Entenda Melhor | Grandes Discos da MPB

I – INTRODUÇÃO

A ideia: selecionar grandes discos de grandes artistas brasileiros, mas fugir da obviedade – falar um pouco sobre as “pérolas escondidas” nos catálogos desses artistas, ou mesmo sobre discos que não são tão reconhecidos como deveriam. Apenas Fruto Proibido, de Rita Lee & Tutti Frutti revela-se uma escolha realmente óbvia. Não à toa: este é, para muitos, o melhor álbum já gravado pela Rainha do Rock Brasileiro.

Do Caetano, não é Transa quem aparece em nossa lista. Do Chico, não é Construção. Da Elis, não é o Falso Brilhante. Da Gal, não é o FaTal. Da Marisa, não é o Verde, Anil, Cor de Rosa e Carvão. Talvez o disco mais fora do comum e surpreendente aqui presente seja o da Elis: trata-se de uma obra póstuma, registro de um show que, segundo as palavras de Nelson Motta, a própria cantora repudiou. Ela não queria que Live At Montreux Jazz Festival fosse lançado… mas foi. Para a nossa alegria.

 

II – OS DISCOS

Os discos não estão dispostos em ordem de preferência, mas sim em ordem alfabética, considerando-se os nomes dos artistas.

Velô (1984) – Caetano Veloso
caetano

{Caetanear o que há… de importante!}

Faixas:

  1. Podres poderes (Caetano Veloso)
  2. Pulsar (Augusto de Campos, Caetano Veloso)
  3. Nine out of ten (Caetano Veloso)
  4. O homem velho (Caetano Veloso)
  5. Comeu (Caetano Veloso)
  6. Vivendo em paz (Tuzé Abreu)
  7. O quereres (Caetano Veloso)
  8. Grafitti (Caetano Veloso, Waly Salomão, Antônio Cícero)
  9. Sorvete (Caetano Veloso)
  10. Shy Moon (Caetano Veloso)
  11. Língua (Caetano Veloso)

 

Destaques:

A incisiva O Quereres e a força da regravação de Nine Out Of Ten se destacam em um disco de arranjos esquizofrênicos – arranjos estes que frequentemente geram discórdia entre leigos e especialistas: para alguns, a breguice que há tempos anda íntima de Caetano tomou conta da sonoridade do disco e sufocou sua poesia; para outros, os saxofones e o espalhafato característico dos anos 80 só trataram de contribuir ainda mais com o lirismo do cantor e compositor, além de aproximá-lo sonoramente do rock e do pop nacionais desta década.

Sobre Podres Poderes, indiscutivelmente a melhor canção do álbum, Caetano falou o seguinte, em depoimento a Charles Gavin e Luís Pimental para o livro Tantas Canções (2002):

Podres Poderes é uma canção de explicitação do imaginário que está por trás desse desejo – uma crítica à nossa incompetência e à teimosia em manter essa incompetência como um escudo contra a responsabilidade. É o meu tema. Além do esforço para furar esse cerco que faz com que o Brasil, até hoje, apesar de tudo pelo que passamos, ainda tenha essa esmagadora maioria de pessoas sem acesso aos bens materiais e culturais.

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Chico Buarque de Hollanda Vol. III (1968) – Chico Buarque
Chico

{Música e Poesia}

Faixas:

  1. Ela Desatinou (Chico Buarque)
  2. Retrato em Branco e Preto (Chico Buarque, Tom Jobim)
  3. Januária (Chico Buarque)
  4. Desencontro (Chico Buarque)
  5. Carolina (Chico Buarque)
  6. Roda Viva (Chico Buarque)
  7. O Velho (Chico Buarque)
  8. Até Pensei (Chico Buarque)
  9. Sem Fantasia (Chico Buarque)
  10. Até Segunda-Feira (Chico Buarque)
  11. Funeral de um Lavrador (Chico Buarque, João Cabral de Melo Neto)
  12. Tema Para “Morte e Vida Severina”

 

Destaques:

Algumas das canções mais belas da música brasileira encontram-se neste álbum. A clássica Roda Viva, uma das finalistas do III Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record, é o fio condutor de Chico Buarque de Hollanda Vol. III – e também sua maior força.

