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Todo mundo no mínimo já ouviu falar, mas poucos realmente viajaram quase 80 anos no passado para efetivamente conhecer o momento da gênese de Superman, cuja primeira aparição no número inaugural da revista de antologia de histórias em quadrinhos Action Comics, em abril de 1938 (data de capa: junho de 1938), literalmente deu partida na chamada Era de Ouro dos quadrinhos, abrindo caminho para o rico cenário atual dos super-heróis que temos tanto com as duas grandes editoras mainstream, quanto com as várias outras chamadas independentes. Assim, diante da importância histórica do personagem e da revista, e como  prelúdio para nossa futura abordagem dos números inaugurais da revista com as primeiras aparições de Superman, venha conosco em uma breve retrospectiva sobre o herói e a publicação em si.

Para o alto e avante!

Siegel e Shuster e as quatro versões de Superman

Superman, grafado como Super-Man, na verdade, nasceu careca e vilão como seu futuro arqui-inimigo Lex Luthor seria, cortesia do americano Jerome “Jerry” Siegel (1914 – 1996) e do canadense Joseph “Joe” Shuster (1914 – 1992), o primeiro filho de imigrantes lituanos (então parte do Império Russo) judeus e, o segundo, filho de imigrantes holandeses e ucranianos judeus, amigos desde os 16 anos de idade, quando Shuster, estudando na Alexander Hamilton Junior High School, escola pública novaiorquina, conheceu um primo de Siegel ao se juntar à equipe do jornal escolar. O que viria a partir daí criaria e moldaria para sempre os quadrinhos.

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As lendas: Siegel (esq.) e Shuster (dir.).

Siegel e Shuster eram o que se poderia classificar como os prototípicos nerds de sua época, amantes da ficção científica e fãs do fanzine (o uso dessa expressão, aqui, é liberalidade minha, pois ela só seria cunhada em 1940) Amazing Stories, de 1926, criada por Hugo Gernsback, nome que teria sua própria (enorme) importância neste meio e outros que começavam a surgir graças à uma espécie de rede de correspondência formada pelos “editores-fãs” s e “fãs-editores” dessas publicações que surgiam à cada esquina. No entanto, estou falando, aqui, de uma espécie de “submundo”, já que essa comunidade fanzineira era completamente underground e mal-vista assim como todo o sci-fi da época, considerado sub-literatura. E, então, emergindo dessa quase que aurora da ficção científica pop, construída em cima de ombros de gigantes como Júlio Verne, Edgar Allan Poe, Edgar Rice Burroughs, Mary Shelley, H.G. Wells e outros numerosos demais para citar, a dupla Siegel e Shuster, então, criou seu próprio fanzine em 1931. Simplesmente chamado Science Fiction, com o subtítulo presciente The Advance Guard of Future Civilization, a breve publicação (só três números) continha histórias escritas por Siegel e ilustradas por Shuster. E ilustradas é a palavra, pois a estrutura era de “contos com imagens” e não de histórias em quadrinhos como as conhecemos hoje, uma vez que a Nona Arte ainda estava em formação e o conceito de “revista em quadrinhos” ainda era, em sua maior parte, ignorado, ainda que quadrinhos no formato de “tirinhas” de jornal fossem useiras e vezeiras.

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As primeiras páginas de The Reign of the Super-Man.

Em 1933, um desses contos da dupla foi particularmente importante: The Reign of the Super-Man (O Reinado do Super-Homem, em tradução livre). Inspirado pela ideia do Übermensch que, em tradução literal para o português e que reflete a primeira tradução para o inglês do termo, seria “Além-do-Homem” (depois mais comumente traduzido como Super-Homem mesmo), trazida à lume em 1883 por Friedrich Nietzsche em Assim Falou Zaratustra, a história lidava com um arquetípico cientista louco, o Professor Ernest Smalley, que escolhe o mendigo Bill Dunn para participar de uma experiência em troca de comida e roupa. Esse experimento dá poderes telepáticos a Dunn que, inebriado pelo poder, parte para dominar o mundo um passo de cada vez, começando com pequenos assaltos, passando por apostas, chegando até à manipulação do mercado de ações (algo interessantíssimo se lembrarmos que estamos falando de quatro anos após a queda da Bolsa da Valores de 1929, gerando a Grande Depressão) e de políticos e estadistas. Dunn passa a usar o nome Super-Man para identificar-se e ele é confrontado brevemente pelo jornalista Forrest Ackerman, de aparência pacata, mas cheio de recursos. Um tempo depois, a poção de Smalley, extraída de um meteoro, deixa de fazer efeito e Dunn, que matara Smalley, não consegue reproduzi-la, tendo que voltar a ser o que era antes. Nascia, então, a primeira versão do Superman.

