Entrevista | Leonardo Campos: Linguagem dos Filmes de Terror

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Leonardo Campos é especialista em cinema e videoclipe, formado em Letras, atua como professor de literatura. Crítico de cinema, ele assina em diversas revistas especializadas e é colunista de Cinema aqui do Plano Crítico. Em fase de conclusão do mestrado no Instituto de Letras, da Universidade Federal da Bahia, Leonardo também é bolsista na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia – FAPESB – e desenvolve estudos sobre a crítica de cinema na internet.

A entrevista que se segue, realizada pela jornalista Juliana Rocha (DRT 2861), traz a temática do projeto “Filmes de Terror: Evolução da Linguagem e Investigação Histórica”, idealizado por Leonardo Campos.

Juliana Rocha: Como surgiu a motivação/intenção de analisar filmes de terror no atual contexto contemporâneo das novas mídias?

Esse projeto surgiu desde 2012. Na verdade, nas últimas oficinas de análise fílmica e crítica cinematográfica, realizadas entre 2012 e agosto desse ano [2014], inclui filmes de terror como objetos de análise. Primeiro, porque devo ao gênero o meu interesse por cinema. As primeiras manifestações de cinefilia e os “cineclubes” envolvendo primos e colegas de condomínio nos idos dos anos de 1990, 1991 surgiram nessas sessões, geralmente gravadas em fita VHS da Tela Quente, exibida na Rede Globo. Lembro ser Sexta-Feira 13 — Parte 7 o primeiro filme que assisti com “consciência” cinéfila. Segundo, acredito que os filmes de terror são adornados por alegorias muito interessantes para tratar de questões ligadas ao cinema e à sociedade. Vejamos, por exemplo, O Massacre da Serra Elétrica, de 1974, de Tobe Hooper. O título apelativo sugere tantas coisas, mas poucas sabem se tratar de um filme marco da contracultura, apresentando questões críticas no que diz respeito à Guerra do Vietnã, Crise do Petróleo…

JR: Qual o público-alvo esperado para esse encontro?

Apesar de ser um tema que atrai o público jovem, esse é um encontro para qualquer idade. Tenho convidados que são empresários, alguns são professores de áreas como as ciências exatas, cinéfilos, curiosos e bastante gente do âmbito acadêmico. Essa é uma previsão baseada nos últimos encontros. O evento apresentará uma leitura acadêmica dos filmes de terror, mesclando investigação histórica com análise fílmica. A formalidade acadêmica estará no texto da palestra, com as suas devidas observações teóricas. Mas isso não impede que seja um evento divertido, que rasure algumas barreiras tradicionais. Por exemplo, por ser uma palestra num palco de teatro, em alguns momentos pretendo trabalhar com a noção de representação, trazer a metalinguagem para a cena, sabe?

JR: Quais os filmes mais representativos do gênero terror serão analisados e em que abordagem?

Esse lance de filmes mais representativos é uma questão bastante problemática, pois estabelece, assim como nos manuais de cinema, uma espécie de cânone, e, eu, geralmente, fujo disso. Mas vamos lá. Nosferatu e O Gabinete do Dr. Caligari serão os exemplares do cinema alemão considerado expressionista. Há filmes que são marcos alegóricos dos medos sociais e de questões sociológicas, como A Noite dos Mortos Vivos, O Massacre da Serra Elétrica e O Exorcista. Os filmes da série Sexta-Feira 13 também ganharão destaque, pois busco compreender o status de celebridade do personagem Jason, bem como certa atmosfera moralismo nestes filmes. Se observarmos detidamente, percebemos que tudo envolve sexo e drogas, numa época em que a AIDS era um dos principais temas debatidos na mídia. Há também algumas questões bem notórias no que tange as questões de gênero e sociedade. Na seara do absurdo, aproveitarei para apresentar o legado de Tubarão, de Steven Spielberg, a metalinguagem e autocitação da série Pânico, entre outros… ah, e o chamado “terror de classe”, ou seja, filmes como O Sexto Sentido, Os Outros e O Silêncio dos Inocentes.

 

JR: Existe uma relação entre a literatura e o terror? De que forma é percebido esse entrelace?