No entanto, quando Chico deixa a política um pouco de lado e se entrega sem pudor ao romantismo e ao olhar cotidiano, adivinham-se obras igualmente fascinantes, como Ela Desatinou, Januária, Carolina e Sem Fantasia. Tanto as letras quanto as melodias são de primeira linha, como não poderia deixar de ser – estamos falando de Chico Buarque de Hollanda, meus caros! O arranjo arrastado e a melodia sofrida de Retrato em Branco e Preto, composta em parceria com Tom Jobim, são de uma densidade honesta e arrebatadora; fazem jus à letra primorosa de Chico. O samba de Ela Desatinou e o balanço de O Velho merecem destaque também.

Um disco de clássicos: um clássico atrás do outro. Singelo, político, brincalhão. Diluídas em doses sutis, várias das faces de Chico Buarque estão presentes em Chico Buarque Vol. III.

Chico Buarque por Frei Betto:

As letras de suas músicas recendem a poesia, esquadrinham a alma humana, pinçam Deus e o diabo nos detalhes, e subvertem a lógica e o sistema. (…) Chico é todo ele palavra.

Elis Regina Live at Montreux Jazz Festival (1982) – Elis Regina
Elis OK

{A maior cantora do Brasil}

Faixas:

  1. Cobra Criada (João Bosco, Paulo Emílio)
  2. Cai Dentro (Baden Powell, Paulo César Pinheiro)
  3. Madalena (Ivan Lins, Ronaldo Monteiro)
  4. Ponta de Areia/Fé Cega, Faca Amolada/Maria, Maria (Milton Nascimento, Fernando Brandt/Milton Nascimento, Ronaldo Bastos/Milton Nascimento, Fernando Brandt)
  5. Na Baixa do Sapateiro (Ary Barroso)
  6. Upa Neguinho (Edu Lobo, Gianfrancesco Guarnieri)
  7. Corcovado part. Hermeto Pascoal (Tom Jobim)
  8. Garota de Ipanema part. Hermeto Pascoal (Tom Jobim, Vinicius de Moraes)
  9. Asa Branca part. Hermeto Pascoal (Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira)

 

Destaques:

Uma coletânea com os melhores momentos de Elis no Montreux Jazz Festival. Tudo é divino. Desde a abertura com Cobra Criada, canção piradíssima de João Bosco e Paulo Emílio, passando pela frenética Cai Dentro, a icônica Madalena, o medley com composições de Milton Nascimento, até a performance corajosa com Hermeto Pascoal, não há uma nota fora do lugar. A desenvoltura com que Elis canta é um destaque à parte: para ela, cantar não se trata apenas de estar afinada e apresentável. Não. Cantar vai muito além disso. Ela se expõe no palco; sua; ri; chora e, principalmente, se entrega à alma da canção. Em Live At Montreux Jazz Festival, mais do que nunca, isso fica muito claro.

E, além de tudo, a maior cantora do Brasil tinha um fraseado exemplar e uma capacidade de improviso incomparável. Em pleno Montreux, ela faz jus às grandes divas do Jazz norte-americano, como Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan.

* Texto de Nelson Motta sobre o encontro de Elis e Hermeto (que não era pra acontecer – deu-se no calor do momento, de improviso, sem ensaios):

Silencio total, piano e voz. Hermeto começa a tocar ‘Corcovado’ e quando Elis começa a cantar, suas harmonias começam a se transformar, dissonâncias surpreendentes começam a brotar do piano, é cada vez mais difícil para Elis – ou para qualquer cantor do mundo – se manter dentro da mesma tonalidade, tantas e tão sofisticadas são as transformações que Hermeto impõe, tornando o velho clássico quase irreconhecível, genialmente irreconhecível. E Elis lá, respondendo a todos os saques do bruxo, com uma precisão que o espantava e o fazia mudar ainda mais os rumos de uma canção não ensaiada.

Na corda bamba e sem rede, Elis cantava como uma bailarina, como uma guerreira, como um músico. Hermeto arregalava seus olhos vermelhos atrás dos óculos. Elis crescia a cada nota, a cada frase de seus improvisos e scats, a cada compasso de seu duelo com Hermeto. Foram delirantemente aplaudidos.