Entenda Ainda Mais: Übermensch

O filósofo e poeta alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 – 1900) escreveu Assim Falava Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém (no original, Also sprach Zarathustra: Ein Buch für Alle und Keinen) entre 1883 e 1891, obra originalmente imaginada como tendo três partes, mas que o autor acabou escrevendo quatro, deixando duas por fazer. A história gira em torno das viagens e pensamentos da sua versão de Zaratustra, fundador do zoroatrianismo, uma das mais antigas religiões do mundo.

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Nietzsche e sua obra.

Logo no preâmbulo, o conceito do “super-homem”, do “além-do-homem”, do Übermensch é apresentado, conceito esse que voltar a povoar e a ser desenvolvido na obra. Fica evidente que os humanos não são mais do que uma espécie de passo evolutivo, um momento intermediário entre o homem primitivo e o “super-homem”, homens evoluídos que não diferem muito do conceito de homo superior usado tantas vezes nos quadrinhos de X-Men, que também bebeu da mesma fonte.

Uma citação de trecho do prólogo da obra Nietzsche como traduzido por José Mendes de Souza, deixa claro o conceito:

O Homem é corda estendida entre o animal e o Super-homem: uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar, perigoso olhar para trás, perigos tremer e parar.

O grande do Homem é ele ser uma ponte, e não uma meta; o que se pode amar no Homem é ele ser uma passagem e um acabamento.

Assim, o primeiro Super-Man de Siegel e Schuster é, na verdade, uma perversão do conceito do filósofo, já que ele até pode ser o próximo passo evolutivo, mas sua vilania parece caminhar na direção oposta da de Nietzsche. Quando Siegel reverte a vilania, criando então o Superman (mesmo em sua primeira versão), o conceito de Übermensch, então, é abraçado mais completamente.

O que é interessante é que não só vemos uma “história de origem” não muito diferente do que seria – e que continua sendo – quase que o padrão da indústria de quadrinhos, como também não o conceito do Übermensch propriamente, dito, mas sim quase que o inverso dele. Além disso, pela descrição que passei, vê-se os elementos basilares do que viria a ser a segunda versão do Superman, de Siegel e Shuster, aquela que seria consagrada mundialmente: o vilão careca, que viria a ser Lex Luthor, a rocha extraterrestre que depois se tornaria a Kryptonita, o nome Superman e, claro, o jornalista pacato (pero no mucho) que acabaria como o alter-ego de Superman.

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A capa sobrevivente da segunda versão do Superman (repare no logotipo telescópico).

Quando, no mesmo ano, a dupla desenvolve um personagem chamado Superman só que bom moço para torná-lo mais vendável, os elementos acima foram transpostos para sua criação, que ainda teria um longo caminho até tornar-se o fenômeno que se tornou. Estamos falando de cinco anos antes de Superman aparecer na capa de Action Comics #1, com collant azul, cueca vermelha por cima da calça e capa vermelha arremessando um carro verde. Esse foi o tempo que a dupla levou para convencer um editor a comprar seu produto e, também, para refinar sua criação. Afinal, esse segundo Superman não era mais do que um homem forte, mas sem super-poderes, que se disfarçava sob a identidade secreta de Clark Kent, um repórter, atraído por Lois Lane, que o esnobava. Essa versão foi rejeitada pela Humor Publishing, editora para a qual a dupla apressadamente montou um protótipo de história, completo com capa e narrativa ilustrada quase como em quadrinhos comuns.

Entenda Ainda Mais: A Origem Secreta de Superman

Brad Meltzer, romancista americano, pesquisava sobre a vida de Jerry Siegel para seu livro The Book of Lies quando se deparou com uma notícia de jornal de 02 de junho de 1932 sobre um imigrante judeu morto durante um assalto à sua loja de roupas usadas em Cleveland. O nome do falecido era Mittchell Siegel, pai de Jerry Siegel, então um adolescentes de 17 anos. Aparentemente, a causa mortis fora um ataque cardíaco em decorrência do assalto, mas tiros também haviam sido ouvidos.

