Entenda Melhor | Os Subgêneros do Western – Parte 2

Nesta segunda e última parte do artigo sobre os subgêneros do western, vou abordar as vertentes mais estranhas e pouco usuais do gênero. Enquanto na primeira parte eu trouxe apenas versões nacionalistas e histórias dos bang bangs, nesta, vamos ver um pouco como o faroeste foi utilizado pelos mais diversos gêneros e modelos de abordagem cinematográficos ao longo dos anos.

ADVERTÊNCIA: O leitor pode encontrar contradições e até contestar a existência de um subgênero aqui presente, o que torna o debate ainda mais interessante. Nada precisa ser levado a ferro e fogo e nem tão a sério. Os subgêneros existem para atender a uma necessidade de análise, estudo ou expor uma visão cinematográfica, algo que evidentemente pode mudar de autor para autor e espectador para espectador. Se lenda ou fato, corretos ou não, não importa. Os subgêneros existem. O mínimo que temos que fazer é ter conhecimento deles e julgarmos conforme nossa experiência cinéfila, estudos sobre o tema e leituras relacionadas.

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6. Acid Westerns 

Os “faroestes ácidos” são obras essencialmente dos anos 60 e 70, embora existam alguns exemplos posteriores a esse período (raramente encontrado antes dos anos 60). Trata-se de um subgênero dos bang bangs que aliava a contracultura dos anos 60 com elementos do western spaghetti e western clássico. Ou seja, são filmes que destilam múltiplos estilos, possuem conteúdos filosóficos (algumas vezes até com conceitos orientais), questionam e zombam de alguns simbolismos, mas sempre com a estrutura do western. Algumas vezes não existe uma fronteira entre os spaghettis e os acid westerns.

O termo foi criado em 1996, pelo jornalista Jonathan Rosenbaum, numa crítica sobre o filme Homem Morto (1995), de Jim Jarmusch. Posteriormente o jornalista ampliou o termo e lhe conferiu histórico retroativo. Para o jornalista, se quisermos achar alguma influência prévia para os motivos do “faroeste ácido”, podemos tomar dois filmes de William A. Wellman: Consciências Mortas (1943) e Céu Amarelo (1948). Todavia, a origem oficial desse subgênero acontece apenas em 1966, com o filme Disparo Para Matar, de Monte Hellman, que no mesmo ano entregaria outro exemplar para categoria: A Vingança de um Pistoleiro.

Nos anos 70 um cara chamado Robert Downey Sr. (sim, ele é pai de quem você está pensando) fez a sua contribuição para os acid westerns com Greaser’s Palace (1972). Na mesma década teríamos ainda outros filmes enquadrados nesse subgênero: El Topo (1970); O Clamor da Juventude (1971); A Girl is a Gun – Une Aventure de Billy le Kid (1971); Pistoleiro Sem Destino (1971); A Vingança de Ulzana (1972); Má Companhia (1972); Dirty Little Billy (1972); Mais Forte Que a Vingança (1972); Kid Blue Não Nasceu para a Forca (1973).

Jonathan Rosenbaum diz que Homem Morto (1995) foi um “cumprimento muito atrasado de uma agenda alucinante“, como se quisesse dizer que o gênero, como algo estabelecido e de corrente produção, morria tardiamente ali.

Disparo Para Matar (EUA, 1966)

El Topo (México, 1970)

A Girl is a Gun – Une Aventure de Billy le Kid (França, 1971)

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7. Neo-Westerns e Western Revisionista

No artigo As Eras Cinematográficas do Western, o leitor terá acesso à maior parte das explicações históricas que poderiam constar aqui. O que vale dizer rapidamente é que os anos 60 marcaram um período de declínio do western clássico e o desabrochar de muitos subgêneros dele. É justamente aí que uma “reformulação interna” começa a se delinear. Alguns roteiristas e diretores, percebendo o progressivo cansaço do gênero desde meados dos anos 50, chegaram aos anos 60 com vontade de mudança. Foi a partir desse ponto que uma nova exposição passou a ser feita, com direito a questionamentos, mudança de paradigmas, exploração de ambiguidades, foco em personagens femininas, revisão do papel do índio (agora visto como bom e herói) e uma guinada estética nas obras.

