Entenda Melhor | Narcos – A 2ª Temporada e o Futuro da Série

Obs: este texto contém spoilers da primeira e segunda temporadas de Narcos.

Definitivamente a Netflix vem dominando o mercado de maneira arrebatadora. E recentemente o novo lançamento, entre suas originais, a fazer cada um de nós maratonar por horas foi a segunda temporada de Narcos. A série de produção executiva de José Padilha já havia chamado atenção em sua estreia no ano passado, garantindo até indicações ao Emmy, mas agora em seu segundo ano se eleva ao máximo. Através da potência de seu algoritmo, que percebeu o interesse massivo do público em Breaking Bad, o serviço de streaming resolveu produzir uma série que contasse fatos da história do narcotráfico. E quem melhor que Pablo Escobar, o “rei da cocaína”, para abordar nas duas primeiras temporadas? Embarque em nosso Entenda Melhor pra discutir os personagens dessa temporada, a relação ficção x realidade dessa conturbada história da Colômbia e, principalmente, as deixas para os futuros anos da série já renovada.

Pablo Escobar

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O bigodudo dispensa apresentações. Todos acompanhamos a saga de Pablo durante a série, sua ascensão e sua queda (e que queda!). Brilhantemente interpretado por Wagner Moura – que surpreendentemente não sabia nada de espanhol até as vésperas de ser chamado para o papel e ainda conseguiu descolar indicação ao Globo de Ouro – o drug lord colombiano foi um dos maiores criminosos já existentes, responsável por cerca de 3.000 mortes, desde assassinatos até ataques terroristas, sendo o voo Avianca 203 o mais famoso deles. O traficante recebeu o título de “rei da cocaína” ao conseguir, no máximo de sua carreira nos anos 90, que cerca de 80% da cocaína em circulação nos Estados Unidos pertencesse a seu cartel, faturando 60 milhões de dólares por dia e 21.9 bilhões por ano. Sonhava em ser presidente de seu país, chegando a se envolver na política, mas se afastando devido aos claros problemas criminosos. Em junho de 1991 se rendeu após negociações com o governo e conseguiu o direito de construir sua própria luxuosa prisão, apelidada La Catedral, como mostrada na série. No entanto, após discussões sobre movê-lo para uma prisão normal, o traficante fugiu e assim foi dado o início a sua caça que durou 16 meses, mostrada na segunda temporada de Narcos. O fim todos acompanharam no derradeiro episódio deste ano: em 2 de dezembro de 1993, um dia após seu aniversário, Pablo praticamente falido e sem nenhum capanga, é encontrado em uma casa de classe média em Medelim, tenta fugir pelo telhado e é morto a tiros. Embora a série como um todo abra discussões sobre sua fidelidade a história – tendo inúmeras mudanças a respeito de eventos ou personagens – explora muito bem o capítulo final desta saga de forma um tanto documentária, com fotos e vídeos.

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Pablo Escobar morto no telhado de sua casa, no dia de sua morte em 2 de dezembro de 1993.

Agente Steve Murphy

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Steve Murphy – o narrador da série, interpretado por Boyd Holbrook,- era um dos agente da DEA incumbidos da procura a Escobar. Começou a carreira policial bem cedo, aos 19 anos, onde já foi desenvolvendo interesse pelas investigações de narcóticos até finalmente entrar para a agência anti-drogas dos EUA. Trabalhou durante quatro anos no combate ao tráfico de drogas em Miami, mais especificamente contra cocaína. Foi transferido para Bogotá, Colômbia, em 1991, chegando apenas três dias antes da negociação e rendição de Pablo – sim, aqui está a maior das licenças poéticas da série da Netflix, que mostra Murphy no caso desde o início. O agente se envolveu muito mais com a busca de Pablo após a fuga do drug lord de sua prisão, La Catedral, cadeia de eventos desenvolvida durante a segunda temporada.