Com base neste artigo, Meltzer pesquisou um pouco mais e pode confirmar que ele era legítimo. Mas é interessante notar, como Meltzer mencionou em entrevistas, que Jerry Siegel jamais mencionar a traumática morte quando falava sobre seu passado. Ou seja, a morte de seu pai ou foi enterrada muito profundamente em sua psiquê ou simplesmente não importava. A segunda opção era improvável, pelo que Meltzer teoriza que o criador do Superman só viria a criar um herói invencível, à prova de balas, em razão da morte de seu fragilizado pai. Afinal de contas, seria improvável que um evento como esse passasse em branco completamente e não influenciasse o trabalho do então jovem rapaz.

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Quadro de The Secret Origins of Jerry Siegel & Joe Shuster, escrito por Jon Judy, com arte de Grafimated Cartoon.

Como o leitor pode notar, Superman não surgiu em 1938, mas sim em 1933, literalmente algumas semanas após o acontecido. Coincidência? Meltzer diz que não e confesso que tenho que concordar. Mas a história é ainda mais interessante.

Continuando sua pesquisa, Meltzer encontrou uma correspondência publicada no The Plain Dealer, no dia seguinte ao assalto, abordando a questão da violência e da necessidade de “justiceiros”. Quem enviou? Alguém chamado A.L.. Luther. Ora, A. Luther é próximo demais a ALEXander LUTHOR para ser ignorado. Teria o remetente sido um entristecido e revoltado Jerry? O historiador de quadrinhos Gerard Jones, autor de Men of Tomorrow: Geeks, Gangsters, and the Birth of the Comic Book, também menciona o ocorrido em seu livro e claramente conclui que Siegel tem que ter sido influenciado pela morte violenta de seu pai.

Se esse raciocínio realmente procede? Talvez nunca saberemos. Mas, como diz o ditado, “no creo en brujas, pero que las hay, las hay…

Siegel achava que essa rejeição – e outras que se seguiram – eram em razão da juventude da dupla e, com isso, ele passou a procurar outros artistas mais estabelecidos para desenhar seus textos. Claro que Shuster não gostou e, enfurecido, ateou fogo à publicação enviada para apreciação da Humor Publishing e somente a capa sobreviveu (imaginem o quanto não valeria esse protótipo!). A dupla, então, se separou.

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Russel Keaton chegou a ter participação na criação de Superman!

No ano seguinte, Russel Keaton, que desenhava tiras de jornal de Buck Rogers e que fora procurado por Siegel, cria tiras baseadas em Superman acrescentando elementos importantíssimos à mitologia, todos eles criados por Siegel neste “terceiro” momento. Na nova concepção de Siegel, a terceira versão de Superman é uma criança enviada ao passado de um futuro em que a Terra está próxima a explodir e é adotada por Sam e Molly Kent, passando a ter super-poderes, incluindo super-força e invulnerabilidade. Mesmo essa ideia evoluída, porém, foi rejeitada. No entanto, já é perfeitamente possível ver o super-herói que milhões (bilhões?) passariam a amar ao longo de quase oito décadas. E outro detalhe: essa versão explica muito claramente porque um dos apelidos de Superman é The Man of Tomorrow (“O Homem do Amanhã”), não?

Entenda Ainda Mais: Outras Influências de Siegel e Shuster para Superman

Siegel e Shuster beberam de várias outras fontes para modelar sua criação. Além do conceito do Übermensch e dos artistas de circo, os criadores também fundiram em Superman os seguintes elementos e pessoas:

1. Hugo Danner:

Apesar de Siegel ter expressamente negado essa influência, não dá para fugir dela uma vez que você tem ciência de sua existência. Hugo Danner é o protagonista do romance trash Gladiator, escrito por Philip Wylie, em 1930. O personagem ganhou superforça ainda no útero da mãe, quando seu pai, fazendo experiências, injetou um soro na esposa grávida. Seus poderes são descritos como sendo o de “pular 4o pés e correr mais rápido que um trem”, além de ter a explicação científica de sua força comparada à força proporcional de um inseto, comparação essa feita por Siegel e Shuster ao explicar a força de Superman (isso está nos quadrinhos originais). Ele é também à prova de balas. Se formos realmente a fundo, veremos outras similaridades: os pais de Danner e de Superman são cientistas, ambos são descritos como vindo de terras distantes (Danner luta na Legião Estrangeira e seu mito acaba gerando essa impressão) e assim por diante.

