Entrevista | Maria Celestina Fernandes: Escritora Fala Sobre Literatura Infantil, Representatividade e Machismo

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Maria Celestina Fernandes começou escrevendo para os filhos. Os livros fizeram tanto sucesso com os pequenos que ela decidiu dividir suas produções com mais crianças pelo mundo — e lá se vão mais de 20 anos e diversos livros publicados desde então. No Brasil, seu livro A Árvore dos Gingongos (DCL, 2009) ganhou a menção de “Altamente Recomendável” pela Fundação Brasileira do Livro Para Crianças e Jovens. No ano passado, a autora publicou no país a obra Kalimba (Kapulana, 2015), um dos assuntos da conversa que tivemos [nossa colunista Cida Azevedo] em novembro de 2016, reproduzida abaixo.
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PC – A senhora escreve tanto para adultos quanto para crianças, mas suas biografias sempre dizem que sua preferência é o livro infantil. Que diferenças a senhora vê entre esses dois públicos e por que prefere escrever para os pequenos?

MCF – Tudo começou com a escrita para crianças. Eu comecei a escrever para os meus filhos, era um jogo, uma brincadeira. Eu lia muito para eles, até que decidi escrever eu mesma. E foi uma surpresa maravilhosa, porque eles gostaram muito! Se dependesse deles, eu escreveria um conto por dia — o que era impossível. E fui escrevendo, até que outras pessoas tomaram conhecimento das obras. Foi o escritor António Jacinto quem levou alguns contos para a União dos Escritores de Angola, e daí surgiu meu primeiro livro, A Borboleta Cor de Ouro, em 1990. E muitos se seguiram. E depois de muito escrever para crianças, um dia decidi escrever para adultos. Comecei com poesia e depois decidi estender um conto, então surgiu o primeiro romance, Os Panos Brancos, depois o segundo, A Muxiluanda. Muxiluanda quer dizer “natural da ilha de Luanda”. É um povo com características muito especiais, muito diferentes de nós, do continente. Fiz uma pesquisa sobre os costumes daquele povo e surgiu o A Muxiluanda, que gira em volta da personagem, Jacinta, e sua trajetória, que inclusive passa pelo Brasil. Mas, de fato, minha paixão mesmo é literatura infantojuvenil.

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PC – É comum escritores que escrevem para adultos e crianças afirmarem que preferem a literatura infantil, né?

MCF – Sim, embora escrever para crianças seja um exercício mais difícil, porque tem que se colocar na pele da criança. E muitos escritores não interiorizam isso. Pensam que escrever para crianças é fácil, acham que qualquer coisa serve, e não é verdade! A criança também é crítica e muito exigente. Lembro que quando escrevi A Árvore dos Gingongos — gingongo é uma palavra quimbundo que quer dizer “gêmeos” — o ilustrador desenhou o casal de personagens, Manuel e Maria Manuela, como dois rapazes, e as crianças não aceitaram isso. Elas veem que na história é uma menina e um rapaz. Através da ilustração, se tecem histórias, por isso é importante que ela seja bem-feita. O escritor tem que trabalhar estritamente com o ilustrador.

PC – O Kalimba foi ilustrado por uma brasileira. Como foi esse processo, então? Vocês conversaram?

MCF – Muitas idas e vindas. Muitos e-mails trocados, mas foi tudo bem. Saiu uma ilustração muito bonita, mas foi um trabalho muito apurado, “olha, faça assim”, “não é bem assim”… Para uma pessoa que está no Brasil e não conhece a África, muitas vezes a imagem é um bocado distorcida. Então eu sempre participo, seja aqui, seja em outro país. Tem que ser um trabalho conjunto. 

PC – Acompanhei uma mesa de discussão na FlinkSampa na qual a senhora falou sobre a dificuldade de se trabalhar com cultura em um país pobre, em que a cultura sempre acaba ficando para segundo plano. Como é isso em Angola hoje?

MCF – Angola não é propriamente um país pobre, pois tem muitos recursos. O problema é que esses recursos são mal distribuídos.

PC – Como acontece no Brasil também, inclusive.

MCF – E como acontece em grande parte dos países subdesenvolvidos, a cultura não é prioridade. Então não é fácil ver as nossas obras publicadas, divulgadas, trazidas para além das fronteiras – o que é muito importante, precisa haver traduções. Por exemplo, eu já tive três nomeações para o prêmio sueco Astrid Lindgren, mas com obras escritas em português. Então isso é um problema, essas coisas fazem com que nossa literatura não se desenvolva convenientemente, como o desejado. Mas agora eu tenho obras traduzidas para o sueco, o inglês, o coreano, o italiano… portanto, vão aparecendo algumas traduções.

