra (contrabaixo elétrico) e Fred Nascimento (violões e guitarra base).

O álbum é aberto com força por Vinte e Nove, uma faixa sobre azares, perdas, decepções, tudo isso disfarçado pelo ritmo e música mais alegre. A Fonte é medíocre, mas tem alguns bons momentos. Do Espírito tem um ótimo trabalho das guitarras, mas demora para engrenar. Perfeição tem vocais falados em quase sua totalidade e é uma faixa densa, irônica, denunciando todo tipo de estupidez. O final da faixa é poderosíssimo. O Passeio Da Boa Vista é a bela instrumental. O Descobrimento Do Brasil tem uma chatíssima bateria eletrônica em loop, mas vai ganhando corpo, especialmente nos vocais. Os Barcos é uma canção que não se encontra: tem um charme, mas pouco cresce. Vamos Fazer Um Filme é uma faixa de confissão, de dúvida compartilhada, com uma boa levada melódica e harmônica, caindo mesmo só no final, com as repetições.

Os Anjos é a versão alegre, revendo o espírito de Os Barcos, uma letra depressiva, com versos um pouco bobos, mas no todo, bem interessantes. Um Dia Perfeito segue na mesma toada de melancolia, agora acompanhada também pela instrumentalização. Giz é um dos sucessos do disco, com uma mensagem triste, mas com a delicadeza certa para se tornar muito gostosa de ouvir. Love In The Afternoon é uma canção muito, muito tocante para quem perdeu alguém que amava muito. La Nuova Gioventú está entre as mais animadas do projeto, mas não dá muito tempo para o ouvinte curti-la, porque enjoa fácil demais. Só Por Hoje encerra o disco com uma cítara e uma mensagem do tempo de reabilitação de Renato Russo. Também densa, mas esperançosa, mostrando as vitórias em destaque, embora não evite falar das derrotas.

  • Minha faixa favorita do disco: Perfeição.

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7. A Tempestade ou O Livro dos Dias (1996)

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Todos se afastam quando o mundo está errado
Quando o que temos é um catálogo de erros
Quando precisamos de carinho
Força e cuidado

Este é o livro das flores
Este é o livro do destino
Este é o livro de nossos dias
Este é o dia de nossos amores

A Tempestade ou O Livro dos Dias, penúltimo álbum de estúdio da banda Legião Urbana, foi lançado em 20 de setembro de 1996. Em 11 de outubro daquele mesmo ano, Renato Russo, vocalista e principal letrista da banda, veio a falecer, no Rio de Janeiro, vítima de complicações geradas pela AIDS. A divulgação de A Tempestade lembrou aos brasileiros a tristeza e um pouco de morbidez que fora a divulgação de Por Aí (1991), de Cazuza, que também morrera de AIDS, em 1990.

Mesmo sabendo da doença desde 1989, Renato Russo manteve para si todas as indicações de que era portador do vírus. Haviam inúmeras especulações sobre isso, mas elas iam e vinham à medida que a banda lançava um novo disco e resolvia fazer a parte que “menos gostava” do processo, ou seja, sair em turnê. É importante lembrar que o grupo vinha da estrondosa jornada de shows do álbum O Descobrimento do Brasil (1993), que desgastou bastante a já frágil saúde de Renato Russo. No período de inatividade após o fim da turnê, o músico voltou a beber descontroladamente e há indícios que tenha voltado a usar drogas pesadas, embora por um curto espaço de tempo, pois viriam nesse meio tempo dois projetos solo (nos quais o produtor e músico Carlos Trilha tem importância vital) e que ocupariam Russo imensamente, o primeiro, o excelente álbum em inglês, The Stonewall Celebration Concert (1994), e o segundo, o ótimo álbum em italiano, Equilíbrio Distante (1995). Foi após o lançamento e relativamente breve divulgação deste último, que os arranjos para A Tempestade começaram a aparecer… [continue lendo a crítica aqui]

  • Minha faixa favorita do disco: O Livro dos Dias.

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8. Uma Outra Estação (1997)

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Lançado de 18 de julho de 1997, Uma Outra Estação foi o último álbum de estúdio da Legião Urbana, vindo nove meses depois da morte de Renato Russo, que deixara ainda uma boa quantidade de material gravado, ainda do projeto duplo não levado adiante em A Tempestade. Trata-se, de um álbum com canções que têm muito a cara de “Lado B”, onde pouca coisa realmente se destaca, ainda mais porque materiais bastante antigos foram resgatados para preencherem o disco, o que pareceu bastante estranho. Temos aqui Dado Viciado, da época do Aborto Elétrico e Marcianos Invadem a Terra e Marianne da época do Trovador Solitário. Além disso, as instrumentais não-Legião: Schubert LändlerHigh Noon (Do Not Forsake Me) — arranjo para a composição de Tiomkin em Matar ou Morrer que não entendo o que faz aqui–; a instrumental Sagrado Coração, que Renato não teve tempo de colocar os vocais, e Riding Song, que traz Renato Rocha de novo tocando baixo e trechos de entrevistas da banda nos anos 80, com um final que talvez seja uma resposta a Pais e Filhos, por conta de sua pergunta final, que encontra uma afirmação não elaborada: “Eu já sei o que eu vou ser / Ser quando eu crescer“.

Uma Outra Estação traz vocais majoritariamente fraquejados de Renato Russo, bastante debilitado pela doença, mas trabalhando até o último minuto. As Flores do Mal tem um baita refrão e o peso esperado de algo inspirado em Charles Baudelaire. La Maison Dieu é uma das melhores faixas do disco, com diversas referências à Ditadura Militar e sua larga escala de torturas. Clarisse é uma boa faixa, com uma recriação pessoal da saúde e estado sentimental do compositor para esse perturbado eu-lírico. O fato é que nada justifica um andamento tão compassado e a música certamente cresceria com ritmo mais acelerado. A Tempestade tem vocais macabros e ótimos riffsComédia Romântica é uma faixa alegre, um dos poucos momentos em que podemos parar e respirar aqui. Antes das Seis é um acerto direto do disco, com um ótimo arranjo. E no fim, a Travessia do Eixão, composição de Nonato Veras e Nicolas Behr que Renato Russo gostava bastante, sempre cantando para brincar e para aquecer a voz. Por ser a última música do último disco da banda, certamente esperávamos algo com um significado muito maior, o que não é o caso, embora este não seja um exercício musical ruim.

  • Minha faixa favorita do disco: La Maison Dieu.

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E agora que terminamos é a sua vez de comentar! O que acha da Legião Urbana? Quais os seus discos e suas canções favoritas da banda?

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.