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Hugo Danner, o Gladiador!

2. John Carter:

Outro personagem da literatura que influenciou Siegel e Shuster foi John Carter, da série de romances de ficção científica escrita por Edgar Rice Burroughs, iniciada por Uma Princesa de Marte.  No livro, John Carter é um humano teletransportado para Marte e lá, em razão da gravidade mais baixa, ganha superpoderes, como o de pular muito alto e superforça.

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John Carter, uma das mais importante criações de Burroughs.

 

3. Douglas Fairbanks:

Douglas Fairbanks, uma dos mais famosos atores de “filmes de ação” dos anos 20 e 30, influenciou diretamente o estilo do desenho de Shuster, que usou Banks, que já vivera Robin Hood, Zorro e D’Artagnan, como modelo paras as “poses” de Superman. Vejam a imagem abaixo e digam se não conseguem imaginar Fairbanks com o uniforme do Superman.

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Fairbanks como Robin Hood.

4. Metropolis:

Metrópolis, talvez o filme de ficção científica mais importante já feito, não só teve seu nome usado para batizar a cidade adotiva de Superman como, também, o design da produção influenciou Shuster nos desenhos, bastando para isso o leitor verificar a imagem de arranha-céus desenhadas pelo artista em The Reign of the Super-Man, mais acima.

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Metrópolis!

5. Breitbart e Greenstein:

Os “homens fortes” (strongmen) de circo da época influenciaram toda uma geração. Eram os fisiculturistas de hoje e, claro, modelos de perfeição a serem seguidos por diversos jovens. Siegel era particularmente fã de dois:  Siegmunde “Zishe” Breitbart e Joe “The Might Atom” Greenstein, ambos judeus. Pode-se facilmente dizer que Superman é o resultado dessa idolatria.

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Breitbart e Greenstein em ação!

Russel Keaton largou Siegel quando percebeu que o Superman era invendável (como ele deve ter se arrependido!) e a dupla original, antes desfeita, acabou se reconciliando. Novamente laborando juntos, Siegel e Shuster lapidaram sua criação. Superman, agora, era uma alienígena que se vestia com roupas coloridas apertadas inspiradas em artistas de circo, um S no peito, capa e cueca em cima da calça. Mas o personagem, mesmo em sua quarta versão, ainda era invendável, muito provavelmente porque Siegel tinha a ideia fixa de negociá-lo com os chamados syndicates (mal traduzindo, seriam “agências” intermediadoras de publicações) que controlavam as publicações de tiras de jornal. O autor tinha certeza que, dessa forma, eles teriam emprego garantido sempre.

Era já 1935 e ambos trabalhavam profissionalmente na indústria de quadrinhos, mais especificamente para a National Allied Publications, uma das empresas predecessoras da DC Comics. Não que Superman fosse um segredo para a National Allied, pois Siegel já  havia mostrado para seus patrões e eles haviam demonstrado algum interesse. Siegel é que, diz a lenda, continuou insistindo com os syndicates e foi justamente um desses syndicates, o McClure Newspaper Syndicate, tentando ajudar, que sugeriu que Siegel reenviasse suas obras, incluindo Superman, para a própria National Allied, agora funcionando como Detective Comics, Inc. Em 1938, então, Siegel e Shuster venderiam seus direitos sobre o Superman por 130 dólares – o mesmo da quarta versão – e conseguiriam um contrato para escrever e desenhar o personagem por 10 anos. Action Comics #1 chegaria então às bancas e nunca mais sairia de lá.

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O cheque que comprou o Superman: repare no canto superior esquerdo, na primeira linha manuscrita, a menção a Superman e, em seguida, 130.00.

Claro que a história não acabou por aí. Não só o personagem sofreu, ao longo das décadas, profundas modificações e adições a seus poderes além de ganhar outras versões como Superboy e primas como Supergirl e cachorros como Krypto, como, com maior ou menor sucesso, permaneceu como o símbolo maior e responsável pela gênese dos super-heróis. Siegel e Shuster, por outro lado, tiveram que lutar bravamente por seus direitos anos depois, começando ainda na década de 40 e acabando (até agora), somente em 2013.

