Entenda Melhor | O Western no Cinema: Conceito e Introdução

western é um dos gêneros mais ricos do cinema. Sua origem oficial é mais comumente aceita no ano de 1903, embora ainda exista alguma polêmica em relação ao ano ou ao filme que de fato faz nascer o gênero. Muitos espectadores, críticos e escritores dizem que o “primeiro western” foi o curta Kit Carson (1903), de Wallace McCutcheon. Outros dizem que o “verdadeiro primeiro western” foi o curta O Grande Roubo do Trem (1903), de Edwin S. Porter. Há quem retroceda um pouco mais e cite os curtas dirigidos por William K. L. Dickson em 1894 como precursores temáticos do gênero. Os argumentos dessa defesa dão conta de que embora tais curtas não tenham roteiro, eles são o primeiro passo para um tipo e estilo de cinema que se tornaria grandioso alguns anos depois.  Abaixo, deixo dois filmes de Dickson para que vocês possam decidir se são ou não uma forma de western.

Bucking Broncho (1894)

Annie Oakley (1894)

Diferente dos anteriores o curta Cripple Creek Bar-room Scene (1899), de Thomas Edison (sim, é esse mesmo Thomas Edison que você está pensando!), é mais comumente aceito como um western primordial, o primeiro filme com esse plano de fundo com algum tipo de história sendo contada.

Cripple Creek Bar-room Scene (1899)

Infelizmente não consegui localizar em lugar nenhum o filme Kit Carson, mas logo abaixo está O Grande Roubo do Trem, seu páreo mais duro na briga pelo título de “primeiro western” com temática e história dentro do gênero e em padrões cinematográficos específicos.

O Grande Roubo do Trem (1903)

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Mas afinal, o que é um western?

Podemos entender os westerns como filmes que, em sua concepção original, expunham a realidade do Destino Manifesto, ideologia estadunidense de idos do século XIX que pregava a legitimidade e designação divina dos americanos para conquistarem as terras dos índios e levarem o desenvolvimento, a religião e a civilização para esses lugares “selvagens”. A maior representação imagética que temos dessa ideologia é a tela de John Gast, pintada em 1872 e chamada American Progress. Na pintura, vemos Colúmbia, a representante angelical dos colonos, com um livro didático na mão, cabos de telégrafo na outra e guiando os colonizadores para o oeste (a Marcha para o Oeste que vocês aprenderam nas aulas de História), substituindo as tribos indígenas e os búfalos por casas, hortas e estradas de ferro.

Esse conceito ideológico foi tão forte na Terra do Tio Sam, que chegou a ser afirmado com bastante ênfase pelo Presidente dos Estados Unidos, James Buchanan, em 1897, com a seguinte frase:

A expansão dos Estados Unidos sobre o continente americano, desde o Ártico até a América do Sul, é o destino de nossa raça […] e nada pode detê-la.

A mesma ideia pôde ser observada no discurso do candidato à presidência dos Estados Unidos, Mitt Romney, em novembro de 2012, num dos momentos de sua campanha:

Deus não criou este país para que fosse uma nação de seguidores. Os Estados Unidos não estão destinados a ser apenas um dos vários poderes globais em equilíbrio. Os Estados Unidos devem conduzir o mundo, ou outros o farão.

O Progresso Americano (1872), de John Gast.

Desse ponto ideológico e ambiente histórico já temos subtendido um cenário que caracteriza um “filme western”: cavalos, diligências, figurinos e tecnologia do século XIX, cowboys, xerifes, atiradores, saloons, terras indígenas, duelos, militares, caravanas, luta contra os índios e qualquer derivação possível vinda daí: captura de brancos (geralmente mulheres) pelos índios; vingança do branco contra os índios ou contra outro branco, provavelmente uma autoridade ou um grande bandido; vadios, bêbados e bandos de alguma vila caçando recompensa ou se envolvendo em algum tipo criminoso de controle local através do comércio de armas, bebidas, etc.  O semi-nomadismo e a solidão também são características marcantes dos protagonistas desses filmes.

A figura da prostitua dos saloons e de alguns cargos públicos também se fazem presente nos faroestes, que evidentemente foram mudando de símbolos e características ao longo dos anos, passando de uma abordagem quase unicamente ligada ao Destino Manifesto para as mais diversas questões.

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Quais são os temas principais de um western clássico?

Se formos levar em consideração as temáticas nos enredos do western, é aconselhável tomarmos como referência os apontamentos do escritor Frank Gruber a respeito, que dividiu as obras desse gênero dentro de alguns blocos narrativos, que listamos abaixo.