Gal Tropical (1979) – Gal Costa
Gall

{O nome dela é Gal}

Faixas:

  1. Samba Rasgado (Portello Juno, Wilson Falcão)
  2. Noites Cariocas (Minhas Noites Sem Sono) (Hermínio Bello de Carvalho, Jacob do Bandolim)
  3. Índia (José Asunción Flores, Manuel Ortiz Guerrero. Versão: José Fortuna)
  4. Estrada do Sol (Dolores Duran, Tom Jobim)
  5. A Preta do Acarajé (Dorival Caymmi)
  6. Dez Anos (Rafael Hernandez. Versão: Lourival Faissa)
  7. Força Estranha (Caetano Veloso)
  8. Olha (Roberto Carlos, Erasmo Carlos)
  9. Juventude Transviada (Luiz Melodia)
  10. Balancê (João de Barro, Alberto Ribeiro)
  11. O Bater do Tambor (Caetano Veloso)
  12. Meu Nome É Gal (Roberto Carlos, Erasmo Carlos)

 

Destaques:

Dançante e divertidíssimo. Mas Gal Tropical não se resume apenas a esses dois – elogiosos, porém vagos – adjetivos. O álbum foi lançado em 1979, uma época em que Gal Costa procurava novas direções para sua carreira… e estava com a voz no auge da beleza e potência.

Desde os samba Noites Cariocas (Minhas Noites Sem Sono) até as canções mais expressivas como Força Estranha e (a belíssima regravação de) Índia, tudo revela-se muito fino, de muito bom gosto. Apesar da atmosfera descontraída, que poderia muito bem flertar com o espalhafato entregando-se a um tom excessivamente carnavalesco e fútil, Gal Tropical manteve-se à altura da cantora-da-voz-mais-deliciosamente-aguda-desse-Brasil.

Numa obra dessa qualidade, é natural que sejam muitos os destaques. Mas o verdadeiro Showstopper do disco atende pela alcunha de Meu Nome É Gal: vibrante!, principalmente em seus momentos derradeiros, quando a voz de Gal se confunde com a “voz” da guitarra e ambas brincam de cantar e tocar, este é o som que não se pode, sob nenhuma hipótese, deixar passar. O Cantar e o Tocar se mesclam, se fundem, como se fossem de fato indissociáveis.

Em meio a essa aparente diversão, um deleite de musicalidade plena e, não menos importante, brasileira.

Fruto Proibido (1975) – Rita Lee & Tutti Frutti
Rita Lee OK

{A Rainha desse tal de Rock n’ Roll}

Faixas:

  1. Dançar Pra Não Dançar (Rita Lee)
  2. Agora Só Falta Você (Luiz Sérgio Carlini, Rita Lee)
  3. Cartão Postal (Paulo Coelho, Rita Lee)
  4. Fruto Proibido (Rita Lee)
  5. Esse Tal de Roque Enrow (Paulo Coelho, Rita Lee)
  6. O Toque (Paulo Coelho, Rita Lee)
  7. Pirataria (Lee Marcucci, Rita Lee)
  8. Luz Del Fuego (Rita Lee)
  9. Ovelha Negra (Rita Lee)

 

Destaques:

Um disco que tem Dançar Pra Não Dançar, Agora Só Falta Você, Cartão Postal, Esse Tal de Roque Enrow e Ovelha Negra não poderia deixar de se tornar um clássico, não é mesmo?

A postura esnobe de Rita Lee encontra voz nas letras das canções que compõem Fruto Proibido – e, nesse sentido, Esse Tal de Roque Enrow, co-escrita com Paulo Coelho, é particularmente especial:

Ela nem vem mais pra casa
Doutor!
Ela odeia meus vestidos
Minha filha é um caso sério
Doutor!
Ela agora está vivendo
Com esse tal de:
Roque Enrow! Roque Enrow!
Roque En!…

Ela não fala comigo
Doutor!
Quando ele está por perto
É um menino tão sabido
Doutor!
Ele quer modificar o mundo
Esse tal de:
Roque Enrow! Roque Enrow!

(…)

Ela dança o dia inteiro
Doutor!
E só estuda pra passar
E já fuma com essa idade
Doutor!
Desconfio que não há
Mais cura pra esse tal de:
Roque Enrow!

Quem?
Roque Enrow! Roque Enrow! Roque Enrow!

Ao descrever o “Roque Enrow” como se este fosse um moleque folgado e misterioso que está corrompendo a pureza de sua filha, Rita Lee fez História: arquitetou, em palavras e som, uma irônica e brilhante metáfora para o espírito de sua geração: a geração jovem e libertária dos anos 70 – a geração de Janis – a geração de Hendrix – a geração de Rita – a Geração do Rock. Ou, se preferir, do “Roque”.

