Fora de Plano #08 | Raça de Víboras

O apóstolo S. João não estava para brincadeira. Fosse um espertinho se batizar sem a devida preparação, logo vinha o belo discurso repreensivo e um bom número de apelidos. “Filhos de serpente” e “raça de víboras” são os meus favoritos.

O apóstolo era uma espécie de filtro entre dois estágios da vida de uma pessoa. Para que o indivíduo pudesse passar a um outro nível era necessário “produzir frutos dignos”.

Produzir. Frutos. Dignos. A metáfora bíblica pode não ser mais lembrada, mas pode nos fazer pensar. E muito. Porque de filhos de serpente e raça de víboras o mundo está cheio. Gente que não deveria estar lá (ou aqui), mas está.

É possível encontrar essas espécies escondidas em repartições públicas, atrás dos guichês e dos telefones, atendendo mal às pessoas e reclamando de como está calor demais. É possível vê-las reclamando nas redes sociais que tem um cachorro ganindo de dor em frente à casa onde moram, mas elas são boas demais para sair da sala e ajudar. Basta fingir que se importam em rede mundial, com posts fofos e hashtags revolucionárias. Como políticos de todas as espécies. Aspirantes a estadistas. E pessoas que terceirizam culpas.

Deveria haver um S. João Batista em todo óvulo no momento da fecundação. O espermatozoide candidato só passava para o próximo nível se tivesse a possibilidade de produzir frutos dignos. Assim, nos veríamos livres de indivíduos cujo defeito deve ter vindo de fábrica. Ou cuja sensibilidade é tão comprometida que até uma ironia lhes soa como uma ofensa. Ou que poderiam desenvolver distúrbios mentais de toda ordem durante a vida, como é o caso dos racistas. Preconceituosos patológicos. Fanáticos religiosos. Eleitores de candidatos bandidos. Caloteiros e traidores. Pessoas que acham que sabem cantar e escrever. Mulheres e homens mal amados e mal comidos. Pessoas que brigam no metrô. Divas iludidas.

A tal raça de víboras serpenteia devagar por entre os humanos, disfarçada de parceira, de sócia, de colega de trabalho. Finge substituir alguém antes de arrancar-lhe o cargo de maneira infame. Ou se chamam cristãs mas vivem gritando aos vários ventos que queriam que tais e tais grupos de pessoas morressem, afinal de contas, faz todo sentido professar uma fé de um fundador pacifista e pregar a morte das pessoas não é mesmo?

Mas acima de tudo, a raça de víboras não reconhece seus erros. Nunca se arrepende. Essa é uma parte da metáfora que eu ocultei no início. Produzir frutos como um egoísta que se clama dono da verdade por todo o tempo de nada adianta. É um trabalho de sabor amargo. O reconhecer de uma falha e assumir de uma fraqueza dá toda a dignidade necessária àquilo que alguém produz na vida. E dá ainda mais força para brigar quando não há pelo que se arrepender.

Mas não são todos que entendem quando é um momento ou outro. Quando um lugar ocupado temporariamente não é seu. Quando deve-se pagar o que se deve, falar o que se pensa, achar o momento certo para cada coisa. Quando olhar pra trás e avaliar o que se fez da vida. Esta é a grande diferença entre homens e víboras. Um grupo faz. O outro só sibila.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.