Num resumo conceitual, podemos afirmar que o western revisionista é apenas um ponto de vista para abordagem do enredo de um filme, que usará da tradição para empreender críticas, questionar atitudes, escancarar a hipocrisia de uma sociedade construída sob o ideal de superioridade (cultural ou genética), deixando claro para o espectador que os heróis são ilusões convenientes a alguém ou a algum grupo e que o negócio de “bandido e ladrão” pode ser bem questionável. Veja que qualquer subgênero do western pode adotar esse ponto de vista, portanto, o revisionismo no western é uma espécie de “jogada na lama” que começou a se fazer com os valores do gênero tão cristalizados desde a década de 1900 no cinema. Não se espante, portanto, ao ver um western spaghetti, um acid western ou um zapata western também serem classificado como revisionista. Isso é conceitualmente possível. Abaixo, dois exemplos de western revisionista.

Pistoleiros do Entardecer (EUA, 1962)

Os Implacáveis (Espanha, EUA, Bolívia, França, 2011)

O westerns contemporâneos ou neo westerns são ambientados no momento presente em que são realizados (ou remetem a qualquer período histórico pós meados dos anos 1950, quando esse subgênero surgiu, se bem que o precursor do gênero não é o cinema e sim uma série de rádio transmitida nos Estados Unidos entre 1950 e 1952 chamada Tales of the Texas Rangers). Boa parte desses filmes mantêm paisagens típicas do western clássico e se passam no Oeste dos Estados Unidos (obedecendo àquela fronteira que comentamos na Introdução ao Western).

Levando em consideração o momento histórico em que se passam, os westerns contemporâneos apresentam um conflito ideológico e/ou de mentalidades, opondo valores tradicionais a “novos” valores. Questionamentos éticos, de justiça e de visões de mundo de algum grupo ou pessoas são planos de fundo desses westerns.

Exemplos de neo westerns ou westerns contemporâneos: Conspiração do Silêncio (1955); O Indomado (1963); Os Implacáveis (1972); Dez Segundos de Perigo (1972); Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia (1974); Contratado Para Matar (1990); O Mariachi (1992); Era Uma Vez no México (2003); Três Enterros (2005); O Segredo de Brokeback Mountain (2005); Onde os Fracos Não Têm Vez (2007).

Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia (1974)

O Segredo de Brokeback Mountain (2005)

Onde os Fracos Não Têm Vez (2007)

Na televisão, ainda é possível encontrar essa temática em séries como Justified (iniciada em 2010) e, de uma forma menos óbvia, na aclamada Breaking Bad (2008 – 2013). De acordo com Vince Gilligan: “após o primeiro episódio de Breaking Bad, comecei a pensar que poderíamos fazer um western contemporâneo. Então você verá cenas de tiroteios como as dos filmes de Clint Eastwood e Lee Van Cleef… Nós temos Walter e outros igual a eles.

Nos videogames, um exemplo de western contemporâneo é o jogo Call of Juarez: The Cartel (2011).

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8. Sci-Fi, Space e Fantasy Westerns

É muito fácil identificar um western de ficção científica. Os filmes enquadrados nesse subgênero situam-se no Velho Oeste (embora localidades desérticas ou desoladas que não necessariamente sejam o Velho Oeste sejam válidas), possuem os mesmos elementos e mitologia do western clássico, mas estão enquadrados em uma realidade sci-fi. Como exemplos de science fiction westerns, podemos citar: Westworld – Onde Ninguém Tem Alma (1973); De Volta para o Futuro – Parte III (1990); As Loucas Aventuras de James West (1999); Cowboys & Aliens (2011). Nos videogames, um exemplo de sci-fi western é o jogo Damnation (2009).

De Volta Para o Futuro — Parte III (1990)

De forma oposta aos sci-fi westerns, os space westerns não têm o Velho Oeste ou regiões desérticas e desoladas como cenário, pelo menos como foco central da obra. A mitologia do faroeste clássico ainda é válida aqui, mas ela se adapta à realidade espacial, à fronteira do Universo, não mais do planeta Terra. Como exemplos, temos a série infantil BraveStarr (1987 – 1989); a fantástica série Firefly (2002 – 2003) e o filme baseado nela, Serenity – A Luta Pelo Amanhã (2005). Também podemos classificar o longa Outland – Comando Titânio (1981), como um space western.

Firefly (2002 – 2003)

Doctor Who 7X3: A Town Called Mercy  (2012)

Os Fantasy Westerns mixam elementos de fantasia com os do western clássico, contendo ícones mitológicos e/ou sobrenaturais como plano de fundo. Como exemplos, podemos citar o mangá Kino’s Journey (e seus videogames e animes); a série de quadrinhos Preacher (1995 – 2000) de Garth Ennis e Steve Dillon e a série de livros A Torre Negra (1982 – 2012), do escritor americano Stephen King.

