Entrevista | Adilson Mendes – Curador da VI Jornada Brasileira de Cinema Silencioso

Antes de ser a indústria de sonhos que conhecemos hoje, o cinema foi uma atração nas feiras e quermesses do século 19. Parte do espetáculo popular, ao lado de truques, mágicas, e circo, o cinema também satirizava um olhar inovador as contradições de um mundo que se transformava rapidamente em direção à modernidade. Para criar essa atmosfera de mudanças, a VI Jornada Brasileira de Cinema Silencioso apresenta, entre os dias 11 e 19 de agosto de 2012, um experimento coletivo que abordará em diferentes sentidos a mágica do cinema.

Para complementar as informações sobre o evento, trago uma entrevista que realizei com o curador da Jornada, Adilson Mendes.

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PLANO CRÍTICO: Adilson, você pode nos contar como foi o seu envolvimento com a Jornada do Cinema Silencioso e quais as principais dificuldades encontradas no processo de organização do evento?

ADILSON MENDES: Meu envolvimento com a Jornada data desde a primeira edição, quando fiz uma crônica sobre uma atriz centenária, Lilian Rubens. O evento é um dos principais da Cinemateca Brasileira, mobiliza todos seus trabalhadores e exige muita discussão, tanto no que se refere à concepção como à execução. Muitas vezes, há uma proposta de concepção, mas de difícil realização. E assim, a produção se mistura com a concepção e vice-versa. Foi muito instigante o processo da VI Jornada. A definição dos filmes (de início uma idéia na cabeça, depois uma busca alucinante pelos arquivos mundo afora), a construção de um espetáculo teatral (o Salão das Novidades), a escolha da trilha sonora (entre o erudito e o popular).

Todo o processo exige muita clareza sobre o tipo de programação de uma cinemateca, algo entre o grande público e o especialista, sem favorecer nenhum dos dois. Por isso, essa Jornada é tão diversa e cheia de atrações aparentemente contrastantes.

PC: A Jornada de Cinema Silencioso é uma oportunidade única para os paulistanos conhecerem obras do Primeiro Cinema. O que esta 6ª edição nos traz de novidades e quais os desafios desse tipo de evento em plena era do cinema digital?

AM: Sim, a Jornada é uma excelente oportunidade para o público ver obras pouco vistas. Mas não se trata apenas do chamado primeiro cinema (1895-1907), muitos são os filmes exibidos e muito diverso é o cinema silencioso. Esse ano, teremos filmes do primeiro cinema mas também filmes de vanguarda, em que o experimento artístico é mais pronunciado.

A Jornada é uma programação muito estimulante tanto para o iniciado como para o iniciante. Engana-se quem pensa que a atividade de uma cinemateca se confunde com saudosismo, exibição de velhas obras em formatos pretensamente modernos. Uma de suas principais funções é retomar o passado e verificar sua vigência no presente, renovar referências, criar novas formas de conhecimento, formar uma cultura, uma tradição. Assim, além de proteger e restaurar, uma cinemateca preserva os filmes na cabeça das pessoas, na medida em que promove enquadramentos inesperados e conexões surpreendentes.

O advento do digital não nos colocou numa nova era, como gostam de pensar os arautos da indústria e os cinéfilos. Ainda vivemos no mesmo paradigma, que o cinema tão bem representa, com sua síntese do movimento, da velocidade, da tecnificação. O digital é mais um suporte, mas a experiência cinematográfica ainda é um laboratório importante para se entender nossa sociedade espetacular.

O advento do digital é um problema muito mais arquivístico do que estético.

PC: O Programa “Brasil: O Espetáculo de 1922” traz filmes nacionais raros, realizados no início dos anos 20. Como foi a busca por essas obras e quais eram as condições de conservação em que se encontravam? Foi preciso algum trabalho de restauração?

AM: “Brasil: o espetáculo de 1922”, assim como todo o resto da Jornada, é fruto de uma discussão coletiva. O professor Eduardo Morettin participou ativamente do debate e definiu em conjunto com a equipe de programação quais filmes seriam interessantes exibir para explorar o cinema e suas capacidades de legitimação do poder oficial. Todos os filmes desse programa foram restaurados pela Cinemateca Brasileira.

PC: Há uma grande carência de material literário e acesso aos filmes do Primeiro Cinema brasileiro, especialmente sobre os Ciclos Regionais. Ao que você atribui esse relativo descaso a esse momento do nosso cinema? É possível que em futuras Jornadas tenhamos acesso a mais filmes do período silencioso brasileiro, como os do programa “O Espetáculo de 1922”?