Entenda Ainda Mais: As Brigas Judiciais pelo Superman

Uma das questões mais discutidas por quem conhece a história do Superman é a disputa judicial que praticamente sempre existiu entre Siegel e Shuster e a DC Comics primeiro e, depois, mais amplamente, a Warner, proprietária da editora. Essa questão é extremamente complexa e não pretendo entrar nas minúcias, pois, para isso, precisaria de um artigo inteiro (ou talvez dois). Tentarei apenas enumerar as ações e as dificuldades enfrentadas por todos os lados.

O ponto que precisa ficar claro de antemão é que o cheque de 130 dólares cuja imagem pode ser vista mais acima que foi pago para os criadores, foi pago pela compra de todos os direitos sobre o personagem. Ah, mas esse valor é irrisório. Calma. Concordo que é irrisório mesmo que o atualizemos pela inflação (daria algo como US$ 2.200,00 hoje em dia). Mas ele fazia parte de um acordo maior por meio do qual Siegel e Shuster teriam emprego garantido por 10 anos na DC Comics trabalhando com o Superman. É cediço que, em 1940, cada um dos dois ganhou 75 mil dólares por ano da DC, algo que, hoje, seria o equivalente a 1,2 milhões de dólares.

Ainda acha injusto em vista da importância do Superman? Talvez, mas a estrutura do acordo era essa e convenhamos que ganhar 1,2 milhões de dólares por ano é para poucos. Muito poucos. E não, não estou defendendo a DC Comics, apenas reportando fatos coletados de diversas fontes.

De toda maneira, a questão principal da discussão judicial entre Siegel e Shuster de um lado e a DC Comics de outro girava em torno da natureza dos serviços à época da criação do Superman. Eram Siegel e Shuster prestadores de serviço para a DC ou sua predecessora e, nessa qualidade, criaram o personagem, ou eles criaram o personagem independente de sua ligação com a DC? E qual é a natureza do contrato inicial, aquele dos 130 dólares? Era a DC Comics cessionária mesmo de todos os direitos sobre o personagem? Segue, abaixo, a sucessão das ações:

1947 – Perto da expiração do contrato de 10 anos que Siegel e Shuster tinham com a DC, eles ingressaram com ação para cancelar o contrato de cessão original, ou seja, a venda dos direitos de propriedade intelectual sobre o Superman e derivados para a DC. Em 1948, a decisão saiu mantendo em vigor o contrato original, ou seja, a dupla perdeu a briga.

1947 – A dupla também ingressou com uma ação para ter reconhecido que o Superboy, criação de 1945, era deles e não da DC, o que levou a empresa a demití-los e a suprimir os créditos de criação. Em 1948, uma decisão favorável a Siegel e Shuster saiu, reconhecendo que eles eram os criadores e titulares de Superboy. Ato contínuo, as partes sentaram para negociar e a dupla recebeu 95 mil dólares como parte de um acordo em que ambos reconheciam que Superman e todas as demais propriedades derivadas eram da DC.

1973 – 26 anos se passaram e Siegel e Shuster tentaram novamente, dessa vez baseado na expiração do primeiro período de proteção autoral do Superman (eles alegavam que o segundo período seria deles). Em 1973 e 1974, eles perderam a ação e a apelação.

1975 – Notícias do estado de penúria de Siegel e Shuster levaram a DC Comics, então já de propriedade da Warner, a pagar uma pensão anual para cada um de 20 mil dólares e mais seguro de saúde.

1999 – Shuster morreu em 1992, mas seus herdeiros entraram com uma ação com base na legislação americana da época que permitia o retorno dos direitos cedidos depois de 56 anos do prazo de proteção da obra.

2004 – A coisa começou a ficar feia quando, depois de tratativas, os herdeiros de Siegel, que falecera em 1996, ingressaram com uma ação de infração contra a Warner e a Warner, em represália, fez o mesmo.

2008/9 – Uma série de ações, com alegações de fraudes por ambos os lados, tornou extremamente complexa a situação dos direitos sobre o Superman e Superboy, com repartições entre direitos nos EUA e fora dos EUA, além de discussão sobre royalties de licenciamento baseado em Superman – O Retorno e Smallville. A decisão também forçava a Warner a dar créditos à dupla e a começar a produzir um filme do Superman até 2011 sob pena de perder os direitos, o que acabou gerando O Homem de Aço, em 2013.

