Entenda Melhor | Stanley Kubrick: Os Filmes que Nunca Foram

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Todo cineasta, por uma razão ou outra, tem problemas para produzir pelo menos um filme durante sua carreira. Isso é comum e faz parte do jogo. Podem haver razões como azares incríveis como foi o caso de Terry Gilliam e seu filme sobre Dom Quixote que chegou a inspirar até a direção de um interessantíssimo documentário sobre seus problemas chamado Lost in La Mancha até por questões mais diretas como recusa de financiamento, como a que abateu a versão de Duna, que seria dirigida por Alejandro Jodorowsky (aliás, objeto de outro documentário) e mais um sem-número de razões.

No entanto, Gilliam e Jodorowsky são autores de filmes que normalmente circulam por circuitos mais alternativos e o interesse por suas obras – apesar de muitas deles serem magníficas – é limitado. A coisa muda de figura quando estamos diante de diretores mais universalmente aceitos e discutidos e Stanleky Kubrick, que sempre conseguiu transitar bem entre a aceitação comercial de suas obras e um lado mais autoral, algo raríssimo de se ver hoje em dia, é um dos nomes que facilmente despontam no horizonte. Assim, até hoje há diversas obras literárias que discutem em profundidade seu famoso “filme que nunca foi” Napoleão e houve um furor incrível em volta de A.I. – Inteligência Artificial, quando Spielberg resolveu dirigir esse projeto legado a ele pelo próprio Kubrick.

Com base nisso, resolvi trazer para nosso leitores uma lista dos mais relevantes filmes que já passaram pela escrivaninha de Stanley Kubrick, de uma forma ou de outra, mas que nunca viram a luz do dia pelas mãos desse grande e saudoso cineasta. Vamos começar nossa jornada?

1. Lunatic at Large – década de 50:

O que é: Um roteiro encomendado de Kubrick ao romancista pulp Jim Thompson.

O que aconteceu: Não se sabe exatamente a razão de Kubrick ter desistido do projeto, mas sua carreira estava decolando na época e seu leque de opções era grande.

Curiosidade: Ninguém, nem a terceira esposa de Kubrick (e que ficou com ele por 40 anos até sua morte), sabia da existência desse roteiro. Ele só foi descoberto em 2006, por Philip Hobbs, sobrinho de Kubrick, que disse que levaria o projeto adiante. Até agora, porém, nada.

2. Natural Child – 1955:

O que é: Um livro de 1952 do prolífico romancista americano Calder Willingham, que viria a escrever os roteiros de Glória Feita de Sangue, A Face Oculta e A Primeira Noite de um Homem. A história girava em torno da vida boêmia de quatro jovens – duas mulheres e dois homens – em Nova Iorque.

O que aconteceu: Kubrick demonstrou interesse em produzir o filme, mas, antes que muito mais do que um tratamento fosse redigido, ele já recebeu a notícia de que o famigerado “Código de Produção” o forçaria a mudar muita coisa. É claro que, sendo quem ele era, Kubrick largou a ideia.

3. The Burning Secret (Segredo Queimado) – 1956:

O que é: Por mais absurdo que isso hoje possa parecer, Glória Feita de Sangue, a primeira grande obra-prima de Kubrick foi recusada pela MGM que, no lugar, ofereceu ao diretor a “oportunidade” de pesquisar seu arquivo de obras adquiridas para ver o que ele teria interesse em adaptar. Kubrick, então, achou o livro Segredo Queimado (The Burning Secret, em inglês, e Brennendes Geheimnis, no original) de Stefan Zweig, autor judeu austríaco exilado no Brasil (ele viria a falecer em Petrópolis, no Rio de Janeiro, em 1942.

O livro conta a história de um barão que tenta seduzir uma jovem judia por intermédio de seu filho de 12 anos.

O que aconteceu: O roteiro chegou a ser escrito por Calder Willingham, mas jamais foi adiante, pois o texto não passou pelo crivo do totalmente imbecil e hipócrita “Código de Produção” – basicamente censura prévia – que vigia na época. 2xo para a censura!

Curiosidade: Em 1989, o livro acabou sendo adaptado por Adrew Birkin (roteirista que escreveu O Nome da Rosa). O filme foi batizado de Burning Secret, em inglês e O Segredo de um Homem, no Brasil e conta no elenco com Faye Dunaway e Klaus Maria Brandauer.

4. Blue Movie – por volta de 1967:

O que é: Hora de vocês me chamarem de mentiroso… É que Blue Movie era um projeto de Terry Southern, que escrevera o roteiro de Dr. Fantástico com Kubrick. Até aí, tudo bem, normal. Mas Blue Movie era um filme pornográfico (vocês leram direito sim: PORNOGRÁFICO) de grande orçamento que Southern queria usar como veículo para reinventar o gênero (estamos falando da época em que filmes pornográficos passavam nos cinemas ainda). Vocês conseguem conceber Kubrick dirigindo um filme pornográfico? E De Olhos Bem Fechados não conta!

O que aconteceu: É fato que Southern fez essa oferta para Kubrick, mas não se sabe, com certeza, se Kubrick teria entretido essa ideia por mais de dois segundos. Eu diria que, no mínimo, isso ficou lá no fundo de sua mente, levando-o na direção mais risqué de De Olhos Bem Fechados anos depois.

Curiosidade: Há um livro de Southern intitulado Blue Movie (de 1970) sobre um diretor de filme de arte que parte para dirigir um filme pornográfico e que é dedicado a Stanley Kubrick. Quem ficou curioso para ler agora?