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9. Weird e Horror Western

Assim como nas divisões do western ligadas à ficção científica ou fantasia, as fronteiras entre as produções do Weird e Horror Westerns são sutis ou quase inexistentes. O termo “Weird” parece ter sido cunhado primeiro, ainda nas revistas e obras da literatura pulp dos anos 1930, que mesclavam componentes de outros gêneros literários como horror, ficção científica, ocultismo e fantasia. Portanto, todo sci-fi, fantasy ou horror western são passíveis de serem classificados como weird westerns porque esta era a sua classificação antes de criarem as outras subdivisões.

O que mais se usa para classificar, hoje, obras como weird westerns, é a presença incomum de elementos que seriam estranhas demais para se enquadrarem em outros subgêneros. Ainda assim, suas fronteiras permanecem sutis. Dividirei abaixo a presença dos Weird Westerns na TV, nos quadrinhos e no cinema..

Televisão: Um dos primeiros episódios desse subgênero numa série de sucesso foi Showdown with Rance McGrew (1962), na série Além da Imaginação. Esse parâmetro de realizar episódios “estranhos” dentro da dinâmica do western se tornou algo comum em algumas séries dos anos 60 e 70. Junto a isso, também ressaltamos que várias séries infantis e live action sugiram sob essa tag do “weird“. Segue a lista de alguns exemplos: The Wild Wild West (1965–1969); The Adventures of Brisco County, Jr. (1993–1994); The Lazarus Man (1996) e Trigun (1998).

Bonanza 5X12: Hoss and the Leprechauns (1963)

Quadrinhos: Os quadrinhos sempre tiveram um grande apreço pelo western, portanto, não é de se espantar que o subgênero weird tenha aparecido neles ainda nos anos 40, com a criação de algumas personagens famosas da Marvel como Kid Colt (1948), Duas-Armas Kid (Two-Gun Kid, no original, criado em 1948) e Billy Blue (Rawhide Kid, no original, criado em 1955); e da DC como Tomahawk (1947), Jonah Hex (1972) e Saint of Killers, de Preacher, no selo Vertigo.

Séries, minisséries e graphic novels com esse tema: Tex (1948); Cavaleiro Fantasma (1967); Justice Riders (1997); Doc Frankenstein (2004); American Gothic (2005); Billy the Kid’s Old Timey Oddities (2005); Iron West (2006); High Moon (2007); Gunplay (2008); The Sixth Gun (2010); East of West (2013). E também Weird Western Tales (volumes 1 e 2); All-Star Western (volumes 1, 2 e 3).

Exemplos de weird western nos quadrinhos.

Cinema: No cinema é um pouco mais fácil identificar os weird westerns. Boa parte desses filmes se confundem com os “horror westerns” um subgênero mais específico que dispensa explicações sobre o seu conteúdo. Farei aqui uma lista de indicações de filmes classificados com esse(s) subgênero(s): O Império dos Fantasmas (1935); A Caveira Que Assobia (1937); As 7 Faces do Dr. Lao (1964); Billy the Kid vs. Dracula (1966); O Vale de Gwangi (1969); A Casa dos Pássaros Mortos (2004); The Quick – O Caçador de Zumbis (2006); High Plains Invaders (2009).

O Vale de Gwangi (1969)

A Casa dos Pássaros Mortos (2004)

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10. Westerns Satíricos e Pornográficos

Assim como o subgênero horror western, esses dois aqui não precisam de explicações. Vou passar direto para as indicações de filmes em cada um dos tópicos, começando com os westerns satíricos: Nas Trilhas da Aventura (1965); Revanche Selvagem (1968); Uma Cidade Contra o Xerife (1969); Latigo, o Pistoleiro (1971); Banzé no Oeste (1974); O Vaqueiro Cantador (1985); Três Amigos! (1986); Maverick (1994) e Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola (2014).

Banzé no Oeste (1974)

Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola (2014)

Como é de se imaginar, o foco dos westerns pornográficos é o erotismo, acrescido de um plano de fundo ligado ao western clássico. Este é o mais raro dos subgêneros do western. Vale dizer que alguns críticos incluem El Topo, de Alejandro Jodorowsky, nesta categoria, algo que eu contesto veementemente porque o foco de El Topo não é, jamais, o erotismo, tendo ele melhor classificação como acid western, como já visto acima.

Exemplos de westerns pornográficosWild Gals of the Naked West (1962); A Dirty Western (1975); Sweet Savage (1979).

Espero que este artigo tenha ajudado o leitor a contextualizar e entender melhor o faroeste, considerando toas as suas vertentes e modelos de produção. O leitor também pode conferir a primeira parte deste artigo aqui e conferir a análise história do western no cinema aqui.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.