Fora de Plano #04 | Rolezinho in the Deep

Em tempos de rolezinho e internet, não é difícil encontrar defensores dos fracos e oprimidos e detratores segregacionistas falando pelos cotovelos, analisando questões sociais, condenando pessoas. Os extremistas são os primeiros a aparecer quando um grande problema surge e geralmente são eles os mais ouvidos, daí a cara de apocalipse que as coisas acabam tendo no final das contas, um fator agravado pela patológica falta de memória que acomete uma gorda parcela da população brasileira (embora não sejamos os únicos latinos a sofrer desse mal).

Quem nunca fez rolezinho, que ostente o primeiro “NÃO”. E não há aquele que não tenha feito. Encontrar-se com amigos, rir, pegar mulher (ou homem), agir como adolescente ou jovem é algo normal para pessoas da atual e de antigas gerações. Às vezes esses encontros aconteciam em praias, em praças, em parques e em Shoppings. Eu mesmo ia esporadicamente ao Shopping com meus amigos, quando adolescente, assistir filmes e depois comer alguma coisa na praça de alimentação. Era um evento e ia muita gente: preto, branco, amarelo, pobre e de classe média, todos estudantes que queriam apenas uma coisa: se divertir.

Agora, fazendo as contas… quantas vezes eu e meus amigos fomos barrados ou expulsos do baile do Shopping? Bom… nenhuma. No máximo o segurança chamava nossa atenção quando subíamos as escadas rolantes pelo sentido contrário, só que como todo mundo morria de medo deles, ao perceber que vinham ao nosso encontro, fingíamos estar no sentido certo e seguíamos nosso rumo. Nós causávamos até o ponto em que a educação recebida em casa permitia.

Maaaah, protestaaaaando, ôeeeee!

Mas os rolezinhos mudaram de figura.

O grupo de jovens se transformou numa massa de encrenca e a diversão acabou sendo substituída por outra coisa. Numa pesquisa básica na internet, é possível ver que na configuração atual, os rolezinhos aconteceram de forma mais ou menos tranquila até 2012, com o mesmo grupo de jovens das periferias que hoje estão na mira da imprensa e da polícia. Para contrariar, há uma entrevista bastante famosa de dois garotos que dizem ter feito rolezinhos perto da casa deles e em “campinhos” e mesmo assim terem sido reprimidos. Fora eles, não vi mais nenhuma declaração a respeito, o que me deixa com a bandeira da dúvida hasteada.

Então, o que causou a mudança da configuração “permitida” dos rolezinhos até 2012 para os que explodiram no final de 2013?

Em primeiro lugar, uma aleijada ideia de protesto se adicionou ao evento que, a princípio, era apenas uma reunião de amigos. Isso é que é mudança! De entretenimento para protesto, sem nenhuma consciência ou intenção políticas! Parece novela de Dias Gomes com ideologia da Terra do Nunca!

Fazer protesto em Shopping é tão útil e tem tanto sentido quanto dar nome, sobrenome e nacionalidade a todos os pelos do corpo.

Nós temos séculos de História e ocorrências de protestos realmente úteis que aconteceram… aonde mesmo? NA RUA!!! Lugar de fazer protesto não é protegido do sol, com ar-condicionado, cheirinho gostoso de almoço e gente bonita passeando alegre e feliz. Isso não é protesto, é Parada de Ursinhos Carinhosos!

Eu ouvi e li muitos depoimentos de adolescentes falando sobre os tais arrastões e repressão policial. Como sempre, em casos assim, a polícia não está preparada para agir, mas aí temos um problema. Não é, a rigor, uma questão racial ou de classe (falaremos disso adiante). Querem um exemplo básico? Lembram-se como começaram os protestos paulistanos em Junho de 2013? A galera do rolezinho estava lá? Quem era a maior parte das pessoas que apanhavam, eram presas e por aí vai? [vamos tirar aqui as pessoas que realmente mereciam isso, os destruidores, infiltrados, ladrões, aproveitadores e afins, assim como acontece no caso dos rolezinhos]. Depois, a força policial amainou a força, mas a coisa não começou bem. Todavia, ninguém reclamou de que os branquinhos, pardos e outras paletas de cores de pele estavam sofrendo preconceito. Tampouco as pessoas de classe média. Ou as de classe baixa. Ou a jornalista de ficou com um olho parecendo uma beterraba mutante…

É tempo de saber diferenciar problemas: o que é preconceito e o que é truculência policial e derivados, coisas que podem ser desferidas contra qualquer pessoa.