5. O Senhor dos Anéis – 1969:

O que é: Eu preciso explicar o que é O Senhor dos Anéis? E sim, estou falando da obra escrita por J.R.R. Tolkien. Alguém conseguiria imaginar os livros sendo adaptados por Kubrick?

O que aconteceu: Os Beatles – sim, a banda! – haviam adquirido os direito de Tolkien naquela época e pensaram em Kubrick como possível diretor. No entanto, talvez sabiamente, Kubrick negou diretamente a John Lennon, dizendo que a obra não poderia ser filmada, pelo menos não em 1969. E todos nós sabemos o que aconteceu 32 anos depois, não?

6. Napoleão (entre 2001 e Laranja Mecânica):

O que é: O Santo Graal de todos os filmes não produzidos. Kubrick ficou fascinado pela vinda do imperador francês Napoleão Bonaparte. O próprio diretor disse que leu mais de 500 livros sobre o assunto e tinha a convicção de que nenhum filme até então teria feito jus à vida dessa figura história. Seu trabalho foi incessante durante vários meses e incluiu não só a impressionante pesquisa histórica, como, também, o desenho de figurinos, pesquisa de locações pela Europa e escolha de atores (David Hemmings era a escolha para viver Napoleão e Audrey Hepburn para Josephine). A bíblia que ele montou sobre a produção, que permitira que o filme começasse a ser filmado, hoje existe acessível ao público em geral em forma de livro, aqui.

O que aconteceu: Os custos de produção ficaram muito altos. No entanto, esse não foi o fator determinante. Os grandes problemas foram os fracassos de Guerra e Paz (1966) e, principalmente, em razão da história, de Waterloo (1970), ambos dirigidos por  Sergei Bondarchuk.

Curiosidade 1: Kubrick nunca desistiu de verdade de filmar Napoleão e usou muito de seu trabalho em Barry Lyndon, filme que se passa logo antes das guerras napoleônicas.

Curiosidade 2: Steven Spielberg, amigo e admirador de Kubrick, anunciou, em 2013, que produziria uma minissérie de televisão sobre a vida de Napoleão baseada no trabalho de Kubrick. Seria uma produção da HBO (ótima notícia), com direção de Baz Luhrmann (não tão ótima notícia…). Não é a mesma coisa, mas espero ansiosamente para conferir o resultado.

7. O Pêndulo de Foucault – década de 80:

O que é: O famoso livro de Umberto Eco, claro, sobre teoria da conspiração.

O que aconteceu: Umberto Eco pode ser um grande autor, mas ele cometeu um ato de burrice extrema aqui. Meio que chateado com o resultado da adaptação de O Nome da Rosa, quando Kubrick veio indagar se ele poderia adaptar sua outra obra, ele simplesmente se recusou. Isso é que dá ser primadonna. Pelo menos, mais tarde, ele teve a ombridade de dizer que se arrependeu…

8. Traumnovelle – década de 80:

O que é: O livro que baseou De Olhos Bem Fechados. Não, não estou maluco. Faz todo sentido esse projeto estar aqui. E sabem por que? Porque Kubrick queria fazer uma comédia estrelando Steve Martin. Ele havia adorado O Idiota, com o ator, de 1979 e queria muito trabalhar com Martin. Os dois chegaram a se encontrar algumas vezes para discutir o potencial projeto.

O que aconteceu: Mais um daqueles projetos que hoje olhamos como sendo algo surreal, mas que simplesmente foi para escanteio naturalmente, sendo revivido como De Olhos Bem Fechados e como drama erótico.

9. Shadow of the Sun – 1988:

O que é: Seria a volta de Kubrick à ficção científica, no estilo Guerra dos Mundos, mas com pitadas de comédia. Shadow of the Sun era um programa de rádio que Kubrick escutava nos anos 60 e aquilo ficou em sua cabeça até 1988 quando ele conseguiu adquirir os direitos sobre os roteiros sessentistas.

O que aconteceu: Nada de mais. Kubrick só mudou de ideia e passou a caminhar na direção de A.I. – Inteligência Artificial. Acontece nas melhores famílias.

10. Aryan Papers – 1990

O que é: Desde a segunda década de 70, Kubrick desejava fazer um filme sobre o Holocausto. Por diversas razões, especialmente seu envolvimento nos projetos que foram efetivamente a cabo, jamais conseguiu desenvolver a ideia até que, em 1990, ele conseguiu terminar de escrever o roteiro de Aryan Papers, baseado no livro semi-autobiográfico Wartime Lies, de Louis Begley, que aborda a vida de dois judeus de classe média alta que fingem que são católicos para fugirem da perseguição nazista.

Assim como em Napoleão, muito trabalho de pré-produção foi feito, com a escolha de locações, elenco (Julia Roberts e Uma Thurman eram possibilidades!).

O que aconteceu: Um tal de Steven Spielberg lançou um tal de A Lista de Schindler em 1993. Kubrick achou que a temática era muito parecida e, juntamente com sua incapacidade de lidar com o assunto de maneira que ele se sentisse confortável, acabou abandonando o projeto.

Curiosidade: Houve uma exposição organizada por Jane e Louise Wilson para o British Film Institute, em que diversos materiais reunidos por Kubrick foram mostrados ao público. Além disso, as duas produzir um documentário curta-metragem chamado Unfolding Aryan Papers exatamente sobre a progressão da produção de Kubrick. Infelizmente, porém, não encontrei esse material de nenhuma maneira.

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Qual dos filmes acima você pagaria regiamente para ver sob a batuta de Stanley Kubrick? Meu voto fica com Blue Movie! E o seu?

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.