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PC – E desse processo de tradução, a senhora participa? Porque tem muitas expressões locais nas obras, né?

MCF – Eu tenho a preocupação de sempre colocar um glossário para as pessoas entenderem. No Kalimba mesmo tem. Então isso ajuda bastante na compreensão do texto.

PC – Qual a importância que a senhora dá para a representatividade nas obras infantis, a ideia de a criança se enxergar na história? Aqui no Brasil, por exemplo, as crianças aprendem desde cedo contos europeus, que não representam a vida delas…

MCF – Penso que é muito importante. O país deveria dar mais atenção à escrita dos escritores angolanos, porque durante muito tempo nós não tínhamos literatura nossa. Foi a partir da Independência (em 1975) que começaram a aparecer os primeiros escritores, é muito recente. Então seria bom dar ênfase à nossa literatura, levar para as escolas, incluir no Plano Nacional de Leitura, que ainda está numa fase muito insipiente. Nós vamos a vários lugares do país e ficamos constrangidos porque quando vamos falar de literatura com as crianças, ainda se buscam referências da literatura ocidental. Vão falar do Patinho Feio, Soldadinho de Chumbo, Cinderela, Branca de Neve…quando já podíamos falar da nossa literatura. Isso mostra que não há um trabalho coeso entre escritor, distribuidora, editora… lá as editoras são muito paradas. O livro é editado e propagado naquele momento, mas depois quase não se fala dele. As crianças acabam por não ter acesso. Nós temos um índice grande de analfabetismo, as famílias não leem. Mesmo as famílias que já estão no nível médio, que têm uma certa formação escolar, mesmo nessas pouco se lê. Então, se a família não lê, quem tem que incentivar é a cultura e a educação. Espero que nossas obras sejam prioridade para as crianças. Que a nossa cultura seja vista de uma forma mais simples, porque temos que adequar, usar termos apropriados para que as crianças entendam. Mesmo que seja um tema penoso, como a morte — nós lidamos muito com a morte, tivemos uma guerra civil muito prolongada e não há como fugir desse tema, é comum na nossa literatura tanto infantil quanto adulta — essa linguagem tem que ser colocada de uma forma que não traga constrangimentos, não acarrete medos, frustrações. É preciso que a literatura, juntamente com a ilustração, seja adequada ao público.

PC – O escritor angolano João Melo diz que “numa sociedade onde é interdito às mulheres verbalizar os seus desejos e paixões, a atitude de Maria Celestina não deixa de ser política, no sentido mais nobre da palavra”. Como a senhora vê sua trajetória enquanto mulher escritora? Em que sentido ser mulher influencia na sua escrita ou na recepção de suas obras?

MCF – A nossa sociedade é muito machista. Pelo que eu já produzi, se eu fosse homem, já estaria em outro patamar. Há muito preconceito.

PC – Tem que trabalhar mais para chegar no mesmo patamar.

MCF – Exatamente. O problema é esse. E às vezes a gente encontra trabalhos de homens que nem chegam ao patamar do nosso trabalho, às vezes está muito abaixo, e ele está acima, tem mais visibilidade do que nós. A sociedade é machista, a mulher ainda é relegada para segundo plano. Cresce e aparece, mas a luta continua.

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PC – A senhora tem uma produção vasta, mais de 20 anos publicando livros. Algum deles é seu favorito, seu xodó?

MCF – Sempre que me perguntam isso eu falo dos meus filhos. Se me perguntam se eu gosto mais do Mário ou do João, digo que gosto de ambos da mesma forma. Talvez, por ser o primeiro, tenha marcado A Borboleta Cor de Ouro, porque é sempre uma alegria muito grande, a gente fica deslumbrado quando vê pela primeira vez a obra editada em livro. Mas são meus filhos, todos.

PC – Existe um debate a respeito da função da literatura infantil. Há quem defenda que ela deve, antes de tudo, divertir; há quem defenda seu viés educativo, acha que ela deve ensinar, moralizar… como a senhora vê isso?

MCF – Eu vejo um equilíbrio. As minhas histórias recreiam, mas também educam. Não aparece de forma muito explícita a moral, mas ela está lá.

PC – É uma preocupação sua, então.