  1. As Union Pacific stories, que tratam da construção de uma tecnologia moderna como ferrovia, linha de telégrafo ou qualquer outro meio de transporte e invenção que gere impacto onde está para chegar (levando em consideração aí o final do século XIX e início do século XX).
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  2. As ranch stories, que tratam de qualquer tipo de ameaça, impacto ou problema relacionado a um rancho, geralmente trazendo um vilão externo que de alguma forma subjuga os atuais proprietários.
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  3. As empire stories, que tratam da construção de qualquer tipo de domínio ou monopólio “imperial”, que pode ser de criação de gado e abertura de poços até o encontro de metais preciosos, petróleo ou mesmo controle de fontes de água dominadas por uma empresa ou rancheiro específico.
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  4. As revenge stories, que tratam da perseguição e captura de algum indivíduo acusado de ter feito algum mal a alguém ou alguma família. Esse tipo de western tem uma possível abertura a tramas que envolvem traição amorosa, fraterna ou familiar, podendo também flertar com o mistério e um tipo mais sutil de suspense. A vingança, todavia, é a pedra angular do tema.
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  5. As cavalry stories” e “indian stories, que tratam do Destino Manifesto mais exatamente, mostrando a conquista de territórios indígenas ou “selvagens” (no sentido de difícil habitação) pelos colonos. No primeiro caso, o foco é realmente a cavalaria americana e no segundo caso, os índios. Todavia, é muito comum o termo aparecer como sendo uma coisa só, dada a proximidade temática de um para outro, nos enredos do western: cavalry and indian stories“.
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  6. As outlaw stories e as marshal stories, que tratam, no primeiro caso, de um impasse relacionado às gangues ou a um bandido em específico; e, no segundo caso, dos desafios e percalços que um homem da lei (advogado, político ou xerife honestos) enfrentam no exercício de sua função.

O leitor pode ter acesso a um grande número de aspectos estéticos, temáticos e de características de westerns no vídeo abaixo.

Num momento posterior da cronologia do western, esses cenários também passaram a contar com heróis da Guerra da Secessão, rancheiros ou homens comuns em desgraça, desertores e procurados pela polícia federal por algum motivo.

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Outro fator que nos permite identificar um western é a sua localização geográfica em regiões dos Estados Unidos a oeste do Rio Mississippi (no caso dos westerns americanos, claro). Disponibilizo abaixo o mapa do Mississippi e seus principais afluentes. Se você não se lembra muito das aulas de geografia, saiba que o rio é uma fronteira natural entre vários Estados americanos. Tendo-o como base, você terá, na margem leste e no sentido norte-sul: Wisconsin, Illinois, Kentucky, Tennessee e Mississippi. Já na margem oeste e no sentido norte-sul (que é a região a partir da qual os westerns se ambientam), temos: Minnesota, Iowa, Missouri, Arkansas e Louisiana.

A “fronteira do western“: o Rio Mississippi (destacado em azul).

Os primeiros westerns foram, em sua maioria, filmados em estúdios, uma vez que filmar em locações não eram assim tão comum. Todavia, a partir dos anos 1920, os produtores e diretores passaram a conceber faroestes de características épicas, utilizando-se de cenários grandiosos, cada vez mais explorados conforme a tecnologia cinematográfica (câmeras e lentes) se desenvolviam. É evidente que essa exploração do cenário natural só se torna uma prática “obrigatória” para os westerns na década de 1930. Os westerns dessa década eram, em sua maioria, filmados em ranchos de verdade ou em paisagens icônicas de Estados como Arizona, Califórnia, Colorado, Kansas, Montana, Nevada, Novo México, Oklahoma, Texas, Utah e Wyoming. O Monument Valley se tornou o ponto natural de maior peso para o gênero a partir do primeiro filme ali realizado, No Tempo das Diligências (1939).

Monument Valley: o cenário favorito dos diretores na Era de Ouro do western.

Aqui, chegamos à nossa primeira fronteira temática. Meu propósito nessa primeira parte foi abordar de maneira rápida (é… bem… quer dizer…) as principais características do western, seu significado e seus temas centrais, ao menos no caso do Western Clássico americano.

Se você chegou até aqui, com certeza irá querer continuar desbravando as selvagens terras do western, então, escolha seu caminho: para trilhar a mais tortuosa, dúbia, perigosa e colossal trilha dos Subgêneros do Western clique aqui. Já para explorar a insólita, medonha e desafiadora trilha das Eras Cinematográficas do Western, clique aqui.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.