2013 – Uma decisão judicial finalmente (até agora) pôs fim à  contenda, consolidando os direitos sobre o personagem e seus derivados em nome da DC.

Action Comics: a revista em quadrinhos mais importante do mundo

Lançada em 1938, Action Comics é, possivelmente a mais longeva publicação em quadrinhos da História no formato que hoje conhecemos de “revista em quadrinhos” (não é a mais longeva história em quadrinhos, pois essa honra fica com a bem mais antiga The Katzenjammer Kids, iniciada em 1897 e chegando até 2006 com novas histórias, hoje sendo publicada somente na forma de reimpressões de histórias antigas) , sendo publicada seguidamente até agosto de 2011 e tendo 904 números. Mas calma, pois ela não sofreu solução de continuidade, apenas foi “zerada” e um novo número 1 foi lançado em seguida. Portanto, pode-se dizer que a revista Action Comics é publicada ininterruptamente desde 1938 até hoje.

Inicialmente, a publicação era em formato de antologia, como várias da época. Assim, havia um sem-número de histórias empacotadas em uma revista só (11 na #1, nove na #2 e assim por diante). As histórias de Superman, porém, eram a única constante, desde que o personagem apareceu na capa do primeiro número, imediatamente alavancando as vendas. É interessante notar essa característica e contrastá-la, por exemplo, com as sete capas inseridas mais abaixo, em que só duas tem o herói. Além disso, apesar de Superman ter ganhado um título próprio logo em 1939, ele nunca deixaria a Action Comics.

Entenda Ainda Mais: Os Números Mais Importantes de Action Comics na Era de Ouro

Muita coisa foi criada nas páginas da Action Comics. Que tal uma breve lista focando nos números realmente antigos? Para não ficar enorme, listei somente os números da chamada Era de Ouro.

Action Comics #1 – Primeira aparição do Superman. Ainda sem o poder de voo. O começo da Era de Ouro.

Action Comics #6 – Um jovem office boy sem nome aparece. Depois, descobriríamos, em outro título, Superman #13, que ele é Jimmy Olsen.

Action Comics #7 – Apesar de aparecer ininterruptamente em todas as edições desde a primeira, a sétima edição marca a segunda aparição do herói na capa. Por essa razão, esse número é mais valioso do que Action Comics #2.

Action Comics #11 – Superman ganha um poder novo: a visão de raio-x.

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No sentido horário, começando em cima à esquerda: Action Comics #1, 6, 7 e 11.

Action Comics #23 – Primeira aparição de Lex Luthor, que se tornaria o arqui-vilão de Superman. O primeiro nome do vilão não é revelado, apenas Luthor, e ele é desenhado com cabelo ruivo.

Action Comics #123 – Superman ganha mais um poder, esse tão ligado a ele que é impressionante ter demorado esse tempo todo: ele, agora, pode voar!

Action Comics #142 – O calcanhar de Aquiles de Superman, a Kryptonita, ganha sua cor verde finalmente.

Action Comics #221 – Esse número marca o final da Era de Ouro e o começo da Era de Prata dos super-heróis, ainda que o começo efetivo da Era de Prata tenha se dado com a recriação do Flash, na Showcase #4, de 1956.

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No sentido horário, começando em cima à esquerda: Action Comics #23, 123, 142 e 221.

 

Segundo estudiosos, a revista inaugura a chamada Era de Ouro dos quadrinhos (termo criado por Richard A. Lupoff no artigo Re-Birth, publicado no fanzine Comic Art, de abril de 1960), um momento de euforia em que diversos heróis mantendo o conceito de “super-poderes” ou “habilidades especiais” somado à fantasias multi-coloridas seriam criados, muitos deles desaparecendo logo no nascedouro; outros vários sobrevivendo até hoje. A ideia era tentar recriar o sucesso absoluto de Superman e nessa empreitada embarcaram a Timely Comics (que um dia seria a Marvel), a Quality Comics, a Harvey Comics e a MLJ, dentre diversas outras.

A grande verdade é que sem Action Comics não teríamos Superman e, sem Superman, o mundo dos super-heróis em quadrinhos talvez não existisse, ao menos não da forma como hoje o conhecemos.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.