MCF – É sim. Trabalho isto com muito cuidado para que o livro não se torne chato. Não é um livro didático! Mas através da literatura também vamos educar. A transmissão de valores está lá. Então, busco equilibrar. Tenho um livro, por exemplo, sobre preconceito racial, bullying. Mas vou buscar uma formiga albina, que é desprezada, e encontra uma vermelha, que também é diferente das outras, pretas. E elas se apaixonam, e a moral é essa: somos todos diferentes, temos que nos respeitar tal como somos.

PC – Muito se fala sobre o valor da tradição oral na África. A senhora incorpora isso na sua obra?

MCF – Sim. O próprio Kalimba é a adaptação de um conto tradicional do leste de Angola. Esse conto me foi contado por uma pessoa há muitos anos, e um dia fui buscar na minha memória, trabalhei à minha maneira, e está aí: um registro da nossa literatura oral. Ela é muito importante e nesse momento começa a desaparecer por falta de registro. Temos o Oscar Ribas, que fez uma coletânea de contos tradicionais daquela região de Luanda, o Missosso, em três tomos. Ele faz um trabalho muito bom, e é importante porque sem registro, a tradição se perde. E eu tenho muitas histórias baseadas na nossa tradição. A Árvore dos Gingongos mesmo fala sobre o nascimento de gêmeos, que é muito importante na nossa cultura, e como são criados, como são mimados… e há muitos outros exemplos.

PC – No Brasil, existe uma lei que determina que se trabalhe literatura e cultura africanas nas escolas. Elas estão na base da nossa cultura, da formação do Brasil, mas historicamente foram deixadas de lado. O que a senhora acha de iniciativas como essa?

MCF – Muito boas. Precisamos conhecer nossa origem, nossa matriz. Através da literatura africana, as pessoas podem conhecer um bocadinho da Mãe África, porque há um conceito ainda muito deturpado. Já começa por muitos pensarem que a África é um país! África é um continente, tem vários países, cada país tem sua especificidade. Temos pontos em comum, como há na Europa, na América Latina. É bom que conheçam essa cultura. É uma iniciativa muito bonita, e para nós, escritores africanos, também é ótimo.

PC – No Brasil, as crianças hoje têm acesso à tecnologia desde muito novas, e muito se fala sobre as dificuldades de interessá-las pela literatura nesse contexto, que esse é o grande desafio do escritor ou educador do século XXI. E em Angola, como é isso? Quais são os desafios atuais para o escritor de livro infantil?

MCF – Nas zonas urbanas de Angola, o problema é o mesmo. A tecnologia está lá, o fácil acesso à internet, então é preciso motivar as crianças para o livro. Isso deve ser um trabalho conjunto, das escolas, da cultura… não é só colocar o livro lá. Precisa de incentivo. E muitas vezes o próprio texto não incentiva. Precisamos de escritores que se debrucem a escrever para crianças e jovens pensando não só na criação, mas também na formação do público. As tecnologias são boas, mas o livro é necessário. E ele deve ser bom, ser atraente. Desde cedo, mesmo sem saber ler, as crianças devem ter contato com livros. Pegar o livro, manusear, tecer suas próprias histórias através das ilustrações. Uma criança que tem contato com o livro desde cedo com certeza vai se tornar um bom leitor. Agora, nas zonas rurais, as tecnologias tardam a chegar e o ensino não é muito extensivo. As escolas ainda não estão bem equipadas, é muito precário. Também temos o problema da energia: falta energia elétrica. Para essas zonas, o livro é o mais importante. E ele tem que chegar, nas escolas, bibliotecas, contadores de histórias, mediadores… uma rede de incentivo para formar leitores. É necessário que se criem essas condições.  Isso é o mais importante: que o livro chegue nas mãos dos leitores.

Kalimba – Angola, 1992
Autora: Maria Celestina Fernandes
Publicação: Editora Kapulana, 2015
32 Págins

CIDA AZEVEDO . . . Paulistana que sonha em morar no mato, aquariana que sonha com outro planeta, enquanto não realiza o que pode ama viajar pelo mundo afora e pelos livros adentro – e ama falar sobre essas coisas todas também. Como não foi chamada pra trabalhar em Hogwarts, dá aula por aí em escolas bem menos legais, e nas horas vagas trabalha no YouTube (youtube.com/compartilivros). Aprendeu com Drummond que sofrer pode ser divertido. Aprendeu com um boxer chamado Sirius Black que cachorros são legais e pessoas são chatinhas.