Entrevista | Aldino Muianga, no lançamento de “A Noiva de Kebera” no Brasil

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Aldino Muianga está entre os grandes nomes da literatura moçambicana contemporânea. Ganhador do Prêmio José Craveirinha em 2009 — considerado o maior prêmio literário do país — com o romance Contravenção, Muianga também escreve contos, ensaios e já flertou com a poesia. No Brasil para o lançamento da primeira obra de sua autoria no país, o livro de contos A Noiva de Kebera, o autor falou ao Plano Crítico** [em entrevista realizada por Cida Azevedo] sobre sua produção, referências literárias e inspirações como escritor.

** Optamos por manter a maior fidelidade possível ao dialeto do autor, o que pode causar estranheza ao leitor brasileiro em alguns trechos.

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PC – Vamos começar falando de A Noiva de Kebera? É o seu primeiro livro lançado no Brasil. Fale um pouquinho dele para a gente.

AM – A Noiva de Kebera é uma coletânea de contos que tem como cenário diferentes espaços da nossa história – pré-colonial, colonial e contemporânea, isto é, pós-independência. As histórias procuram retratar as realidades – transformadas, é claro – mas as realidades do que aconteceu nesses períodos, cuja inspiração vem da própria vida das pessoas, pelo que elas passaram, a maneira como resolvem seus conflitos… basicamente é isso.

PC – E o senhor tem algum conto preferido do livro, algum de que goste mais, com que se identifique mais?

AM – Cada história acontece num determinado contexto. Dizer se gosto desta ou daquela história é extremamente difícil, porque cada uma retrata uma realidade específica. Não posso dizer, por exemplo, que “A Noiva de Kebera” como conto é melhor do que “Dois muda, quatro ganha”. Classifico as minhas histórias num determinado contexto. O que posso gostar ou não é a maneira como transmiti a mensagem. Mas pensando na história contextualizada é extremamente difícil. O mesmo em relação aos livros; eu escrevi 14 livros. Dizer se o Xitala-Mati é mais ou menos bonito que A Noiva de Kebera, por exemplo… é extremamente difícil.

PC – Por que o senhor escolheu o conto A Noiva de Kebera para ser o título do livro?

AM – Porque é um conto lapidar. É uma história que retrata nossa identidade. Retrata melhor as nossas crenças, os nossos mitos, a maneira como a gente funciona. É por aí.

PC – Quais são suas referências literárias, tanto em Moçambique como em outros países? Autores de que o senhor gosta, em quem se inspira para escrever…

AM – Eu leio desde criança. Mas leituras mais sérias acontecem quando estou no liceu (equivalente ao nosso Ensino Médio), portanto nos anos 60. Os autores que me impressionaram foram os portugueses, porque tínhamos acesso a esses livros, eram obrigatórios.  Por exemplo, Júlio Dinis, Alexandre Herculano, Almeida Garrett, até mesmo Camões. São obras de referência na minha formação em língua portuguesa. Aquilino Ribeiro também teve muita influência, sobretudo no aspecto do uso do humor quando se relata uma história. E então entrei na literatura brasileira. De fato, acho que era ela que me dizia mais coisas, que tinha mais identificação com Moçambique. E entre os escritores, o que mais me impressionou foi Jorge Amado. Não me canso de repetir isso. E outros tantos, mas esse é o nome que me ficou. E também, o modo como funciona a língua nas obras dele, o retrato da língua portuguesa, é uma coisa extraordinária. Então, minha referência principal na literatura brasileira é Jorge Amado, sem dúvidas.

PC – O senhor escreve contos, romances, ensaios, e quando mais jovem, escreveu poemas também. Tem algum gênero que o senhor prefere escrever, tem mais facilidade…?

AM – Não é fácil escrever nada (risos)! Não é. As dificuldades dependem da perspectiva da história. Talvez seja mais simples, pela prática que tenho de escrita, de ler muito conto, praticar muito conto, talvez seja mais fácil escrever um conto do que um romance. Mas assim: posso escrever um conto em um dia, e também pode levar seis meses. Posso escrever um romance num ano, mas também pode levar 4 anos. Agora mesmo estou trabalhando num romance há três anos, e tenho dificuldade de combinar uma série de elementos nesse escrito. Nesse momento, prefiro ir para o conto. E também tem a questão do tempo, eu tenho passado muito tempo no hospital, escrito literatura para jornal médico, então é mais fácil, com o pouco tempo que tenho, escrever contos.

PC – Costuma-se debater a relação dos escritores lusófonos da África com a língua portuguesa, que muitas vezes não é sua língua materna. Como o senhor lida com a ideia de escrever nesse idioma? Muitas vezes é uma literatura que critica a colonização, que é uma afirmação nacional, mas na língua do colonizador… como é a sua relação com a língua portuguesa nesse contexto?

AM – Nós, moçambicanos, adotamos o português como língua de comunicação. Temos várias línguas que ainda não são gramaticalizadas, não temos ainda regras para escrever corretamente essas línguas. Na via oral, até nos comunicamos com elas, mas na escrita, de fato é o português que permite nossa comunicação como nação. É a língua de uso no dia a dia nas escolas, no trabalho…

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Capa do livro A Noiva de Kebera, lançado no Brasil pela Editora Kapulana (2016).

PC – Dá para dizer que é um elemento de unificação?