Ao perturbar a ordem, é evidente que a força de repressão será forte e ultrapassará os limites, mas, ora, o que espera uma pessoa que faz protesto (assumindo por um minuto que os rolês sejam protesto)? Ser acariciada por modelos suecas de biquíni e uma cadeira de praia nas areias quentes das Bahamas? Protestos são manifestações garantidas pela constituição, mas, infelizmente não são encarados assim, mesmo quando acontecem onde deveriam acontecer: na rua! Imagine só dentro de um espaço privado!

Racismo, burrice, canalhice e pseudice

Não há dúvidas que o mundo é preconceituoso. As pessoas falam do Brasil como se fosse o único lugar do planeta onde há preconceito. O mundo é preconceituoso e o Brasil não é diferente, o que é um paradoxo, porque esse país parece um pote de doces sortidos, tem de todos os sabores, cores, tamanhos e formatos. Mas há preconceito. Porém, como é possível mudar o preconceito no país? Fazendo baile funk num estacionamento de Shopping?

É óbvio que ninguém deveria ser barrado em lugar nenhum porque tem cara de pobre, de classe média, de Tony Stark, porque é preto, pardo, rosa, verde, ninja, feio, canhoto ou ninfomaníaco. A Oprah passou uns perrengues recentemente na Suíça devido a preconceito racial. A Oprah! Na Suíça! E vem socialóide formado por correspondência me dizer que o que acontece aqui no Brasil é um caso único de preconceito? Que é apartheid? Esse povo sabe o que é apartheid? O preconceito existe sim e infelizmente ele se volta com força para minorias étnicas, de gênero, de pulsão sexual ou classes sociais. Todavia, não é um caso isolado aqui nos trópicos, e não vai ser mudado com encontros divertidos de adolescentes em Shoppings de São Paulo. Se querem fazer alguma coisa útil a respeito, que façam rolezinho na escola mais próxima, em frente à Prefeitura da cidade ou ao Palácio dos Bandeirantes.

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As análises para este caso são muitas, mas poucas se dispõem a olhar para os vários lados. De um, temos a babaquice de adolescentes e jovens em querer fazer de um ambiente privado um centro de convenções onde podem gritar, pular e dançar à vontade. Do outro, temos os mal intencionados que se aproveitam da ocasião para roubar, arrastar, causar o caos. Há o lado da polícia, que acaba colocando tudo num mesmo balaio e age como se estivesse domesticando trasgos montanheses. Há o lado dos preconceituosos, que hostiliza e adjetiva esses jovens. Há o lado dos socialóides, que acham que tudo é protesto, que é luta de classes e preconceito racial.

E há um outro lado…

Shopping não é lugar de fazer protesto. Não é lugar de fazer baile funk. Não é lugar de fazer pegação. Todo mundo, independente de classe, cor, credo ou super poderes deveria gozar dos privilégios que a sociedade oferece (é legenda rosa, mas ok), contudo ninguém tem o direito de se achar dono de um lugar que já tem dono e se portar como se estivesse com os amigos na sala de casa.

Todo jovem bagunça. Todo jovem grita e causa. Mas não é todo grupo de jovem que é expulso de um Shopping só porque se excedeu um pouco. O rolezinho, do jeito que está hoje, atrapalha até quem faz parte dele. Nem deveria ter chegado a tal ponto, mas aconteceu. Porém, já deu o que tinha de dar.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.