Quantas menininhas e menininhos já não foram corrompidos por este (eterno) moleque travesso através dos anos…

MM (1989) – Marisa Monte
Marisa OK

{Surge Marisa Monte}

Faixas:

  1. Comida (Arnaldo Antunes, Sérgio Britto, Marcelo Frommer)
  2. Bem Que Se Quis (Pino Daniele. Versão: Nelson Motta)
  3. Chocolate (Tim Maia)
  4. Ando Meio Desligado (Arnaldo Baptista, Sérgio Dias Baptista, Rita Lee)
  5. Preciso Me Encontrar (Candeia)
  6. O Xote das Meninas (Zé Dantas, Luiz Gonzaga)
  7. Negro Gato (Getúlio Cortes)
  8. Lenda das Sereis, Rainha do Mar (Vicente Matos Dinoel, Vicente Mattos, Arlindo Velloso)
  9. South American Way (Al Dublin, Jimmy McHugh)
  10. I Heard It Through The Grapevine (Barret Strong, Norman Whitfield)
  11. Bess, You Is My Woman Now (George Gershwin, Ira Gershwin, DuBose Heyward)
  12. Speak Low (Ogden Nash, Kurt Weill)

 

Destaques:

Impressionante a versatilidade da cantora, então estreante. Pela primeira vez na história, uma cantora brasileira nova lançava seu primeiro disco em formato de registro ao vivo. Um repertório arrebatador, de uma época em que Marisa Monte incorporava várias divas em uma só e se entregava de maneira descomunal às canções que traçavam seu caminho. Uma época em que ela era apenas intérprete, ainda não compunha.

Difícil encontrar um destaque em meio a tanta coisa diferente e boa. Comida, dos Titãs é, por si só, uma obra-prima. O arranjo meio jazzy abre espaço para que Marisa coloque sua voz num crescendo que se mostra perfeito para a abertura de um disco ao vivo. A balada romântica Bem Que Se Quis é seguida de Chocolate, de Tim Maia, depois Ando Meio Desligado, dos Mutantes, depois Preciso Me Encontrar, do Candeia, e por aí vai – repertório ultra versátil e de muito bom gosto, como podem aferir.

Mas talvez a interpretação mais impressionante, justamente pela maneira feroz e imprevisível com que Marisa chega ao microfone, seja Negro Gato. Miando, grunhindo, gritando e cantando como se estivesse sob a regência de alguma entidade, aqui ela atinge o sublime.

Quero aproveitar para fazer uma declaração: jamais haverá uma versão de “Negro Gato” melhor que esta.

 

III – PLAYLIST DOS SONHOS

Para você que está conhecendo estes discos só agora, montamos uma Playlist especial com 12 grandes canções:

1 – Podres Poderes (Caetano Veloso)
2 – O Quereres (Caetano Veloso)
3 – Ela Desatinou (Chico Buarque)
4 – Roda Viva (Chico Buarque)
5 – Cobra Criada (Elis Regina)
6 – Corcovado (Elis Regina)
7 – Noites Cariocas (Minhas Noites Sem Sono) (Gal Costa)
8 – Meu Nome É Gal (Gal Costa)
9 – Dançar Pra Não Dançar (Rita Lee & Tutti Frutti)
10 – Esse Tal de Rock n’ Roll (Rita Lee & Tutti Frutti)
11 – Comida (Marisa Monte)
12 – Negro Gato (Marisa Monte)

KARAM . . . Desde 1992, o ano em que foi apresentado ao mundo por duas admiráveis criaturas que logo se identificaram como "pais", Karam vem se aventurando pelos caminhos da Arte, da maneira que pode. Na música, Aretha Franklin é a sua pastora. Na Literatura, andou se entendendo muito bem com Clarice Lispector e Oscar Wilde. Embora faça faculdade de Cinema, não esconde que seu filme preferido – ao contrário do que muitos poderiam presumir – não é nenhum cult de Bergman ou Fellini, mas sim O Rei Leão; é!, aquele lá mesmo, da Disney. Um dia leu, em Leminski, que "isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além" e, assim, resolveu investir na ideia proposta pelo poeta para, quem sabe um dia, chegar ao além sem precisar passar pelo infinito – que é a pra não ter a infelicidade de esbarrar com o Buzz Lightyear no meio do caminho (fora, concorrência!).