AM – Exatamente, é a língua de unidade nacional em Moçambique. Torna possível a unificação. Eu, por exemplo, sendo do sul de Moçambique, se escrever um trecho de um romance em changana, os do norte, que são os macondos, não entendem uma palavra do que quero dizer. E vice-versa. Nota-se que nos nossos textos há expressões vernáculas, uma frase ou outra, um vocábulo mesmo, que tem uma expressão muito mais forte do que se eu definisse o conceito em português. Mas basicamente o português é nossa língua de comunicação, nacional e internacional. Além da lusofonia, também abre caminho para traduções em outras línguas, tem um alcance maior em relação à língua vernácula.

PC – O senhor fundou a Associação de Médicos Escritores e Artistas de Moçambique. De que maneira o senhor diria que sua formação em medicina influencia na sua escrita?

AM – Imenso. Eu, como médico, tenho um contato direto e profundo com o paciente. O paciente é um indivíduo numa situação particular, é um indivíduo em crise. Uma pessoa que está doente vive uma situação de estresse psicológico, físico, e é aí que eu leio o que é o ser humano. Na recolha da história clínica, ele conta histórias que não contaria em outras situações. Nós partilhamos segredos íntimos com nossos pacientes. E essas histórias se transfiguram, se refletem na minha literatura. Penetro no íntimo dessas pessoas e tento entender por que estaria a acontecer isto, como ela lê o seu próprio problema. Daí é que saem as histórias. Da percepção que a pessoa tem do seu sofrimento. Ele sempre parte de uma causa, e tem muito a ver com seus mitos, com suas crenças. É por isso que eu faço questão de valorizar a espiritualidade da pessoa. Porque reflete em muitas coisas que ela desenvolve na vida. E isso se reflete nos livros.

PC – Em 2009, o senhor venceu o prêmio José Craveirinha, considerado o maior prêmio literário de Moçambique. Como o senhor se sente a esse respeito e a premiações literárias de modo geral?

AM – Esses agradecimentos são muito importantes na vida, porque tornam maiores nossas responsabilidades. É o reconhecimento de um trabalho que foi feito com seriedade, mas o ato de receber o prêmio cria uma maior responsabilidade, como modelo, como referência. Influencia na qualidade das obras que vamos produzir, não para ganhar outros prêmios, mas porque há pessoas que nos procuram por isso. Para mim, é um orgulho pessoal. A minha obra de certo modo tem muito reflexo na vida das pessoas. E como sociedade, como comunidade, às vezes copiamos os exemplos uns dos outros. Por isso, o prêmio Craveirinha foi um marco histórico na minha vida como escritor. Me sinto muito, muito orgulhoso por isso. Mas é um acidente de percurso, na verdade, não um objetivo.

PC – O professor Nataniel Ngomane diz que sua obra é “como se fosse um cartão postal, uma radiografia da nossa sociedade”. O senhor concorda com isso?  Esse retrato da sociedade é intencional ou também é um acidente de percurso, é natural?

AM – Nas minhas obras, procuro introduzir as personagens em um cenário real, que as pessoas possam identificar. Uma espécie de fotografia. Dentro desse cenário, as personagens circulam, jogam umas com as outras e fazem uma história que também é basicamente real. Não fujo muito à realidade. O que faço é transfigurá-la, claro, isto é ficção. Senão seria jornalismo! (risos) Mas concordo com o professor Ngomane quando diz isso, e sinto que é intencional de fato. Até mesmo os nomes dos locais. Se você for a Moçambique um dia, e for a um lugar que está escrito aqui, verá que é o que está no livro. As cores, as coisas que lá estão, as árvores, os caminhos… tudo isso é real.

PC – A literatura moçambicana infelizmente ainda é pouco conhecida no Brasil.  Normalmente, ainda está restrita ao meio acadêmico. O que o senhor diria aos brasileiros que ainda não conhecem sua obra e a de outros autores de Moçambique?

AM – Para organizar esse tipo de iniciativa. Alguns escritores têm que vir ao Brasil, publicar no Brasil, e criar circuitos de circulação. Introduzir alguns contos em escolas secundárias, e livros nas universidades, nos cursos de literaturas africanas. Visitas como essa que estou a fazer agora, contato com universidades, palestras, partilha de ideias através de debates, são ideias que podem dar resultados no futuro.

PC – É sua primeira vez no Brasil?

AM – Sim, mas virei mais vezes.

PC – Está gostando?

AM – Imenso. Há muitas semelhanças no modo de ser das pessoas. Os brasileiros são bastante alegres, os moçambicanos também somos – não tanto agora, por causa das guerras – mas temos muita coisa em comum.  A história, a língua, o modo de ser.

PC – Com certeza. Muito obrigada pelo seu tempo e simpatia!

AM – Eu que agradeço pela atenção da audiência. Leiam o livro, vocês vão gostar, tenho certeza.

A Noiva de Kebera – Angola, 1999
Autor: Aldino Muianga
Publicação: Editora Kapulana, 2016
158 Páginas

CIDA AZEVEDO . . . Paulistana que sonha em morar no mato, aquariana que sonha com outro planeta, enquanto não realiza o que pode ama viajar pelo mundo afora e pelos livros adentro – e ama falar sobre essas coisas todas também. Como não foi chamada pra trabalhar em Hogwarts, dá aula por aí em escolas bem menos legais, e nas horas vagas trabalha no YouTube (youtube.com/compartilivros). Aprendeu com Drummond que sofrer pode ser divertido. Aprendeu com um boxer chamado Sirius Black que cachorros são legais e pessoas são chatinhas.