Agente Javier Pena

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Javier Peña, interpretado por Pedro Pascal, era um dos agentes da DEA responsáveis pela caça a Pablo Escobar, chegando a Colômbia em 1988 para iniciar no caso. Quando Eric Newman – showrunner de Narcos – o procurou para ser consultor da série, a primeira condição de Penã para participar era de que Pablo não fosse pintado como um herói pela série (sim, acredite se quiser, há diversos livros que o pintam como uma espécie de “Robin Hood” que contribuía com ajuda aos pobres). O agente já deu diversas declarações de que o grande impulso na busca por Escobar era o sentimento de vingança mediante ao grande números de policiais e inocentes mortos por Escobar e conhecidos de Javier, o que a série soube mostrar muito bem. Em janeiro de 2014, Peña se aposentou.

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Tanto Penã quanto Murphy foram consultores da série (inclusive fazendo uma cameo no último episódio da segunda temporada), colaborando com informações do ocorrido durante a luta contra o “rei da cocaína”. Ambos declararam estarem contentes com o resultado da série, que conta tudo com bastante veracidade, embora repleta de licenças poéticas, adaptações e coisas que não aconteceram bem assim. Um fato curioso é de que ambos nunca fumaram cigarros, diferente do que ocorre na série, na qual cada episódio parecia precisar de uma cena onde um deles fuma. Tudo indica que a dupla deve continuar para as próximas temporadas.

Virginia Vallejo

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Virginia Vallejo, famosa jornalista na Colômbia que teve um caso com Pablo Escobar, teve seu nome alterado para Valeria na série, sendo interpretada por Stephanie Sigman. Um acontecimento em Narcos que não ocorreu na vida real, mas foi criado, é o de que ela e sua equipe teria sido morta por Los Pepes. Na realidade, a jornalista se mudou para os Estados Unidos após uma série de depoimentos ao DEA e, em 2007, lançou o livro Amando a Pablo, Odiando a Escobar, abordando sua convivência com o famoso traficante.

Presidente Gaviria

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O presidente da Colômbia entre 1990 e 1994, César Gaviria, foi um personagem essencial na história de Pablo Escobar, como mostrado na série interpretado pelo mexicano Raul Mendez. Gaviria trabalhava para o candidato Luiz Carlos Galán, que se declarava abertamente inimigo do cartel de Medelim e apoiava a extradição com os Estados Unidos. O candidato, que liderava as pesquisas para presidente, foi assassinado a mando de Escobar e, em seguida, César Gaviria assumiu como seu sucessor, continuando a perpetuar as ideias de Galán e, no fim, assumindo o posto de presidente da Colômbia. Este também recebeu ameaças de Pablo Escobar, inclusive enganando a morte por pouco. Gaviria era o alvo do atentado ao voo Avianca 203 (sim, o atentado realmente ocorreu e tudo indica que o homem que carregava a bomba não sabia que a levava), mas conseguiu escapar do atentado ao mudar seus planos e não seguir viagem aquele dia. Muito provavelmente o personagem da série mais fiel aos fatos.

A Família Escobar

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Durante toda a série da Netflix, um arco importante é o desenvolvimento da família Escobar. Pablo, filho de Abel Escobar e Hermilda Gaviria, casou com Maria Victoria Vellejo (na série chamada por ele de Tata) em 1976 – ele tendo 26 anos de idade, ela 15 – e continuaram juntos até a morte do traficante.  Tiveram dois filhos, Juan Pablo Escobar – que adulto viria a mudar seu nome para Sebastian Marroquín –  e Manuela Escobar. Pouco se sabe sobre a filha nos dias de hoje, apesar de um dos principais contos sobre Pablo a envolvê-la: o pai teria queimado dois milhões de dólares somente para aquecer sua filha resfriada (o que é mostrado na segunda temporada). Já o filho, este provoca mais repercussão já que chegou a escrever um livro em 2014, Pablo Escobar: Meu Pai. Participou do documentário Os Pecados de Meu Pai sobre o traficante e até lançou uma linha de roupas com estampas de seu pai. Após a morte de Pablo, a família fugiu para Moçambique e depois para a Argentina, onde conseguiram a cidadania.