AM: Sem dúvida, uma das funções da Jornada é trazer ao público filmes brasileiros praticamente desconhecidos. Há dois anos atrás, a Cinemateca Brasileira lançou uma caixa de DVDS, resultado do Programa de Restauro do Cinema Brasileiro. A caixa é um acontecimento para a história do cinema, pois traz filmes incríveis, tanto para o pesquisador como para o curioso interessado no passado recente brasileiro.

Você fala em descaso e acho que a palavra é justa. Não há no Brasil uma preocupação propriamente editorial com DVDs. Os poucos filmes silenciosos que foram lançados nesse formato não possuem uma preocupação histórica, não tem comentários relevantes e a distribuição é muito setorizada. A Cinemateca pode colaborar para a transformação desse quadro e a Jornada pode ser uma ponta de lança decisiva.

PC: Como foi feita a escolha das obras que integram os Programas dessa edição da Jornada? Há algum critério específico para esta seleção?

AM: Cada programa tem sua particularidade. “O espetáculo de 1922” foi estabelecido em diálogo com o professor Morettin, assim como o “Cinema Soviético dos anos 20” é o resultado de um longo debate com François Albera, que fará na Jornada um curso sobre o tema. Esse programa exigiu meses de discussão e foi elaborado cuidadosamente para divulgar um cinema soviético pouco conhecido e, principalmente, abordado por um novo viés. Albera é um dos maiores historiadores do cinema em nossos dias e seu trabalho sobre o cinema de vanguarda é fundamental para o debate do cinema, das artes e da política. Para fortalecer ainda mais a concepção desse programa teremos o lançamento de Modernidade e Vanguarda do cinema (Azougue/Cinemateca), livro em que Albera traça com precisão o cinema e seu como arte.

O programa “Luzes e sombras” foi definido pelo pesquisador Rafael Moratto Zanatto, em constante diálogo com Juliano Gentile, o curador musical. “Luzes sombras” exigiu também muito tempo para se definir, pois o conceito buscava definir uma das vertentes musicais da Jornada, assim como retomar clássicos da cinematografia onde a investigação da cenografia e da luz tinham grande relevo.

Já o programa em homenagem à Jornada de Pordenone, esse foi mais simples, pois teve a seleção do grande pesquisador David Robinson e do arquivista Elif-Rongen-Kaynakçi.

PC: Qual o programa da Jornada apresentou os maiores desafios de escolha para você? Esses desafios estavam ligados ao excesso, escassez ou raridade das obras? Comente um pouco a respeito.

AM: Todos os programas foram difíceis de estabelecer. Mas o “Luzes e sombras” foi particularmente mais complicado. De início tínhamos o interesse de integrar as partes da Jornada na escolha dos filmes. A música e a pesquisa histórica pensando um conjunto de filmes. O conceito de Caligarismo surgiu mas depois foi cedendo lugar para uma noção mais abrangente, que abarcasse outros filmes externos ao contexto alemão. Para explorar os caminhos da cenografia e da iluminação escolhemos filmes diversos como A carruagem fantasma, Boytler em Lunapark, As mãos de Orlac e A inumana. Este último, infelizmente não conseguimos trazer para a mostra, o que foi uma perda muito grande já que ele apresenta essa disposição de fazer cinema a partir de referências artísticas modernistas na França. Uma pena mesmo não poder contar com esse filme estranho de L’Herbier.

Mas a dificuldade torna fascinante esse trabalho de programação, pois exige que o conceito seja criticado e pensado constantemente.

PC: Para você, esse tipo de evento acaba atingindo apenas cinéfilos e pessoas ligadas ao cinema ou tem a possibilidade de chamar espectadores menos familiarizados com o cinema silencioso?

AM: A proposta da VI Jornada é mostrar que o cinema antigo é muito atraente para todos os públicos e não apenas para os cinéfilos. A idéia de recuperar com o Salão das Novidades essa atmosfera do primeiro cinema busca renovar o público da Jornada, sem deixar de lado o cinéfilo.

PC: Para finalizarmos, comente sobre a sua expectativa para essa edição da Jornada. O que se espera que seja diferente, de maneira positiva, em relação aos anos anteriores?

AM: O que temos de diferente nessa Jornada é toda sua concepção. Ao invés de critérios tradicionais, como nação e autor, pensamos na diversidade de gêneros e formatos. Para isso, foi preciso que todo um coletivo se reunisse ao longo de todo ano para pensar o cinema em suas fronteiras com o teatro, o circo, a música e as artes plásticas.

O Salão das Novidades reúne assim diversas intervenções para mostrar que o cinema é muito mais do que o filme, ele é um paradigma.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.