Sim. Segundo os principais manuais, o cinema nasceu em 1895. A famosa descrição da exibição dos irmãos Lumière, na França. Naquela época, já havia um legado imenso de produção literária, principalmente de terror, de temas fantásticos e insólitos. Edgar Allan Poe e até mesmo Fausto, de Goethe, clássico da literatura alemã, ecoaram na produção cinematográfica desde os seus primeiros anos. Drácula, Frankenstein… são personagens da literatura adaptados diversas vezes para o cinema. Recentemente revi o filme Premonições, com a Sandra Bullock, lançado em 2007. Pela atmosfera assinada pela direção de arte e pelo roteiro, é possível perceber a relação com alguns contos de Edgar Allan Poe, sem isso necessariamente ser creditado pelo filme.

JR: Como se dá a evolução da linguagem do cinema no gênero terror?

A evolução da linguagem dos filmes de terror está aliada ao avanço tecnológico do cinema. A iluminação e os enquadramentos oblíquos de filmes como Nosferatu, por exemplo, ganharam mais força com o advento do som no cinema, no final da década de 1920. Hitchcock foi um desses diretores que souberam utilizar bem a relação entre imagem e som. Psicose é um primor visual e um excelente trabalho de engenharia de som. O surgimento do cinema em cores nos idos dos anos 1930 possibilitaram novas abordagens nos filmes do gênero. A mixagem de som, os enquadramentos, as possibilidades narrativas do gênero terror evoluíram ao passo que o cinema evoluía.

Público do minicurso sobre Crítica de Cinema na Loja Saraiva, em junho de 2013. O Massacre da Serra Elétrica foi o filme analisado.

JR: Qual expectativa e contribuição esperada frente a essa proposta de debate inédito em Salvador?

Espero contribuir para uma visão menos preconceituosa e mais crítica das pessoas, principalmente os estudantes universitários, em relação aos filmes de terror. Não sou um fanático pelo gênero, compreende? Já trabalhei com dramas como As Horas, Casa de Areia e Névoa, com vários filmes nacionais; com Pedro Almodóvar, Woody Allen, mas acho que trabalhar alguns filmes de terror quebram as barreiras do lugar comum. Em junho de 2013, dei um curso na Saraiva do Salvador Shopping. Era sábado, dia de jogo do Brasil pela Copa das Confederações. Achei que não teria público, por ser final de semana, 18 horas, após jogo do Brasil, e, principalmente, por tratar de uma análise de O Massacre da Serra Elétrica, de 1974. E não é que me enganei? Para uma sala de 45 poltronas, tive 80 pessoas no evento, curiosas, que questionavam como e porque analisar um filme daqueles, se isso seria academicamente possível. E foi. Segundo as fichas de avaliação do evento, apenas uma das pessoas dizia não curtir o gênero. No geral, o público dizia jamais ter imaginado o filme daquela maneira. Então espero contribuir desta forma. Pesquiso crítica de cinema no mestrado, por isso, tenho interesse em continuar exercendo a crítica de cinema e promovendo o debate entre pessoas que tem o mesmo interesse que o meu: cinema!

JR: Por último, mas não menos importante: filmes de terror e sala de aula. Como funciona isso?

Espero que você não faça nenhuma relação com o filme Professora sem Classe, comédia com a Cameron Diaz. Neste filme, ela exibe o filme Pânico, na sala de aula, sem a menor pretensão em refletir nada. No meu caso, percebi que os filmes de terror atingem os estudantes mais jovens. Vejamos: a representação do negro nos filmes de terror, o bullying em Carrie – A Estranha, a construção de sentidos em O Silêncio dos Inocentes, o código sexual na época do auge e das incertezas em relação a AIDS na série Sexta-Feira 13. Há também a contracultura em O Massacre da Serra-Elétrica. Outro bom exemplo é O Exorcista. Tem também o recente Livrai-nos do Mal. Ambos possuem uma ligação tênue com os conflitos bélicos entre os Estados Unidos e o Oriente Médio.

Serviços

Encontro: Filmes de Terror: Estética e História

Data: 31/10/2014

Local: COLÉGIO OBJETIVO – Rede Particular – Simões Filho – BA

Horário: 19 às 12h

Encontro: Filmes de Terror: Evolução da Linguagem e investigação histórica

Data: 03/11/2014

Local: FACULDADE DE TECNOLOGIA E CIÊNCIAS

Horário: 19 às 22h

Encontro: Hitchcock e o marketing de Psicose

Data: 04/11/2014

Local: FACULDADE DE TECNOLOGIA E CIÊNCIAS

Horário: 19 às 22h

Encontro: A representação do negro nos filmes de terror: mapeando estereótipos

Data: 12/11/2014

Local: Rede Municipal de Lauro de Freitas – BA – Participação da pesquisadora Sandra Souza (UFBA)

Horário: 14 às 18h

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.