Sebastian Marroquín, o filho, declara a série da Netflix como “um insulto” e criticou Narcos dizendo que a obra está repleta de inconsistências. Este elaborou uma lista de informações equivocadas ou mentirosas, ao menos na opinião dele, o que incluía desde pontos simples como o time para o qual Pablo torcia (a série diz ser Atletico Nacional, quando, na verdade, seria Deportivo Independiente Medellín), ou sua mãe nunca ter usado uma arma, até coisas maiores como nunca ter ocorrido, na La Catedral, um confronto das proporções mostradas na série, ou sequer acontecido um ataque à família de Gilberto Rodriguez, além de uma história bastante diferente acerca de alguns personagens e tópicos. Ele também dá versões não apresentadas na série, como a de que a mãe de Pablo e seu irmão Roberto o teriam traído, cooperando com informações para o governo e forças de inteligência. A série causou insatisfação a outros membros da família Escobar, como o irmão de Pablo, Roberto, que ameaça processar o serviço de streaming por 1 bilhão de dólares, reclamando a respeito de vários pontos “mentirosos”, segundo ele, a respeito da adaptação.

Don Berna

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Don Berna ou Adolfo Paz é uma figura famosa na história narco da Colômbia, tendo mostrado apenas seus primeiros passos na série. Trabalhava para Escobar no cartel de Medelim, mas após desentendimentos se torna um de seus maiores inimigos, ajudando depois a formação do grupo Los Pepes (Perseguidos Por Pablo Escobar) que declarara guerra ao rei da cocaína. Após a morte de Pablo, Don Berna tomou conta de Medelim e formou pequenos cartéis ao redor do país. Certamente o personagem terá um papel importante nas próximas temporadas visto que a história nos conta que a sequência dos próximos capítulos envolvem Don Berna, como a criação da AUC (United Self-Defense Forces of Colombia) pelos membros da Los Pepes e a aliança dos cartéis de Medelim e Cali a esta organização, sendo Berna o líder das atividades do tráfico de drogas.

Irmãos Castaño

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Entre as maiores pedras no sapato de Pablo Escobar estavam os irmãos Carlos e Fidel Castaño. Após testemunharem a morte do pai pelo movimento de guerrilha FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), se tornaram fundadores da ACCU (Autodefensas Campesinas de Córdoba y Urabá), grupo paramilitar de extrema direita responsável por camuflar diversas atividades ilícitas como sequestro, extorsão e tráfico de drogas. Tudo indica que Carlos Castaño terá uma participação maior nas próximas temporadas, já que seu irmão Fidel é morto dois meses após a morte de Pablo Escobar e Carlos futuramente se torna um dos membros da AUC (Autodefensas Unidas da Colômbia), outro grupo paramilitar e de tráfico de drogas que deve aparecer bastante nas próximas temporadas.

Novas temporadas: Gilberto Rodriguez Orejuela

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Como o produtor executivo de Narcos, Eric Newman, disse, a série não é sobre Pablo Escobar, mas sobre a luta contra o narco-tráfico, o que a possibilita contar ainda muitas outras histórias. E o fim da segunda temporada de Narcos deixa pistas fortes de quem seria o próximo “protagonista” para as próximas temporadas: Gilberto Rodriguez Orejuela, o grande chefão do Cartel de Cali e um dos membros da Los Pepes. Formou o Cartel de Cali junto a seu irmão na década de 70 e se envolvia com o tráfico de maconha inicialmente, migrando só depois para a cocaína. O que Gilberto menciona ao fim do último episódio da temporada, celebrando a morte de Escobar e afirmando que faria um império das drogas menos violento que o do Cartel de Medelim, é até verdadeiro já que seu Cartel se concentrou muito mais em subornos do que na violência típica de Pablo Escobar. Gilberto foi preso pela CNP, Polícia Nacional Colombiana, em 1995 e sentenciado a 15 anos de prisão. Porém, acabou livre por um tempo devido a problemas jurídicos, mas no fim acabou recapturado e extraditado para os Estados Unidos no fim de 2004, recebendo sentença de 30 anos na prisão. Veremos como a Netflix vai abordar essa continuação da história de Narcos…

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Alguma curiosidade a acrescentar? Expanda a discussão enquanto aguardamos a próxima temporada!

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.